sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Roberto Bolaños (1929-2014)


Morreu hoje o meu amiguinho Chaves do 8.

Morreu hoje o meu heroi atrapalhado Chapolin Colorado.

Morreu hoje um personagem para sempre na minha vida, e na de muitos outros.

Morreu hoje o genial Roberto Gomez Bolaños, pai e artesão de tipos verdadeiramente imortais.

Meu eterno agradecimento, mestre, pela arte do riso puro, genuíno e universal. Agora todos nós aqui na vila ficamos órfãos também.

Descanse em paz.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dilma Rousseff por mais quatro anos, no limite


Dilma Rousseff reelegeu-se no limite.

No limite de votos, com uma frente de apenas 3,5 milhões de sufrágios em um universo total de pouco mais de 105 milhões contabilizados como válidos no pleito deste 26 de outubro de 2014.

No limite da contagem, na medida em que ela virou a disputa voto a voto sobre Aécio Neves apenas às 19h32, após duas horas e meia de tensão no ar, que ainda se estenderia por mais meia hora, e já com 88,9% apurados em todo o país.

No limite da margem de erro, baseando-se na pesquisa de véspera feita pelo Datafolha e que apontou uma vantagem curta a seu favor, de 52% x 48% (a votação cravou exatos 51,64% x 48,36%).

No limite do apoio que ela poderia obter – e que de fato obteve – dos eleitores das regiões Norte e Nordeste, palcos de verdadeiras lavadas em cima do candidato do PSDB nos estados dessas regiões.

Mas, acima de tudo, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher a ser reeleita presidente do Brasil ao valer-se, no limite, de um discurso que na prática expirou nestas eleições de 2014: o do plebiscito PT x PSDB.

Por que em 2018, quando o PT completará quatro governos e 16 anos consecutivos no poder, o discurso de campanha calcado na comparação entre os mandatos petistas e os oito anos de Fernando Henrique Cardoso não terá qualquer efeito sobre boa parte da população.

O que aconteceu na segunda metade da década de 1990 e no início dos anos 2000 serviu de amparo para o PT trabalhar, com extrema competência, as disputas eleitorais desde 2002, quando chegou pela primeira vez ao poder com a vitória de Lula.

De lá para cá, a polarização entre tucanos e petistas favoreceu sempre a estes últimos em todos os confrontos em nível federal nos quais estiveram. Fruto tanto da junção dos inegáveis avanços sociais e econômicos das suas administrações como também do apuro no marketing político, que tem na figura de João Santana uma espécie de Midas desta seara.

Acontece que, muito provavelmente, esse modelo teve o seu esgotamento nas eleições encerradas ontem, em decorrência de um distanciamento natural que tornará o embate ainda mais obsoleto nos próximos anos.

É inimaginável projetar novamente um quinto choque desses dois partidos, daqui a quatro anos, tendo como pano de fundo o Brasil de 20 anos antes. É tempo demais até para quem viveu – e sofreu – com os problemas daquela realidade distante, em especial os enfrentados no segundo mandato de FHC.

Para a turma mais jovem será ainda pior. Soará complemente anacrônico para a garotada de 20 e poucos anos assistir a debates circunscritos à tese do "no tempo em que os tucanos eram governo...". O efeito prático pode ser semelhante ao de uma aula de história no ensino médio. Sinal dos tempos e do próprio êxito do PT em se manter no poder.

Caberá ao governo reeleito, além de administrar os inúmeros desafios que se apresentam no segundo mandato, traçar novas referências políticas daqui para frente, ainda mais tendo a oposição se fortalecido com a expressiva votação de Aécio Neves e com a ampliação da presença no Congresso Nacional.

Quatro anos é muito tempo na política, para o bem e para o mal. Mas, mesmo sem usar de futurologia, dá para cravar que pela primeira vez em muitos anos o Brasil assistirá em 2018 uma nova plataforma de campanha por parte do governo, diferente de tudo o que se utilizou como estratégia desde que subiu a rampa do Planalto.

Não se sabe o discurso e o modelo que serão utilizados pelo PT ao se apresentar para pleitear mais quatro anos no governo, independentemente do postulante ao cargo. É certo, contudo, que o grande desafio de Dilma Rousseff passa por destravar os nós ao quais o seu primeiro governo esteve preso, criando condições reais para fazer seu o sucessor – ou sucessora.

Sorte a ela e ao Brasil.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Hermes e Renato e o gênio Fausto Fanti


A geração laudatória dos stand ups feitos pela coxice conservadora para a classe-média-sapatênis talvez jamais entenda o ponto ótimo da genialidade mambembe num humor como o de Hermes e Renato.

A linha tosca do escracho canalha é a mesma dos primeiros anos de Os Trapalhões – coisa que muitos tentaram, mas pouquíssimos conseguiram captar. HeR emulou esse espírito para fazer algo novo para a época (final dos '90 e boa parte dos '00), com maior grau de anarquia e liberdade.

Despretensiosamente, fizeram história no humor brasileiro, de verdade, influenciando inclusive muitos dos que surfam por aí sem apresentar a metade do talento dos caras.

A patrulha politicamente correta e hipócrita do Facebook talvez não consiga sacar a dose cavalar de ironia e deboche contida nas paródias hiperbólicas e nos personagens mal acabados de HeR.

Um dos muitos registros geniais da trupe no YouTube (veja aqui) mostra o sarcasmo com as estrelas da stand up comedy – cuja maioria pensa o humor e o mundo de forma tão ou mais quadrada que qualquer velha-guarda da Praça É Nossa. Para HeR era um prato cheio ver péla-sacos dando sopa para piadas.

Mas fica a dúvida: quem vai se lembrar do monstro criativo que foi Fausto Fanti, falecido neste infeliz 30 de julho de 2014, daqui a 10 ou a 15 anos? "Foda-se, o Renato era foda!", diria Hermes, trabalhando o seu vocabulário refinado. E era foda mesmo.

Neste mundo blasé e cheio de falsas verdades, esse maluco aí fazer uma falta absurda.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O fim de Tóis

O fim de Tóis
por Joaquim Ferreira dos Santos*

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue dos antepassados

É pau, é pedra, é o fim do caminho da Civilização Tóis, aquela que os guerreiros do condado de Comary inventaram para dominar o planeta futebol e para todo o sempre ser invencível. Ela exigia de seus súditos o cumprimento em que a mão direita fazia o poste enquanto o antebraço esquerdo servia de travessão, formando o T da palavra mágica. “Pelos poderes de Tóis”, gritavam no meio das rodinhas antes das batalhas — e se julgavam mais motivados.

Ninguém sabia onde queria chegar aquela confraria de homens adolescentes, sempre caminhando em fila indiana, as mãos nas costas do guerreiro que seguia na frente. O mundo adulto ria, mas eles vinham de uma civilização na floresta onde o importante era ser fofo. Foi assim que se conheceram no pátio escolar, meninos com alegria nas pernas, e assim caminhariam, uma chuteira de cada cor, a barra da cueca à mostra. Diziam-se uma família.

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue vitorioso de seus antepassados e com poderes suficientes para viver isolados na nova civilização de orgulho que fundaram. João Gilberto sussurrou e criou a bossa nova. D. Pedro inventou um país com o “Independência ou morte”. Agora, os canarinhos tropicais fundaram Tóis, abaixo da fortaleza do Dedo de Deus. A rocha energizava seus pés, eles acreditavam, ajoelhados contritos no meio do campo.

Durante um mês, estes 23 soldados furaram o nevoeiro da serra onde se aquartelavam e, como se fossem entidades divinas surgindo em meio às brumas de Avalon, desciam à várzea para enfrentar os fariseus que ousavam desafiá-los, eles, os autoproclamados reis eternos do futebol mundial. Sentiam-se semideuses, falavam da magia do bigode grosso e da união do grupo. Eram os valores do mundo Tóis. Zero de conversa sobre futebol, pois já de tudo sabiam.

Os guerreiros de Tóis eram os mais tatuados das guerras, todos rabiscados com a miríade de possibilidades inventadas para se imprimir qualquer maluquice na pele de um ser humano. Julgavam que isso seria tática terrível para assustar outras tribos. Pintavam-se de caveiras, dragões, morcegos e hieróglifos. Um desses guerreiros, além da cabeleira em volutas como a Hidra de Lerna, escreveu no braço “Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono” — e supunha agora carregar ali a arma mortal de um para-choque de FNM. Morreria mais adiante, atropelado por um jogador alemão.

Antes das pugnas, os meninos de Tóis faziam questão de cantar inteiro o hino de seu condado, num impressionante festival de cenhos franzidos, gargantas arreganhadas e outros exageros da espécie. Seus antepassados, vencedores em cinco torneios, nunca souberam uma frase do tal hino, complicadíssimo. A encenação do canto a capela não tinha nada a ver com o jogo, não marcava gols e deixava os guerreiros emocionalmente exauridos. De onde estavam, no entanto, podiam ouvir o locutor dizer: “Estamos todos arrepiados”. Achavam por isso que estavam com a mão na taça.

Os guerreiros de Tóis chegaram a levar para o campo de batalha a túnica de um soldado ausente, ferido num combate anterior, numa tentativa mediúnica de incorporar as forças dele aos sobreviventes. Achavam possível utilizar a túnica de pano como arma de guerra. Vertiam lágrimas sob qualquer pretexto. Chorava mãe, chorava pai, chorava todo mundo. O mais velho conversava com uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.

Definitivamente, o ar rarefeito da montanha onde viviam isolados começava a lhes fazer mal. Gol, só de canela. A qualquer contato com o próximo, caíam ao chão, contorcendo-se em dores invisíveis ao mais detalhista dos raios x.

As ordens com que administravam os combates vinham de um velho pajé, gordo de tanto anunciar lasanha na TV. Sua tática era sempre a mesma: “Atacar com motivação, defender com autoajuda”. Ele agora tinha como truque principal a capacidade de se transformar em sósias e espalhar a confusão. Ninguém sabia afirmar com certeza quem era quem, mas diante de algum comentário mais lúcido costumava-se creditar as palavras ao sósia. Na Civilização Tóis todo mundo achou a multiplicação do técnico como uma versão moderna da multiplicação dos pães, o sinal metafísico de que a guerra, ao findar do sétimo passo, estaria ganha.

Os guerreiros de Tóis se achavam acima do bem, do mal e também por cima da carne-seca, o alimento da infância que agora havia sido trocado pelas marmitas mandadas trazer da Espanha, do novo restaurante do chef Ferran Adrià. Alguns pintavam o cabelo todo dia, mas nunca acertavam o corte. A guerra do futebol passou a ser apenas um detalhe, algo transmitido no telão onde avaliavam como lhes ia a beleza.

Não treinavam. Tinham a força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam. Tóis era a reunião de todos os poderes mais aqueles que os marmanjos adolescentes tinham visto nos videogames da caserna na serra — e, dedicados a se curtirem e se compartilharem nas redes sociais, nem perceberam o bicho vindo pelo meio de campo desocupado. Foram sete dentadas na vaidade, na preguiça, na ignorância e nos pescoços onde estava tatuado “Tudo passa”.

Nada passa, tudo fica — e fez-se o apagão eterno em Comary.

Nunca mais Tóis.

*Publicado em O Globo no dia 14/07/2014 (extraído de http://oglobo.globo.com/cultura/o-fim-de-tois-13247090)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A mãe de todas as tragédias para o futebol brasileiro


A ficha ainda não caiu totalmente. Como diz o clichê: será um processo longo e doloroso. Mas esse dia seguinte está sendo bem duro. Nessas horas em que o cenário de terra arrasada em ruas, esquinas e praças de norte a sul do país nos transforma quase em zumbis de "Walking Dead" por algum tempo – dias, meses? –, o sentimento coletivo dominante pode ser resumido em algo como MAS O QUE DIABOS FOI AQUELA DESGRAÇA, GENTE?

Não dá pra responder essa pergunta hoje, nem amanhã, talvez nem nos próximos sessenta anos. Não há software capaz de absorver o impacto de um asteroide como o que colidiu ontem no estádio do Mineirão e projetar no longo prazo seus efeitos sobre uma sociedade complexa e intrincada como a brasileira, cuja imagem para o mundo é calcada muito em cima dos êxitos dentro de campo. Não há vidente com tamanha capacidade de antevisão capaz de dizer, hoje, o que será do futebol brasileiro e do país do futebol (sic) depois de ontem, a partir de hoje.

Foi 7 a 1, amigo. SETE a um. Em casa. Numa Copa do Mundo. Numa semifinal de Copa do Mundo. Foram quatro gols em seis minutos. Acredito que nem os reservas do Goytacaz disputando a Série B do Campeonato Carioca se apresentariam com tamanha letargia a ponto de tomar quatro gols em seis minutos. Nunca vi, em cerca de 30 anos acompanhando apaixonadamente futebol, uma derrota como a de ontem. Acho que ninguém nunca viu nada como ontem em se tratando do maior esporte do mundo. Foi um tsunami de estragos cataclísmicos.

Os jornais, cujas capas deste amargurado day after já se apresentam como históricas, utilizam de todo o cartel possível de termos para desenhar o tamanho da porrada sideral: vergonha, vexame, humilhação, trauma, indignação, dor, revolta, frustração, irritação, pena, desilusão, fracasso, fiasco, pesadelo... O Houaiss pode ajudar a quem quiser com mais e mais sinônimos. E todos eles, juntos, parecem insuficientes para dimensionar a maior derrota da história do futebol brasileiro – talvez mundial, pelo menos em termos de magnitude global.

Questões táticas são fundamentais em qualquer abordagem sobre este Brasil 1 x 7 Alemanha, embora não encerrem o assunto. Vimos um bando alheio contra um time excelente em uma não partida. Jogadores fora de posição, perdidos enquanto conjunto, totalmente desarticulados, fisicamente frágeis e tecnicamente incapazes. Sim, foi tudo isso ao mesmo tempo, mas foi muito mais do que apenas isso. Porque uma derrota de sete a um entre dois gigantes numa decisão em Copa do Mundo traz em si o imponderável, aquilo que não podemos mensurar em números nem visualizar em esquemas de jogo.

Dito isso, a César o que é de César: o técnico Luiz Felipe Scolari ficará marcado como o mentor de um dos piores times que já envergaram a camisa amarela da Seleção Brasileira de Futebol. Não obstante sua insistência na convocação e escalação de jogadores que há muito não produzem em seus clubes, Felipão mostrou-se incapaz de armar uma equipe minimamente competitiva frente a adversários medianos no cenário internacional – caso de Chile, Croácia e México. Não vimos sequer um esboço do que poderia e deveria ser um Brasil disputando uma Copa em casa. Dependentes todo o tempo do gênio novato Neymar e da dupla de zaga David Luiz-Thiago Silva, nos revelamos limitados para uma competição de alto nível.

Noutra via, ficou claro a desatualização do futebol pentacampeão mundial se comparado ao de dezenas de outros centros – e não há vitrine mais apropriada para exibição do que se joga hoje no mundo que uma Copa. A impressão que todos os brasileiros tiveram ontem ao final do massacre é que, para além de um time melhor, com jogadores melhores, a Alemanha pratica algo anos-luz à frente do que o Brasil pode apresentar. E dá calafrios pensar que o modelo de jogo é a ponta de um imenso iceberg que envolve a busca por talentos, a criação de condições para o desenvolvimento dos atletas, um mercado pujante e clubes fortes, tudo estruturado numa política objetiva da confederação nacional. Estamos alijados desse mundo.

Foram muitos os que imaginavam a possibilidade da repetição do Maracanazo de 64 anos atrás como o mais terrível dos cenários em caso de uma nova decisão. Na prática, o Brasil – ironia dura de se engolir – sequer pisou no gramado do mais famoso estádio brasileiro durante a sua segunda Copa em casa, mas mesmo assim chegou ao ápice em termos de desfecho trágico. Porque nem no mais pessimista dos cenários, nem nas projeções mais sombrias, houve espaço para a possibilidade de uma eliminação por 7 x 1, independentemente do adversário e das dificuldades. A realidade se revelou mais surrealista e amarga que qualquer praga de black bloc.

Todos os erros do time, todos os vícios da comissão técnica, todas as falhas estruturais do futebol brasileiro, todo o check list de problemas que culminaram na tragédia do Mineirão serão alvo do escrutínio público de analistas esportivos, sociólogos, historiadores e comentaristas de redes sociais por muitas décadas. Haverá tempo de sobra, entre uma volta por cima e outra, para tratar a fundo do nosso 11 de setembro moral. Fato é que a Seleção Brasileira de Futebol, o time da camisa das cinco estrelas, sai menor do que entrou nesta excepcional "Copa das Copas" – que para nós será sempre a "Copa dos 7 a 1".

Na impossibilidade de voltar pra casa, fica a necessidade de reconstruir o nosso quintal a partir dos escombros que sobraram do fatídico 8 de julho de 2014. Não será um trabalho fácil, tampouco rápido. Mas se trata de um arregaçar de mangas inescapável. É preciso, de hoje em diante e em todos os sentidos, recriar o futebol brasileiro.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Copa do Mundo 2014: dia 7

Saldo resumido do sétimo dia da EXCEPCIONAL Copa do Mundo até aqui: três jogos, 11 gols, os dois primeiros classificados para as oitavas-de-final (Holanda e Chile, um deles adversário da Seleção Brasileira na próxima fase) e os três primeiros eliminados da competição (Austrália, Camarões e - pesmem - os campeões do mundo, Espanha).

Acho que amanhã, dia 8, teremos mais um classificado (Colômbia ou Costa do Marfim) e outras duas seleções dando tchau pro Mundial: Grécia e... Uruguai ou Inglaterra?

Veremos.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Copa 2014: 5 dias, 14 jogos e 3 profecias

Após 5 dias de Copa e 14 jogos (quase todos ótimos) disputados, é impossível para este humilde blogueiro evitar profetizadas de leve. Por ora, três assertivas a partir do que já foi apresentado em campo:

- A Suíça é um daqueles times chatos (no bom sentido) da competição, mas a França confirmará a liderança do seu grupo. Com isso, pegará o segundo colocado no grupo da Argentina (ou Bósnia, ou Irã, ou Nigéria). Diante de um cenário tão tranquilo como esse, dá pra cravar: a França já está nas quartas-de-final da Copa do Mundo.

- Ao golear Portugal por 4 x 0, a Alemanha provou hoje que, sim, também vai estar no Maracanã dia 4 de julho para enfrentar os franceses no duelo de quartas. Basta constatar que os germânicos terão pela frente nas oitavas o vice-colocado de um grupo com Bélgica, Rússia, Argélia e Coréia do Sul. Sem dúvida, teremos um França x Alemanha no Maraca.

- A sorte monstro que a Argentina deu no sorteio dos grupos e do chaveamento, que conferiu aos hermanos o grupo mais fácil da Copa, fará diferença não apenas nas oitavas, quando provavelmente pegarão a Suíça, mas também nas quartas-de-final. Salvo a ocorrência de uma Bélgica histórica neste Mundial, Messi e cia. jogarão a segunda semifinal em São Paulo.

De resto, por enquanto, não me arrisco. Será que o Deus Futebol embaralha todas essas "certezas"?

Que siga a Copa das Copas!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Vai ter Copa


Faltam pouco mais de 48 horas para o início da partida inaugural da Copa do Mundo de 2014 entre Brasil x Croácia, no ainda inacabado estádio Itaquerão.

Sim, vai ter Copa.

Vai ter Copa, sim, ao contrário do que alguns grupos radicais apregoaram em rede sociais e manifestações violentas durante meses, desde a eclosão dos protestos populares de junho de 2013.

Vai ter Copa à brasileira, com tudo o que há de bom e de ruim num país gigante em suas riquezas e diversidades naturais e culturais, embora múltiplo em suas contradições sociais fruto de uma longa história de negligência.

Vai ter, sim, a Copa dos prazos vencidos, das obras inconcluídas e do legado em xeque, marcas indeléveis de um Brasil que permanece arcaico e que motivará, por certo, novos cartazes nas ruas, agora talvez com foco em 2016.

Vai ter, por outro lado, a Copa enquanto evento esportivo, como ela sempre foi por onde aportou. Jamais haveria a Copa idílica que salvaria o Brasil de suas próprias mazelas, pagando dívidas históricas que são exclusivamente nossas.

Vai ter a Copa sem o "pão e circo" que querem imputar injustamente ao futebol, traço cultural inequívoco do povo brasileiro. Porque no Brasil há esportes e há o futebol. Nele nos revelamos reis, e por ele o país se mostrou ao mundo. A "amarelinha" é a nossa bandeira branca universal.

Vai ter a Copa da invasão de turistas ávidos por bola e pelo inescapável clichê "Brazil: Samba, Sol, Praia & Caipirinha" – possivelmente bem menos interessados em reparar nos nossos problemas mundanos, mas que para nós potencializam-se enormes.

Vai ter a Copa popular, dos personagens e das imagens de sempre: das ruas pintadas, das festas de comemoração das vitórias, do mar de camisas amarelas transitando apressadas nos dias de jogos. Vai ter o êxtase do título sofrido ou (toc toc toc) a decepção da derrota amarga?

Vai ter, é claro, a Copa do melhor futebol do mundo e dos estádios lotados.

Vai ter a Copa de Neymar e de uma Seleção Brasileira carregando a missão épica de apagar um fantasma que insiste em perdurar, por mais que tenha ficado para trás o trauma do Maracanazzo de Ghiggia e Barbosa. Aliás, será que ficou para trás mesmo?

Vai ter a Copa das demais grandes seleções e de (quase) todos os seus craques. De Messi a Touré, de Rooney a Iniesta, de Balotelli a Müller, de van Persie a Sanchéz, de Suárez a Cristiano Ronaldo, apenas um deles, ou talvez nenhum deles, sairá mítico dos campos brasileiros.

Vai ter Copa, sim. Vai ter um mês de festa no Brasil, e de festa do Brasil para o mundo. Será a Copa com a cara e com o jeito brasileiros, com os nossos defeitos e principalmente com as nossas virtudes. Já dá para dizer, mesmo de última hora, que esta será a Copa do povo brasileiro.

Vai dar certo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Caso Copa União 1987: depois de 27 anos, o "Dia D". Será mesmo?

Semana decisiva para o "Mais Querido do Brasil" dentro e fora de campo. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) vai retomar na tarde da próxima quinta-feira (20), em Brasília, o julgamento sobre o polêmico título da Copa União 1987 envolvendo o Clube de Regatas do Flamengo e o Sport Clube do Recife. A 3ª Turma do STJ iniciou a análise do caso em 3 de dezembro do ano passado, mesmo dia em que houve a suspensão do julgamento após um pedido de vistas do ministro Sidnei Beneti.

A relatora do caso, ministra Nancy Andrighi, afirmou no seu voto que o clube pernambucano extrapola a sentença judicial de 1994 - que confere ao Sport o título de campeão brasileiro de 1987 - ao pedir a revogação da resolução de 2011 da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na qual a entidade considera o Flamengo também o campeão brasileiro de 1987. A ministra votou preliminarmente pela extinção do processo, reconhecendo a inadequação da medida tomada pelo Sport.

A POLÊMICA

A CBF desistiu de organizar o Campeonato Brasileiro de 1987, alegando na ocasião falta de recursos financeiros. Surgiu então o Clube dos 13, que manteve a competição em vigência rebatizando-a de Copa União. O torneio foi vencido pelo Flamengo em decisão contra o Internacional. A CBF, durante a disputa da Copa União, voltou da decisão inicial e então criou o Módulo Amarelo, com 16 outros clubes e que teve o Sport como seu campeão e o Guarani como vice. O torneio principal passou a ser tratado como Módulo Verde.

A entidade máxima do futebol brasileiro determinou então que teria de haver um cruzamento quadrangular entre os campeões e os vices dos dois módulos para que fosse definido o real campeão brasileiro daquele ano. O Flamengo e o Internacional se negaram a jogar o tal quadrangular decisivo, o que fez a CBF anunciar Sport como o campeão brasileiro de 1987 - decisão confirmada em 1994 na Justiça. Desde então Flamengo e Sport travam uma guerra judicial em torno do caso, que pode ter um fim, após 27 anos, nesta semana.

A polêmica - possivelmente a maior em toda a história do esporte brasileiro - também tem o São Paulo Futebol Clube como um dos envolvidos por conta da famosa Taça das Bolinhas, criada pela CBF para premiar o primeiro clube que vencesse o Campeonato Brasileiro três vezes consecutivas ou cinco vezes intercaladas. Com a oficialização do título de 1987, o Flamengo seria o real detentor da Taça, por ter sido o primeiro clube a ganhar cinco vezes o Campeonato Brasileiro de Futebol desde 1971, quando começou o torneio.

Leia mais em O que faz de alguém um campeão?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Aos meus arquirrivais


Prezados rivais,

Como rubro-negro – melhor dizendo: como flamenguista – apaixonado que sou, manifesto publicamente o meu orgulho em poder olhar de igual para igual para vocês, adeptos dos dois grandes arquirrivais do meu time.

Independentemente das derrotas ou das vitórias que acumulamos em décadas de rivalidade, nossos adversários sempre honraram suas respectivas camisas, verdadeiros pavilhões que representam os vários capítulos de glórias esportivas OBTIDAS APENAS E TÃO SOMENTE DENTRO DE CAMPO.

É sob essa premissa irrefutável do "jogo jogado" que se faz um clube verdadeiramente grande.

Ao Club de Regatas Vasco da Gama e ao Botafogo de Futebol e Regatas, oponentes do bom combate, meus sinceros respeitos.

Saudações Rubro-Negras

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Jayme de Almeida


O título da Copa do Brasil 2013 conquistado brilhantemente pelo Flamengo fez justiça a um personagem necessário ao futebol brasileiro. Jayme de Almeida, ex-jogador e funcionário do clube há alguns anos, transparece a imagem de um monge budista, um pároco interiorano, um sábio acadêmico. Fala mansa, ideias claras, pensamento linear, modo simples e objetivo de ver as coisas. Características raras hoje em dia, em se tratando de um "mercado" onde coabitam professores de linguajar pseudo-empolado e posudos metidos a PhDs, todos detentores de cifras indecentes.

Jayme esperou pacientemente alguns (muitos) anos pela oportunidade de se firmar como técnico do seu clube de coração. Curiosamente, a chance veio como um desafio equivalente à dimensão gigante do Flamengo: em meio a um campeonato claudicante para o rubro-negro da Gávea, no qual a alternância de vitórias magras e derrotas amargas fez Mano Menezes – contratado como estrela da companhia – pedir o boné. Jayme foi efetivado às pressas, com a missão de livrar o clube de um inédito rebaixamento e de tocar a Copa do Brasil na base do "até onde der".

E deu!

Não há dúvida de que os méritos do terceiro título flamenguista na segunda competição mais importante do futebol brasileiro residem, em grande medida, na capacidade admirável que Jayme teve em transformar um grupo perdido do ponto de vista técnico numa equipe coesa, com peças fixas e ciente das suas limitações, mas principalmente revigorada em termos de dedicação. Jogadores como Paulinho, Hernane Brocador, Amaral Pitbull, Wallace, Chicão, Elias e Luiz Antônio, entre outros, transfiguraram-se de coadjuvantes a destaques num time em ascensão. E as vitórias vieram, vieram, vieram...

Jayme é mais um personagem na já longa lista de técnicos campeões que o Flamengo forma em casa. Se junta, portanto, a Zagallo, Claudio Coutinho, Paulo César Carpegiani, Carlinhos, Andrade... Todos conhecedores das coisas do Flamengo, de como funciona o efervescente caldeirão político da Gávea, todos talhados na intensidade de conviver junto à maior torcida do Brasil. Jayme, nesse 2013 que se encerra, pareceu tirar o peso de letra. Não só eliminou o risco de descenso com vitórias convincentes como amealhou um título improvável de início, mas merecidíssimo no seu apogeu.

A Jayme de Almeida, rubro-negro de corpo, alma e coração, os meus sinceros agradecimentos. E que o caminho das vitórias continue sendo trilhado no mesmo ritmo de serenidade que o levou à conquista da Copa do Brasil. É o que todos os flamenguistas esperamos.

Saudações Rubro-Negras

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A briga pelo rebaixamento no Brasileirão 2013: dez constatações e nenhum pitaco

- A Ponte Preta é o único dos cinco times que brigam mais diretamente para não cair que ainda está envolvido em outra competição – a Copa Sulamericana.

- O Vasco é único time que não terá mais confrontos com adversários diretos – o chamado "jogo de seis pontos".

- Haverá apenas dois confrontos diretos entre os que hoje brigam para fugir do rebaixamento: Criciúma x Ponte Preta, na 32ª rodada; e Bahia x Fluminense, na 38ª rodada.

- O Vasco é o time que terá mais jogos contra times que hoje estão no G4: três (Grêmio fora, Cruzeiro em casa e Atlético-PR fora). Bahia, Ponte Preta e Criciúma terão dois jogos cada contra "G4s". O Fluminense não terá nenhum.

- Dos cinco times, apenas Bahia e Ponte Preta terão mais jogos fora do que dentro de casa – sendo que dos quatro jogos fora de casa que o Bahia fará dois deles serão contra times do G4. O Fluminense vai jogar quatro dos sete jogos em casa, mas um será em campo neutro, contra o Flamengo.

- A Ponte Preta é o único dos cinco times que não vai enfrentar o já rebaixado Náutico na sequência do campeonato.

- O Vasco é o único time que terá duas sequências de dois jogos seguidos dentro de casa (Coritiba e Santos, Cruzeiro e Náutico).

- Até o final do campeonato, Fluminense e Criciúma não terão mais que enfrentar sequências de dois jogos seguidos fora de casa.

- Dos sete jogos que restam ao Fluminense, seis serão contra times sem objetivo (Náutico) ou que ocupam a zona intermediária da tabela (Atlético-MG, Santos, São Paulo, Internacional, Flamengo, Corinthians, Coritiba e Portuguesa: times que têm poucas chances ir à Libertadores e baixo risco de rebaixamento). Bahia e Vasco têm quatros jogos cada contra essas equipes; Ponte Preta e Criciúma têm apenas dois.

- Ponte Preta (35ª rodada) ou Vasco (36ª rodada): um dos dois tem boas possibilidades de ser o adversário do Cruzeiro no jogo da confirmação do título Brasileiro de 2013.

BAHIA

32ª RODADA
Grêmio x Bahia (F)
33ª RODADA
Bahia x Atlético-MG (C)
34ª RODADA
Santos x Bahia (F)
35ª RODADA
Náutico x Bahia (F)
36ª RODADA
Bahia x Portuguesa (C)
37ª RODADA
Cruzeiro x Bahia (F)
38ª RODADA
Bahia x Fluminense (C)

FLUMINENSE

32ª RODADA
Flamengo x Fluminense (N)
33ª RODADA
Corinthians x Fluminense (F)
34ª RODADA
Fluminense x Náutico (C)
35ª RODADA
Fluminense x São Paulo (C)
36ª RODADA
Santos x Fluminense (F)
37ª RODADA
Fluminense x Atlético-MG (C)
38ª RODADA
Bahia x Fluminense (F)

PONTE PRETA

32ª RODADA
Criciúma x Ponte Preta (F)
33ª RODADA
Ponte Preta x Vitória (C)
34ª RODADA
Goiás x Ponte Preta (F)
35ª RODADA
Cruzeiro x Ponte Preta (F)
36ª RODADA
Ponte Preta x Grêmio (C)
37ª RODADA
Ponte Preta x Portuguesa (C)
38ª RODADA
Internacional x Ponte Preta (F)

VASCO

32ª RODADA
Vasco x Coritiba (C)
33ª RODADA
Vasco x Santos (C)
34ª RODADA
Grêmio x Vasco (F)
35ª RODADA
Corinthians x Vasco (F)
36ª RODADA
Vasco x Cruzeiro (C)
37ª RODADA
Vasco x Náutico (C)
38ª RODADA
Atlético-PR x Vasco (F)

CRICIÚMA

32ª RODADA
Criciúma x Ponte Preta (C)
33ª RODADA
Náutico x Criciúma (F)
34ª RODADA
Criciúma x Atlético-PR (C)
35ª RODADA
Coritiba x Criciúma (F)
36ª RODADA
Criciúma x Vitória (C)
37ª RODADA
Criciúma x São Paulo (C)
38ª RODADA
Botafogo x Criciúma (F)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Pitacos soltos sobre o Rock in Rio 2013

Em sua nova fase na terra natal, iniciada em 2011 e que será encerrada (provavelmente) em 2015, o Rock in Rio se solidificou como um megaevento de marcas e produtos, uma agenda social para o povo local ver e ser visto, um grande programa-família – este, aliás, sempre foi um desejos dos organizadores, desde 1985. Se empresarialmente isso garante aos Medina ingressos sold out em poucas horas de venda, independentemente de o line-up ter sido ou não divulgado em sua totalidade, artisticamente deixa correr frouxo um certo desdém quanto ao apuro das atrações musicais. Só isso justifica nomes obscuros pisarem no palco principal da Cidade do Rock.


O efeito disso é que, mesmo durante os shows mais aguardados, era notório antes da metade das apresentações um clima de "tô nem aí" para o que estava rolando no palco. Era gente sentada na grama papeando sobre as fases da lua, garotada catando brinde de stand em stand, pessoal mais velho fotografando as casinhas de brinquedo da Rock Street, filas de fast foods lotadas... Para quem está ligado exclusivamente no som, esse tipo de reação não deixa de causar certo incômodo. Em shows normais, mesmo nos mais populares, dificilmente se vê esse tipo de falta de comprometimento. Mas aqui é festival – aliás, aqui é Rock in Rio, bebê.


Sobre os shows que me agradaram, destaco: Bruce Springsteen botando os sete dias de festival no bolso e indo para a galera; Justin Timberlake refinando em elegante verniz soul o seu bom pop de pista, amparado luxuosamente pela melhor banda que pisou no Palco Mundo (The Tennessee Kids); a ótima infusão da poesia agreste de Zé Ramalho com a distorção do Selputura, gerando um monstro imediatamente batizado de Zépultura; a teen party do Offspring, que fez muito marmanjo voltar a ter 19 anos; a introspecção do Alice in Chains; a classe de George Benson e Ivan Lins; a força do Living Colour; a brasilidade de Moraes, Pepeu e Roberta Sá.


Top 10 dos melhores shows (pela ordem cronológica do line-up):
 
  • Living Colour + Angélique Kidjo
  • The Offspring
  • Muse
  • George Benson + Ivan Lins
  • Alicia Keys
  • Justin Timberlake
  • Alice in Chains
  • Bruce Springsteen
  • Sepultura + Zé Ramalho
  • Iron Maiden
 
Top 10 dos piores shows (pela ordem cronológica do line-up):
 
  • Cazuza - O Poeta Está Vivo
  • Capital Inicial
  • Thirty Seconds To Mars
  • Saints of Valory
  • Sebastian Bach
  • Ghost B.C.
  • Mallu Magalhães + Banda Ouro Negro
  • Nickelback
  • Phillip Phillips
  • Lenine

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Chiclete sem Bell: a "Terça-Feira de Cinzas" para o Carnaval da Bahia



"Um céu sem estrelas
 Uma praia sem mar
 Amor sem carinho
 Romance sem par
 Carnaval sem festa
 Um jardim sem flor..."

Fosse escrita por um fã apaixonado nesta terça-feira, 10 de setembro de 2013, a letra da música "100% Você" possivelmente teria a inclusão de um novo verso:

"Chiclete sem Bell"

Como assim "Chiclete sem Bell"? "Bell sem Chiclete"? Que papo é esse, meu rei? Como tentar dissociar, na figura expressiva do seu criador, cantor, guitarrista e líder, a única imagem que vem a mente quando se fala da maior banda da Bahia e das maiores do Brasil?

Pois os fãs ardorosos do Chiclete com Banana, imortalizados pela feliz alcunha de "chicleteiros", passarão a noite de hoje e dos próximos dias (semanas, meses...) tentando responder a essas e outras perguntas. Ao derradeiro acorde emitido pelos amplificadores do trio elétrico no dia 4 de março de 2014, finalizando assim o último dia de desfile do bloco Camaleão, estará desfeita não apenas uma parceria de grupo, de amigos e de família, mas a essência de uma legenda imortalizada em décadas de carnaval baiano. Bell Marques estará oficialmente fora da banda que o consagrou como ídolo, artista e empresário. Dali em diante será Chiclete sem Bell, Bell sem Chiclete.

É exercício de redundância explicar a força do Chiclete sobre o caminhão para alguém que já viu a banda em ação nas ruas de Salvador durante a folia momesca. Já aos desavisados, que estreavam no carnaval sem saber muito bem do que se tratava, era sempre muito divertido assistir a reação de estarrecimento quando a banda iniciava as apresentações e carregava consigo, dentro e fora das cordas do bloco, na frente e atrás do trio, a incontável massa de seguidores. Muitos custavam a entender como aquilo tudo funcionava, de onde vinham os gigawatts de energia humana que abasteciam horas e horas de desfile, de que forma aquele sujeito barbudo, um tanto baixinho e de lenço na cabeça conseguia levar a festa tão incrivelmente bem, com tanta segurança e de forma tão harmoniosa.

"Que força é essa?", perguntava Bell Marques numa de suas dezenas de hits. Nem ele sabia dizer.

A saída do vocalista do Chiclete com Banana de sua eterna banda, anunciada oficialmente hoje para surpresa de quase todos, deixa uma enorme lacuna aberta no Carnaval da Bahia, que possivelmente jamais será preenchida por completo. Em quase 35 anos de asfalto e sol na cabeça, o grupo se estabeleceu com sobras no posto de maior e mais importante banda da festa, fato que era comprovado não apenas pelos caros abadás esgotados semanas antes da folia, mas principalmente pela "pipoca" de populares ensandecidos que era carregada do início ao fim do percurso, fosse do Farol da Barra à Ondina, fosse do Campo Grande à Praça Castro Alves – passando pela Avenida Sete.

Um pouco sobre a história da banda e dos rumos recentes (na minha opinião equivocados) tomados pelos gestores do Carnaval de Salvador já foram publicados aqui neste blog, em post de janeiro de 2010.

No emocionado vídeo postado hoje no YouTube, onde anuncia a sua decisão de descer definitivamente do trio do Chiclete, Bell deixa claro que seguirá em carreira solo após o carnaval e que a banda não será desfeita, ganhando assim um novo vocalista. O depoimento não esconde que "desgastes, conflitos e divergência de opiniões" minaram a parceria – artística e comercial – de longa data que ele mantinha com dois irmãos e um amigo (ex-músico da banda). O vídeo parece evidenciar que a ficha ainda não caiu muito bem para o cantor, não só pelas lágrimas e pela voz embargada, mas pela sensação de que ele sai de cena tendo perdido uma batalha interna, que o fez abrir mão da marca e do grupo que o forjou para sempre como um gigante do carnaval brasileiro.

Ninguém sabe como ele reagirá nos dias que marcarão o seu último carnaval carregando o Chiclete com Banana. Será certamente um carnaval muito peculiar para os fãs, que terão de dosar a alegria natural da folia com a triste sensação de “fim de festa”.

Aqui, deixo um depoimento pessoal: já são 14 anos, 14 carnavais em que brinquei ao som do Chiclete no Carnaval em Salvador, dentro dos blocos Camaleão, Nana Banana, Voa Voa e Nana Pipoca. Perdi a conta dos dias e das horas que esse período somado representa, embora guarde na memória (apesar das latinhas de cervejas) um longa metragem composto de cenas e momentos inesquecíveis, memoráveis, que irão sempre comigo para onde eu for. 2014 será o meu 15º e provavelmente último carnaval com o Chiclete com Banana pelas ruas da Bahia. Estou certo de que não haverá pessoa alguma no mundo capaz de substituir o "Bell do Chicletão" no seu próprio grupo, motivo mais do que suficiente para colocar um ponto final nesse meu casamento de tantos anos.

Uma página que vira para ele, para a banda e para mim.

E eu só posso dizer, por tudo o que vivi e por todas as alegrias que senti, que valeu, Bell. Valeu demais.

Foi lindo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O Flamengo e os primeiros turnos na Era dos Pontos Corridos

Um breve levantamento nas estatísticas históricas do Campeonato Brasileiro de 2003 até hoje é capaz de mostrar com clareza a dificuldade do Clube de Regatas do Flamengo em se adaptar, de maneira competitiva, ao modelo de pontos corridos na competição. Ao menos se forem levados em conta os primeiros turnos de cada ano.

Já são 11 anos em que o Brasileirão adotou o formato no qual todos jogam contra todos, em partidas de ida e volta, e onde se sagra vencedor quem somar mais pontos. Nesse período, o Flamengo só conseguiu alcançar mais de 50% de aproveitamento ao fim da primeira metade de disputa em cinco oportunidades – incluindo 2009, quando acabou campeão. E em apenas um ano – 2011, quando tinha Ronaldinho Gaúcho em seu plantel – encerrou o turno no G4 dos classificados à Libertadores da América.

Abaixo, o levantamento com a posição na tabela, os número de participantes, a pontuação e o aproveitamento:

2003 - 13º de 24, 29 pontos (42%)

2004 - 22º de 24, 20 pontos (29%)

2005 - 18º de 22, 23 pontos (36,5%)

2006 - 13º de 20, 23 pontos (40,4%)

2007 - 7º de 20, 29 pontos (50,9%)

2008 - 7º de 20, 31 pontos (54,4%)

2009 - 7º de 20, 29 pontos (50,9%)

2010 - 14º de 20, 22 pontos (38,6%)

2011 - 2° de 20, 36 pontos (63,2%)

2012 - 7º de 20, 29 pontos (50,9%)

2013 - 15º de 20, 22 pontos (38,6%)

Mais até que mostrar os resultados obtidos pelos elencos que defenderam o Flamengo ao longo dos anos, a relação acima deixa claro que, salvo uma recuperação fora da curva da normalidade, o torcedor rubro-negro deverá ter bons motivos para rezar pela intervenção de São Judas Tadeu este ano.

Com 38,6% de aproveitamento e apenas 5 vitórias nos primeiros 19 jogos, a campanha do Flamengo em 2013 é praticamente idêntica à de 2010, quando o time de Vanderlei Luxemburgo manteve no returno o desempenho ridículo do turno. Vale lembrar que, na ocasião, o Flamengo só se salvou do rebaixamento devido a uma improvável combinação de resultados e de tabela (nas duas últimas rodadas) entre Vitória e Atlético-GO, que acabou livrando o time da Gávea e mandando o coirmão baiano para a Segundona.

O fraco percentual de aproveitamento no primeiro turno deste ano fica acima apenas das pífias campanhas de 2005 e 2004. Em ambos os anos o sofrimento para a Nação Rubro-Negra foi até as rodadas finais: em 2005, o time acabou salvo por um gol espírita de Obina contra o Paraná em Curitiba, coroando uma campanha de recuperação impressionante conduzida por Joel Santana; em 2004, salvou-se do risco de cair graças, entre outros parcos êxitos, a uma vitória contra o Palmeiras em pleno Parque Antártica.

Como esperança para a "maior torcida do mundo" há o fato de que as histórias – para o bem ou para o mal – nunca se repetem. Tempo e pontos a disputar existem para o time se recuperar no campeonato. Fica a dúvida se o campeonato, com suas surpresas e infindáveis possibilidades, pode dar uma mãozinha ao Flamengo este ano. A torcida agradeceria.

SRN

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A primeira vez de Zico nas páginas d'O Globo

Ainda viajando nos arquivos digitalizados dos 88 anos de história d'O Globo, resolvi procurar a primeira menção que o jornal fez ao maior craque da história do Flamengo.

Encontrei!

No dia 4 de maio de 1970, ao final de um pequeno texto na página 8-B sobre um jogo do time juvenil da época, o jornal publicou:

"Na preliminar, pelo Campeonato Carioca de Escolinhas, o Flamengo goleou o Campo Grande por 8x0. Zico, irmão de Edu, do América, marcou 5 'goals' e é o artilheiro absoluto do certame com 15 tentos".

Pois é, essa foi a primeira citação que O Globo fez ao nome Zico. Daí pra frente, a história pode contar o resto...

SRN

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Sucesso do Quarteto Dos "Beatles"

Ao lado de dois pequenos anúncios para tratamento de psoríase e hemorróidas, a legenda da foto da agência de notícias UPI relata o tumulto que "os quatro rapazes de Merseyside" (isso mesmo, nada de Liverpool) causaram ao desembarcar no aeroporto de Londres após uma excursão a Estocolmo. O texto fala ainda do rastro de histeria que uma "verdadeira multidão de jovens" deixou na perseguição aos rapazes em emissoras de TV da capital inglesa, dias após o retorno da viagem à Suécia.

A data era 11 de novembro de 1963. Pela primeira vez, o jornal carioca O Globo fazia referência ao grupo formado por "Paul Macartney, Ringo Stars, John Lennon e George Harrison", segundo a grafia impressa na página 26 da edição desse dia. Daí pra frente é história.

A página e a edição histórica que pela primeira vez fala da maior banda de todos os tempos está disponível desde o último final de semana no site do jornal, que pôs na internet todo o seu acervo de quase um século de imprensa. Para quem gosta de viajar no tempo passado em busca de registros de grandes momentos, ou de momentos particularmente interessantes, o acervo digitalizado de O Globo é um banquete irresistível, capaz de puxar a pessoa horas a fio para a frente do computador.

Fica a dica.
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A graça do jornalismo

Durante o programa CBN Rio de hoje, uma repórter noticiava o assassinato de um jovem por marginais que tentaram roubar, pela manhã, o carro que ele dirigia na cidade de Nova Iguaçu.
 
A repórter, lendo um breve texto, informou que um dos assaltantes havia deixado a carteira de documentos cair durante a ação criminosa, e que isso possivelmente facilitaria o trabalho da Polícia nas investigações.
 
Após o relato da repórter, o âncora do programa, Octávio Guedes, fez questão de confirmar com ela se o ladrão havia mesmo deixado a carteira de identidade cair no assalto, para logo depois soltar uma sonora gargalhada e dizer algo do tipo: "esse aí merece ser preso duas vezes, uma por ser criminoso e outra por ser burro! Hahahahahaha!!!". A outra apresentadora do programa, Lílian Ribeiro, gargalhava junto com Octávio.
 
Aí vieram os comerciais, e as vidas do Octávio, da Lílian e a minha seguiram em frente. Mas aquele momento sublime e sincero de intensa alegria não saiu da minha cabeça durante o dia.
 
Talvez porque as gargalhadas efusivas dos apresentadores do CBN Rio durante o programa, levando para a galhofa escancarada a história de quem morreu "atrapalhando o trânsito", traduzam a mais perfeita e fiel trilha sonora para a falência de princípios e de valores que atingiu em cheio essa minha profissão.
 
Vergonha é pouco para o que eu senti naquele momento por ser jornalista.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Chora, sanfona...

Uma das músicas mais tristes que eu já ouvi em toda a minha vida. E das mais lindas, certamente.

Obrigado, Dominguinhos.

*****



"Lamento Sertanejo"
Composição: Gilberto Gil / Dominguinhos

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Meu filho Theo



Você ainda não tem uma semana no mundo, mas já foi capaz de fazer o mundo mudar por completo para mim.

Não sei bem como tentar traduzir em poucas linhas a profundidade do amor que me une a você.

A rigor, eu nem tenho essa pretensão inalcançável.

Gostaria apenas de lhe agradecer pela aula de vida que você vem me dando.

Nesses últimos meses, ficava pensando sobre a responsabilidade de ensiná-lo sobre as poucas coisas que julgo saber.

Bastou alguns momentos, contudo, para que tudo estivesse no seu devido lugar.

E aqui estou eu, na posição de aluno (babão, é verdade), vivendo e aprendendo com meu pequeno professor.

Aprendi que a aparência frágil, inocente e angelical que você carrega não é capaz de revelar a imensidão da sua força interior.

Sim, apesar de ainda miudinho e tão novo, você já nos mostrou o quanto é forte e determinado.

Essa tua garra me serve muito de lição, pode acreditar.

"De um lado, a necessidade de proteção total; do outro, um espírito de leão disposto a conquistar inúmeras vitórias".

Esse é o Theo, desde já um orgulho imensurável para o pai.

Estou disposto a continuar aprendendo diariamente com você, filho.

E me surpreendendo cada vez mais.

Obrigado.