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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Axé da Bahia, do Brasil para o mundo

São muitos os méritos de "Axé - Canto do Povo de um Lugar", documentário que estreou ontem nos cinemas narrando a história de linhas tortas, mas de estrondoso sucesso, da música carnavalesca feita em Salvador para o Brasil e o mundo. O filme abrange todas as pontas do movimento musical que nasceu mambembe e cresceu estruturado como indústria, fomentando músicos e compositores, gerando milhões em receita e consagrando dezenas de artistas como astros e estrelas do showbiz nacional.

Como documento histórico, o longa-metragem de Chico Kertész tenta decifrar a origem do som dançante que dominou as paradas de sucesso de rádios e TVs brasileiras por mais de duas décadas, e acaba mostrando que tudo cabia naquele liquidificador sonoro: o frevo dos trios elétricos dos anos 1970, a guitarra baiana de Armandinho, as influências latinas de Gerônimo, a batida do samba-reggae criada por Neguinho do Samba para o Olodum. Tudo podia ser "axé music" naquele cenário de efervescência e inventividade que dominava a cena cultural soteropolitana, alimentada pelos investimentos em novas bandas feitos pelos blocos de carnaval e pelo estúdio WR.

Luiz Caldas, como o primeiro astro nacional do movimento, trouxe consigo uma primeira leva de artistas para um Brasil que aprendia a dançar com trejeitos e sotaques. Vieram Reflexus, Banda Mel, Chiclete com Banana, Sarajane, Cheiro de Amor, Banda Beijo... Em Daniela Mercury, a primeira estrela internacional. Um furacão que pôs a Bahia, a partir do início daqueles anos 1990, como o principal polo produtor das maiores e mais impressionantes vendagens da indústria fonográfica brasileira por anos seguidos – Banda Eva, Netinho, É o Tchan! e Terra Samba tiveram um punhado de discos de diamante (mais de 1 milhão de cópias por álbum) para chamar de seus.

Fechando com o fenômeno Ivete Sangalo – há mais de uma década a artista mais popular do Brasil – e apontando para Saulo Fernandes o que pode ser a continuidade num momento de declínio comercial e de prestígio em baixa, muito em função da perda de conexão com a nova geração consumidora, "Axé..." retrata com fidelidade e precisão o movimento musical de maior sucesso do país surgido e estruturado 100% fora do eixo Rio-SP. Uma monstruosa indústria de ritmos, hits, modismos, lucros, egos e sonhos que só podia ter acontecido, do jeito totalmente porreta que aconteceu, na Bahia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Dez discos de 2016 para se escutar em 2017 (e em 2018, 2019...)

24K Magic (Bruno Mars): O melhor do new jack swing noventista rejuvenescido em grande estilo pelo cara que manda e desmanda hoje em dia.

- ANTI (Rihanna): Contando com uma excepcional releitura de "Same Ol' Mistakes", do Tame Impala, a mulé lacrou geral nazinimiga – de novo.

- Blackstar (David Bowie): Uma aula de dignidade e de boa música no epílogo de um grande mestre. Cara que faz uma falta da porra...

- Blue & Lonesome (The Rolling Stones): As raízes expostas no blues que ajudaram a forjar a maior banda de rock em atividade. Imperdível.

- Duas Cidades (BaianaSystem): O pós-Axé que pulsa na periferia de Salvador fala pro mundo inteiro. Coisa de gente grande e antenada.

- Gatos e Ratos (Odair José): O cronista popular reencontrou a boa forma no bom e velho rock'n'roll. Não sobra pra ninguém neste ótimo disco.

- Mahmundi (Mahmundi): Principal revelação da música brasileira em 2016. Álbum que renova as esperanças em muita coisa. Apenas excelente.

- O Problema É A Velocidade (Emanuelle Araújo): A baiana tirou onda com um disco lírico, cheio de nuances, mas sem dispensar o suingue nagô.

- Sky High (Fish Magic): O segundo trabalho solo do brother Mário Quinderé é denso e bebe de muitas fontes, resultando num rock atemporal.

- Starboy (The Weeknd): Apesar de excessivamente longo, o petardo pop tem belíssimos momentos, como as duas parcerias com Daft Punk.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Dez shows da minha vida

  • Paul McCartney, Rio (Maracanã), 1990
  • Michael Jackson, SP (Morumbi), 1993
  • Legião Urbana, Rio (Metropolitan), 1994
  • Stevie Wonder e Gilberto Gil, Rio (Metropolitan), 1995
  • The Police, Rio (Maracanã), 2007
  • Roberto Carlos, Rio (Maracanã), 2009
  • U2, SP (Morumbi), 2011
  • Sade, Brasília (Nilson Nelson), 2011
  • Bob Dylan e Mark Knopfler, Chicago (United Center), 2012
  • Rolling Stones, Rio (Maracanã), 2016

terça-feira, 19 de abril de 2016

As 10 mais do Rei que não são da dupla Roberto & Erasmo


No aniversário do Rei, 10 músicas espetaculares do seu repertório, gravadas originalmente por ele, mas que não são de autoria da dupla "Roberto & Erasmo":

  • Não Vou Ficar (Tim Maia) | 1969
  • Como Dois e Dois (Caetano Veloso) | 1971
  • Como Vai Você (Antônio Marcos) | 1972
  • Outra Vez (Isolda) | 1977
  • Pra Ser Só Minha Mulher (Ronnie Von / Tony Osanah) | 1977
  • Vivendo Por Viver (Márcio Greyk) | 1978
  • Força Estranha (Caetano Veloso) | 1978
  • A Ilha (Djavan) | 1980
  • Eu e Ela (Mauro Motta / Lincoln Olivetti / Robson Jorge) | 1984
  • Amor Perfeito (Michael Sullivan / Paulo Massadas / Lincoln Olivetti / Robson Jorge) | 1986

#RobertoCarlos75

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

30 anos de axé music: 30 sucessos nacionais

O carnaval de 2015 marca as comemorações dos 30 anos do primeiro sucesso, em nível nacional, da chamada "axé music" – ou, de forma mais didática, 30 anos do surgimento para o Brasil da safra de novos artistas criados nos blocos de trio em Salvador ao longo da primeira metade dos anos 1980. Genericamente, a boa e velha MÚSICA BAIANA de tantos sucessos, carnavais e micaretas.

A explosão nacional da fusão sonora de frevo, galope, pop-rock e influências caribenhas, tendo como base rítmica o samba-reggae dos blocos afro da capital baiana (forjados especialmente no Olodum e no Ilê Aiyê), se deu com "FRICOTE", de Luiz Caldas. A música é o carro-chefe do álbum Magia, de 1985, que promove o ex-vocalista da banda Acordes Verdes em carreira solo. E que estreia.

A chegada da produção musical carnavalesca de Salvador às rádios e TVs do Brasil gerou todo um MOVIMENTO na vida cultural da cidade, que via crescer um novo e promissor nicho de mercado. Na esteira de Caldas veio uma leva de artistas que se juntariam a outros tantos cada vez que surgia um novo fenômeno baiano – como Daniela Mercury, que explodiu como estrela nacional em 1992.

Se o momento atual reflete um cenário de escassez criativa e de entressafra nas revelações, historicamente a axé music contabiliza, em seus 30 anos "oficiais", centenas de sucessos, dezenas de milhões de cópias vendidas e um grande número de astros e estrelas com inegável talento para o showbiz. Abaixo, as 30 canções mais importantes e de maior sucesso nas três décadas de AXÉ.


TIRA O PÉ DO CHÃO!


Fricote - Luiz Caldas (1985)





• É D'Oxum - Geronimo (1985)



• Gritos de Guerra - Chiclete com Banana (1987)




• A Roda - Sarajane (1987)




• Faraó Divindade do Egito - Djalma Oliveira & Margareth Menezes (1987)




• Madagascar Olodum - Banda Reflexus (1987)




• Protesto do Olodum - Banda Mel (1988)




• Beijo na Boca - Banda Beijo (1989)




• Swing da Cor - Daniela Mercury (1991)




• Canto ao Pescador - Banda Cheiro de Amor (1991)




• Com Amor - Asa de Águia (1991)




• O Canto da Cidade - Daniela Mercury (1992)




• Prefixo de Verão - Banda Mel (1992)




• Baianidade Nagô - Banda Mel (1992)




• Cara Caramba Sou Camaleão - Chiclete com Banana (1992)




• É o Bicho - Ricardo Chaves (1993)


 


• Nossa Gente (Avisa Lá) - Olodum (1993)




• Doce Obsessão - Banda Cheiro de Amor (1993)




• Beija-Flor - Timbalada (1994)




• Araketu Bom Demais - Ara Ketu (1994)




• Milla - Netinho (1996)




• Beleza Rara - Banda Eva (1997)




• Arerê - Banda Eva (1997)




• Rapunzel - Daniela Mercury (1998)




• Bate Lata - Banda Beijo (2000)




• Festa - Ivete Sangalo (2002)




• Sorte Grande - Ivete Sangalo (2003)




• Coração - Rapazolla (2005)




• Praieiro - Jammil e Uma Noites (2005)




• Quebra Aê - Asa de Águia (2007)


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Pitacos soltos sobre o Rock in Rio 2013

Em sua nova fase na terra natal, iniciada em 2011 e que será encerrada (provavelmente) em 2015, o Rock in Rio se solidificou como um megaevento de marcas e produtos, uma agenda social para o povo local ver e ser visto, um grande programa-família – este, aliás, sempre foi um desejos dos organizadores, desde 1985. Se empresarialmente isso garante aos Medina ingressos sold out em poucas horas de venda, independentemente de o line-up ter sido ou não divulgado em sua totalidade, artisticamente deixa correr frouxo um certo desdém quanto ao apuro das atrações musicais. Só isso justifica nomes obscuros pisarem no palco principal da Cidade do Rock.


O efeito disso é que, mesmo durante os shows mais aguardados, era notório antes da metade das apresentações um clima de "tô nem aí" para o que estava rolando no palco. Era gente sentada na grama papeando sobre as fases da lua, garotada catando brinde de stand em stand, pessoal mais velho fotografando as casinhas de brinquedo da Rock Street, filas de fast foods lotadas... Para quem está ligado exclusivamente no som, esse tipo de reação não deixa de causar certo incômodo. Em shows normais, mesmo nos mais populares, dificilmente se vê esse tipo de falta de comprometimento. Mas aqui é festival – aliás, aqui é Rock in Rio, bebê.


Sobre os shows que me agradaram, destaco: Bruce Springsteen botando os sete dias de festival no bolso e indo para a galera; Justin Timberlake refinando em elegante verniz soul o seu bom pop de pista, amparado luxuosamente pela melhor banda que pisou no Palco Mundo (The Tennessee Kids); a ótima infusão da poesia agreste de Zé Ramalho com a distorção do Selputura, gerando um monstro imediatamente batizado de Zépultura; a teen party do Offspring, que fez muito marmanjo voltar a ter 19 anos; a introspecção do Alice in Chains; a classe de George Benson e Ivan Lins; a força do Living Colour; a brasilidade de Moraes, Pepeu e Roberta Sá.


Top 10 dos melhores shows (pela ordem cronológica do line-up):
 
  • Living Colour + Angélique Kidjo
  • The Offspring
  • Muse
  • George Benson + Ivan Lins
  • Alicia Keys
  • Justin Timberlake
  • Alice in Chains
  • Bruce Springsteen
  • Sepultura + Zé Ramalho
  • Iron Maiden
 
Top 10 dos piores shows (pela ordem cronológica do line-up):
 
  • Cazuza - O Poeta Está Vivo
  • Capital Inicial
  • Thirty Seconds To Mars
  • Saints of Valory
  • Sebastian Bach
  • Ghost B.C.
  • Mallu Magalhães + Banda Ouro Negro
  • Nickelback
  • Phillip Phillips
  • Lenine

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Sucesso do Quarteto Dos "Beatles"

Ao lado de dois pequenos anúncios para tratamento de psoríase e hemorróidas, a legenda da foto da agência de notícias UPI relata o tumulto que "os quatro rapazes de Merseyside" (isso mesmo, nada de Liverpool) causaram ao desembarcar no aeroporto de Londres após uma excursão a Estocolmo. O texto fala ainda do rastro de histeria que uma "verdadeira multidão de jovens" deixou na perseguição aos rapazes em emissoras de TV da capital inglesa, dias após o retorno da viagem à Suécia.

A data era 11 de novembro de 1963. Pela primeira vez, o jornal carioca O Globo fazia referência ao grupo formado por "Paul Macartney, Ringo Stars, John Lennon e George Harrison", segundo a grafia impressa na página 26 da edição desse dia. Daí pra frente é história.

A página e a edição histórica que pela primeira vez fala da maior banda de todos os tempos está disponível desde o último final de semana no site do jornal, que pôs na internet todo o seu acervo de quase um século de imprensa. Para quem gosta de viajar no tempo passado em busca de registros de grandes momentos, ou de momentos particularmente interessantes, o acervo digitalizado de O Globo é um banquete irresistível, capaz de puxar a pessoa horas a fio para a frente do computador.

Fica a dica.
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

Chora, sanfona...

Uma das músicas mais tristes que eu já ouvi em toda a minha vida. E das mais lindas, certamente.

Obrigado, Dominguinhos.

*****



"Lamento Sertanejo"
Composição: Gilberto Gil / Dominguinhos

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O novo do Daft Punk impressiona



Impressionante o novo disco do Daft Punk, Random Access Memories, disponibilizado na íntegra para audição via streaming nesta segunda-feira pelo iTunes e outros sites de compartilhamento. Coisa fina, rara, em se tratando de música eletrônica: nada das pré-definições sintéticas e dos bate-estacas acelerados que costumam povoar esse universo, quase sempre sem alma e personalidade. Trata-se dequele tipo de eletropop setentista com o tripé baixo / guitarra / bateria ditando os rumos, ainda que com a aura robótica que acompanha o duo francês desde sempre.

Diferentemente dos outros três álbuns, há agora uma intenção clara por parte do Daft Punk de se desvencilhar do vazio musical que domina da cena summer-eletrohits e partir para um som orgânico, tocado e não apenas programado. As participações de Nile Rodgers, Julian Casablancas e Pharrell Williams, entre outros, não deixam dúvidas disso. O clima vai na onda do vintage moderno, elegante todo o tempo, mesmo quando a pressão é maior – caso de “Get Lucky”, primeira música de trabalho. "The Game of Love", segundo míssil do álbum, talvez seja o melhor exemplo.

A partir deste dia 13 de maio, e até quando surgir (se surgir) algo fora da curva nos estertores de 2013, me arrisco a dizer que os franceses lançaram nas 13 faixas de Random Access Memories o melhor disco do ano em matéria pop music. Que os(as) militantes da área corram atrás.

Daft Punk - Random Access Memories

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Valerie Carter


A sigla é AOR: "Album Oriented Rock" ou ainda "Adult Oriented Rock". Acho a segunda definição melhor, por expressar com mais fidelidade este subgênero do rock e o que ele se propõe a ser: uma roupagem soft do ritmo, destinada ao consumo de um público pretensamente "maduro" que já não se deixa levar por qualquer tipo de barulho juvenil. Embora transite muitas vezes entre o sofisticado e o meloso, o que se convencionou chamar por AOR encontra raiz nas tradicionais arena rock bands, calcadas no tripé baixo-guitarra-bateria.

O termo apareceu para mim como a designação do som que eu sempre ouvi apenas nesta semana, por meio da reportagem de O Globo sobre o novo trabalho de Ed Motta, intitulado... AOR. O músico e multi-instrumentista carioca conta que se baseou neste tipo de som, característico do período entre a segunda metade dos anos 70 até a primeira metade dos 80, durante a fase de composição das suas novas canções. E cita nomes colados ao AOR Sound que estarão, implicitamente, em seu disco "AOR": Alessi Brothers, Michael McDonald, Toto, Doobie Brothers e especialmente Christopher Cross – segundo ele, fonte de inspiração desde garoto.

A matéria me instigou a voltar a ouvir uma série de nomes que sempre me foram familiares (ainda que, para mim, não eles estivessem reunidos sob o guarda-chuva da tal sigla). Eis que nesta volta às origens me deparei na internet com a figura lindamente intrigante de Valerie Carter. Seu nome, apesar de desconhecido em um primeiro momento, não me era estranho. Um rápido google acendeu a luz: ela é a voz feminina do dueto com Cross em "Spinning", faixa do espetacular disco que marcou a estreia do autor de "Sailing" no mercado fonográfico em 1980. "Ah, então é ela!", pensei. E mais nada. Resolvi correr atrás e acabei me deparando, via YouTube, com um disco simplesmente espetacular.

"Wild Child", de 1978, tem dez músicas é o segundo álbum da norte-americana. Ele revela, do início ao fim, uma cantora de intensidade peculiar, rara hoje em dia. Não propriamente hiperafinada, tecnicamente irretocável, mas com alma. Definição subjetiva e um tanto gasta para separar os acordes ultrafinos e os cantos de extensão exagerada, mas sem um pingo de emoção, das interpretações seguras de si, dotadas de recursos que vão muito além do exibicionismo vocal. Numa comparação rápida e direta: Valerie Carter está para Mariah Carey da mesma forma que Clara Nunes está para Marisa Monte.

O som de "Wild Child" é AOR puro, na veia e no coração. Belíssimos arranjos melódicos, uma ótima banda por trás, linhas de baixos fora do lugar comum, pequenas intervenções-solo de guitarras e saxofones e um tecido harmônico com teclados que definem o estilo. Tudo isso modulado por uma voz sem floreios ou berros insuportáveis. Valerie, de beleza desconcertante, está longe do perfil artístico das atuais divas, cujos clones mal fabricados lamentavelmente se alastram cada vez mais na música pop.

Apesar de estar falando no presente, a Valerie que acabei de descobrir e que tem me encantado dia e noite não existe mais, por óbvio. Trata-se da menina de 20 e poucos anos da segunda metade da década de 70, que gravou dois discos em sequência e que, a partir daí, passou a ter presença diminuta no showbiz, muito mais como backing vocal de diversos artistas consagrados do que com trabalhos próprios. "Wild Child" está fora de catálogo – o iTunes vende apenas o primeiro, "Just a Stone's Throw Away", de 1977 – mas encontra-se disponibilizado na íntegra no YouTube, em áudios de ótima qualidade.

Vale descobrir Valerie Carter, eleita por mim, desde já, a musa definitiva da história do AOR.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Melodia para quem precisa

Com dois anos de atraso, escutei neste último final de semana o álbum mais recente de Christopher Cross, "Doctor Faith". Acho que a debilidade da produção musical dos dias atuais é, em boa parte, explicada pela simples ausência de músicos que consigam trabalhar minimamente bem com melodias. Esta habilidade, de difícil manuseio para a maioria, aparece naturalmente ao longo da obra deste californiano de San Antonio, como convém aos grandes compositores populares.

Este "novo" disco remete a uma época em que qualidade melódica, por assim dizer, era artigo comum e mandatório não só nas rádios FM e nas produções do mercado fonográfico em geral, mas também no competitivo e estreito cenário do showbiz. Hoje, como se sabe, os requisitos para o sucesso passam muitas vezes bem longe deste item.

Como cantor, o tempo fez bem a Cross: melhorou sua técnica, sempre limitada a uma voz anasalada, e intensificou o seu lado de intérprete delicado, correto e sem exageros. Na parte musical, seara na qual ele se coloca com mais presença, as canções deste trabalho trazem, com maior acentuação folk, as linhas melódicas bem construídas que sempre caracterizaram seus grandes hits.

Entres os bons exemplos estão "November" – cuja suavidade remete à "Think of Laura", do seu segundo disco – e "When You Come Home". Outro momento de destaque é "Still I Resist", juntamente com a faixa-título. Em "Doctor Faith", aliás, Cross retoma a parceria com o amigo Michael McDonald, seu fiador no início de carreira e parceiro nos vocais de "I Really Don't Know Anymore", segundo petardo do arrebatador e multipremiado álbum de 1980.

O som de Christopher Cross – refinado como conceito, leve na sua essência – deve ser saudado sob diversos motivos para os fãs mais chegados. Mesmo para os mais distantes, o trabalho deixa uma sensação de alívio para os ouvidos, em meio a tanto barulho propalado por aí nos dias atuais.

terça-feira, 19 de março de 2013

O grande (e certeiro) salto de Timberlake

Justin Timberlake apresenta em "The 20/20 Experience" um dos melhores álbuns de R&B lançados nos últimos anos. Mais que isso, o projeto que põe fim ao hiato de sete anos do agora cantor/ator no cenário da música representa um salto consideravelmente arriscado e grandioso na sua carreira. Justin abre mão dos hits curtos, pegajosos e radiofônicos que dominam o cenário pop desde a explosão de cantoras plastificadas, como Christina Aguilera, Jennifer Lopez e Beyoncé, e parte de peito aberto para uma obra coesa, conceitual e sofisticada, cujo segundo volume deverá sair ainda em 2013.

 
Amparado nos estúdios de gravação pelo parceiro-guru Timberland e nos palcos pela super banda The Tennessee Kids – ambos lhe dando o suporte necessário para a execução da sua verve apurada de showman – Timberlake performa, tanto no disco quanto nas apresentações ao vivo, a maturidade que o tempo longe da música parece lhe ter conferido. Algo necessário, já que nesses sete anos fenômenos teens como o xará Bieber surgiram fazendo (sem a mesma competência) muito do que Timberlake já fizera em trabalhos anteriores no N'Sync e na fase solo. Se era hora de voltar dando um passo adiante, ele demonstra estar dando vários, e largos.

O repertório de "20/20" traduz com fidelidade o lado pouco óbvio da volta desse Timberlake maduro à música, a começar pela duração das canções, entre seis e oito minutos em média. As faixas quase sempre condensam sutis intervenções pré-programadas aos arranjos elaborados dos Tennessee Kids, e isso fica claro no eletro-samba Let the Groove Get In. As baladas Pusher Love Girl e Spaceship Coupe moderam no açúcar e apostam na sensualidade fina dos falsetes bem aplicados por Timberlake.

A tônica do álbum, no entanto, está na corrente calcada no synthpop travestido de R&B vintage, tanto em viagens mais intensas como na ótima Tunnel Vision quanto na leve Strawberry Bubblegum – cujo frescor transita entre o Michael Jackson de "Off the Wall" e o Stevie Wonder de "Rocket Love". Os singles de entrada, Suit & Tie (com participação de Jay Z) e Mirrors, talvez sejam o lado mais palatável para o público pouco afeito a compreender a unidade de um disco-conceito, mas podem suscitar a curiosidade para o restante do trabalho.

Como afirmou precisamente o crítico Lucio Ribeiro, a coisa mais fácil e cômoda para Justin Timberlake, neste momento, seria retornar ao mundo da pop music fazendo algo na mesma linha do que ele já fez antes, com a certeza do sucesso confortável e garantido. Através de "20/20", entretanto, ele opta por depositar um capital artístico alto e corajoso no intuito de mudar o rumo da prosa e, por que não?, se jogar em um novo patamar, no qual paira uma constelação de estrelas do porte de Michael Jackson, Madonna e Prince.

"The 20/20 Experience", excelente do início ao fim, não deixa dúvidas de que Timberlake está na trajetória certeira para chegar lá. A música agradece.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Di Melo, sabe quem é? Pois procure saber!

Foi assim: na última sexta-feira, após tradicional encontro com amigos jornalistas no Centro, me dirigia a Jacarepaguá, onde pegaria minha esposa para degustarmos um hambúrguer na Barra da Tijuca. Tudo tranquilo até que, a certa altura, a rádio MPB FM insere na programação do seu "Aquecimento MPB" um som que, sem brincadeira e sem exagero, eu nunca tinha ouvido parecido em toda a minha vida. O efeito imediato foi diminuir a velocidade do carro, como num desejo inconsciente que a música, sabe lá porque cargas d'água, também durasse o máximo possível.

Descobertas musicais geralmente provocam em mim a preocupação imediata em memorizar um trecho da letra para que, a partir daí, eu consiga correr atrás depois – o que, com o advento de ferramentas virtuais, ficou muito mais fácil. No dia seguinte, com a ajuda de São Google, cheguei à ficha técnica do sujeito, ao nome da música que ouvira e a outras tantas coisas que igualmente desconhecera.

Vamos aos fatos: a figura se chama Di Melo, e a música-chave é "Kilariô". Tudo bem, eu também jamais tinha ouvido ambos os nomes até então. O cara é pernambucano e gravou, até onde consegui descobrir, um único disco na vida, em 1975 pela antiga Odeon – atual EMI. Os arranjos, para se ter uma ideia, são do bruxo Hermeto Pascoal. O que me chocou foi constatar o meu total desconhecimento diante de tão valiosa obra. O passo seguinte foi ir ao You Tube para descobrir outras cinco ou seis músicas igualmente espetaculares deste disco, fazendo com que a curiosidade se tornasse uma pequena obsessão numa gélida noite de sábado.

"Kilariô" é uma infusão de elementos do funk americano de James Brown com a soul music brasileira de Cassiano, mas diferente de tudo isso. O resultado é uma acentuada batida de samba-rock típica da metade dos anos 70 – Jorge Ben, Bebeto e Black Rio – com leve toque latino e um sotaque nordestino que faz toda a diferença. A letra é tão autêntica quanto à música, com referências a um modo de vida interiorano (fala em vaquinha, mandioca e roça). Uma obra-prima dançante que aguça o interesse de quem a ouve pela primeira vez. As canções que fazem o restante do disco enveredam pelo mesmo caminho, mas vão além. Dono de uma poética muito pessoal, Di Melo cria baladas, canções de protesto e até um tango com a mesma desenvoltura da faixa de abertura.

Se eu consegui, nessas poucas palavras, despertar algum interesse em você que está me lendo agora, maravilha. Di Melo, com algumas décadas de atraso, ainda pode e deve ser muito escutado e dançado Brasil a fora. Nesta minha muy humilde tentativa de acertar as contas com a minha ignorância musical ("só sei que nada sei", já disse o filósofo), deixo abaixo o caminho das pedras para quem quiser saber mais do grande Di Melo. São poucos os vídeos dele no You Tube, mas suficientes para se ter a exata noção da dimensão artística do cantor e compositor. Coloquei o endereço de um blog que dispõe de um link para baixar o disco na íntegra. Não preciso dizer que foi a primeira coisa que fiz, não é?

Agora e sempre, VIVA A MÚSICA BRASILEIRA! Divirta-se.




Baixe o antológico disco de Di Melo em http://escaparfedendo.blogspot.com/2010/01/di-melo-vivo.html

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Senhoras e senhores, no palco do Canecão..."

Fechou o Canecão, "a casa onde se escreve boa parte da história da música popular brasileira", como mostra(va) uma frase cunhada pelo produtor e bon vivant Ronaldo Bôscoli na portaria principal da famosa e mítica cervejaria carioca. E era isso sim. Mesmo sendo ultrapassado ao longo do tempo em quesitos tipo espaço interno, conforto e aparato tecnológico por rivais como Metropolitan e Imperator, o Canecão nunca perdeu a pose, muito pelo fato de jamais ter deixado de ser aquilo que sempre foi: sinônimo imediato de principal casa de espetáculos da cidade, e do país também.

Numa época pré-show business, ali era o lugar onde as grandes estrelas faziam temporadas de nove, dez meses, ou até mais de um ano. O sonho de todo artista, fosse de qualquer parte do Brasil, popular ou nem tanto, era ver seu nome estampado no enorme letreiro na entrada da casa de shows de Botafogo, com direito a luzes piscando, neon e tudo mais. Poucas coisas eram mais glamorosas (era uma época em que artista de verdade tinha que ter glamour) no meio artístico do que pertencer ao time de artistas de temporada do Canecão. Bons tempos...

No falecido Canecão, que hoje foi lacrado pela Polícia Federal após uma decisão judicial transferir a posse do local definitivamente para a UFRJ (não perca: em breve, mais uma ruína pública perto de você!), eu já vi:

Fábio Jr. aplaudindo de pé o encerramento de um show do Roberto; Tim Maia agradecendo à Brahma pelo patrocínio e pedindo um copo de Antárctica; Elymar Santos, já famoso (na época), simular um coito com uma dançarina; Daniela Mercury fazendo muito bacana da Zona Sul bater tambor com uns meninos do Pelô; o então futuro governador Cabral chorar ao som de "Quem Te Viu, Quem Te Vê" na voz do Chico; Chitãozinho & Xororó levando as mágoas do sertão para o deleite do high society carioca; um dueto histórico do Charlie Brown Jr. com os Fevers; Air Supply derramar sobre a platéia toneladas de açúcar com as suas belas baladas; Gilberto Gil contar "a história da prisão em Florianópolis pelo porte de um cigarro de maconha", enquanto apresentava seu Unplugged; Baby Consuelo sentar-se comigo à mesa achando que eu era outra pessoa só para poder ver a Marisa Monte mais de perto no palco; Double You fazer um dos melhores shows de playback da minha vida; Ivete Sangalo dizer, sebenta de suor, que "nada pode ser melhor que a encoxada de um negão baiano"; o Skank entrar numa vibe estranha de ser achar os novos Beatles e fazer um showzinho modorrento até o público começar a vaiar e eles desfilarem o repertório juvenil velho de guerra; Netinho descer a baiana para fazer um ótimo show vazio de público; Caetano Veloso gastar o castelhano para fazer um péssimo show cheio de público; Maria Bethânia flutuar no palco (quem já viu sabe que ela consegue); o pagode suburbano do Bom Gosto; o canto lamentado de Raimundo Fagner; o pop que todo mundo adora odiar do Guilherme Arantes; as mulheres se esgoelando pelo Fábio Jr.; muita gente cantando, pulando, admirando, chorando, se divertindo...

Vai deixar saudades a velha cervejaria.

PS: Antes que alguém desconfie da minha extrema amplitude em se tratando de preferências musicais, ou da própria veracidade das informações acima, vale uma explicação: durante uns oito anos, a empresa da qual meu pai era gerente, pertencente a um irmão dele, era uma das patrocinadoras do Canecão. Com isso, ingressos para todas as atrações possíveis e imagináveis jorravam lá em casa durante esse período. Daí a grande quantidade de memórias trazidas da casa de shows de Botafogo. Aliás, realmente bons tempos aqueles...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Baby, you can drive my car. Ou não.

Nessa última quinta-feira, ainda sob os efeitos do périplo momesco carioca (pausa: o carnaval de rua do Rio, que há dez anos estava morto para a vida, ressuscitou de uma forma linda, autêntica e espontânea. Uma coisa que só o carioca, ou quem tem a alma de um, sabe fazer. Parabéns, povo!), bem, voltando: na quinta-feira me desloquei a Angra dos Reis a fim de descansar um pouco antes do início real do ano útil. Como não gosto muito daquela estrada Rio-Santos, cheia de curvas sinuosas e meio traiçoeiras, pensei em algo que pudesse escutar e me fazer relaxar nas quase duas horas de chão. Lembrei, por acaso, que nunca havia escutado um CD dos Beatles no meu carro. Isso, para um beatlequasemaníaco como eu, era algo surpreendente.

Resolvi fazer o teste das ruas e levar para o carro duas coletâneas dos Fab Four, cada uma com dois CDs (refiro-me àquelas com as fotos de capa iguais, uma de embalagem vermelha e outra azul). Só clássicos reunidos: da fase iê-iê-iê às viagens indianas, os disquinhos percorrem tudo do bom e do melhor da maior banda de todos os tempos. "Chance de erro", pensei, "zero!". Só que na hora a coisa não funcionou. Eu ali, no volante, preocupado com radares e ultrapassagens, ouvindo as músicas como se elas estivessem abafadas, em volume baixo (embora estivessem em alto e bom som). Não havia peso. O primeiro CD não durou nem 10 minutos rodando no CD player e voltou direto para caixa pelas mãos da minha mulher, que tratou de sintonizar o rádio numa estação bem popular. Não lembro se era pagode ou Beyoncé que tocava.

Cheguei em Angra, mas continuei encucado com aquele inesperado engulho que Strawberry Fields Forever provocou-me dentro do automóvel. "Seria eu um reles beatlemaníaco fake?", me veio à mente tal provocação. Hoje, quatro dias depois, vi que o meu gosto pelos Beatles permanece aquecido, e minha atração pelas inúmeras boas canções idem. O problema não estava no som, mas no ambiente. Vi ali que The Beatles, para mim, não pode servir nunca de apetrecho para momentos prosaico-entediantes como dirigir um carro numa viagem de fim de semana. Aquilo é música clássica, ora essa! Merece todo um ritual de apreciação e devoção, tal qual é conferido às peças de Bach e Vivaldi numa sala de concertos.

A relação de reverência perante a obra criada por Lennon & McCartney, Harrison e Star se aflorou de forma profunda e definitiva depois que adquiri, no ano passado, a caixa remasterizada com toda a obra do quarteto. Era como se um mosaico desconhecido se abrisse sob os meus ouvidos, ampliando em muitas potências as percepções da música produzida por rapazes ingleses absolutamente geniais nas suas diferenças de estilo – o que congrega disparidades em conceitos musicais, filosóficos, poéticos e políticos. Conhecia muito pouco deles, e passei a conhecer menos ainda após a compra da coleção. E foi justamente esse encontro com a minha ignorância que me fez criar um ritual: esperar um momento de tranquilidade em casa, sem agitações ou atropelos, para só então abrir a urna sagrada e me debruçar sobre tão extenso e intenso universo sonoro. Algo que num bom home theater tem o seu valor redobrado.

Desta forma, cadenciada, serena, mas atenta às variações de acordes e harmonias, venho entrando aos poucos no gigantesco mundo músico-cultural dos Beatles. Quando coloquei às compilações rubra e celeste (ambas não remasterizadas, o que faz uma diferença...) no aparelho de som do carro, era como se esse encanto respeitoso e prazeroso, no qual ainda me encontro plenamente envolvido, se quebrasse. Temo que, após a aquisição da mega-caixa de CDs (são 16 mais um DVD), eu tenha ficado refém de um maneirismo meio rococó, algo com o um TOC do bem. Não sei se chegarei aos limites do radicalismo afeito aos mais puritanos, mas sei que os clássicos têm que ser respeitados. Após aquele bizarro estranhamento ocorrido no meu carro, percebi que não dá mais para ouvir Something e buzinar para uma Kombi ao mesmo tempo. Cada um na sua.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pagode. Pagode? Sim, pagode!

Sucesso nas vozes de muitos, cantado por milhões e criticado por tantos outros, o movimento do pagode que dominou quase todo o dial brasileiro nos anos 1990 foi e ainda é motivo de um ensurdecedor silêncio da inteligenzia cultural brasileira. Tratado à margem da compreensão de um movimento musical de cunho popular, o pagode é acometido do mesmo mal que, anos antes, deletou a música popular dos anos 1970 da história. Figuras proeminentes desta leva – Fernando Mendes, Odair José, Diana, José Augusto... – foram abolidos a fórceps da memória nacional pela patota intelectual que até hoje pauta o Segundo Caderno do Globo e a Ilustrada da Folha.

A mesma coisa ocorre com a turma do "pagode mauriçola da Cohab". Emergida nas paradas de sucesso de todo o Brasil no mesmo período de outros dois movimentos musicais muito populares – o neo-sertanejo e o samba reggae (ou axé music) – o pagode, já naquela época, era desconsiderado como uma das vertentes diretas do samba-canção ligado à Era do Rádio da década de 40 do século passado. Ignorada pela crítica quando do seu sucesso, a música que leva sua a marca continua sendo motivo de piada de salão nas rodas de gente bonita da Zona Sul que frequenta os pés limpos da Lapa. A mesma gente que, segundo Emílio Santiago, quando ouve Ataulfo Alves pela primeira vez num desses botecos acha que descobriu o Brasil.

À parte preferências musicais e gostos particulares, o pagode dos anos 90, assim como o rock brasileiro dos anos 80 e o punk inglês dos anos 70, teve muita coisa ruim, uma massa de material visivelmente oportunista de quem queria apenas pegar carona numa onda de sucesso e ganhar algum. Problema? Nenhum. Isso é absolutamente normal na indústria do show business, conduzida sempre por empresários que sofrem da estranha anomalia de possuírem cifrões no centro das suas retinas. O que estranha é o asco absoluto em relação à parte boa da coisa. Dá a impressão que, se alguém abrir a boca pra dizer que achava bonita tal música do Só Pra Contrariar, uma reação desproporcional virá em sequência. Tipo um "você tá cheirando o quê?" ou mesmo um tabefe, sei lá.

Como este blog é feito de notas e impressões sem compromisso, mas com total responsabilidade sobre os seus atos, escrevo aqui em caixa alta para todo mundo ler e ouvir: EU ME AMARRO NUNS PAGODES DOS KATINGUELÊ E DO SOWETO SIM! E que se danem os possíveis atos covardes que virão contra a minha pessoa, o que vai desde ser excluído de listas de e-mail até ser preterido da sagrada cerveja das sextas. Este é, acima de tudo, um manifesto em defesa do out, do kitsch, do brega, do popular. E é um protesto contra quem finge não saber a formação do paredão da semana do BBB, mas adora espiar o programa na alcova do edredom. Exatamente como faziam aqueles que tanto criticavam o humor pastelão dos Trapalhões, mas riam de se acabar com os quatro comediantes nas noites de domingo.

Chega de hipocrisia, porra!

Bom, feito o desabafo, justifico esse post com uma lista de clássicos da boa safra do pagode bate-coração que tanto embalou churrascos de colégio e festinhas de trabalho de então. E aqui vai uma confissão: ouvir boa parte dessas músicas via YouTube (a melhor coisa que já inventaram na internet ao lado do Google), depois de tanto tempo, me deu uma sensação muito boa. Além da nostalgia natural, das lembranças da vida levada à base de Sessão da Tarde, veio uma coisa do tipo "putz, não é que isso era legal mesmo?!". Sim, era e ainda é, da mesma forma que tantas e tantas coisas consagradas feitas nos anos 70 e 80 continuam sendo legais até hoje. No caso do pagode, do axé e do sertanejo, lhes falta apenas um reconhecimento dos formadores de opinião ao gosto popular brasileiro. Só isso.

Aliás, sobre essa coisa do reconhecimento, me lembrei de dois exemplos perfeitos: quando Maria Bethânia gravou "É o Amor" para a trilha do filme '2 Filhos de Francisco', os críticos de plantão tiveram de torcer o dicionário para justificar "a surpreendente beleza escondida na canção", a mesmíssima canção que, gravada anteriormente por Zezé di Camargo e Luciano, fora defenestrada pelos mesmos críticos, com aqueles argumentos rasos de sempre. Noutro caso, Caetano Veloso regravou "Você Não Me Ensinou a Te Esquecer", de Fernando Mendes, e revelou ao Brasil, com seu habitual talento, a beleza e a sinceridade de uma música que, se não fosse por ele, Caetano, continuaria fadada ao ostracismo juntamente com seu autor e primeiro intérprete.

Enfim, chega de papo e sobe o som!

1 - Tempo de Aprender (Soweto): http://www.youtube.com/watch?v=0aQJFHikABs

2 - Gamei (Exaltasamba): http://www.youtube.com/watch?v=ADkVayQrd4o

3 - Dói Demais (SPC): http://www.youtube.com/watch?v=iO9VxvdaoOI

4 - No Compasso do Criador (Katinguelê): http://www.youtube.com/watch?v=Il_tGxW1g5o

5 - Quando Te Encontrei (Raça Negra): http://www.youtube.com/watch?v=Msd_Ln5muig

6 - Ôa Ôa Canção do Amor (Art Popular): http://www.youtube.com/watch?v=wGdR9_aY4g0

7 - Já Tentei (Kiloucura): http://www.youtube.com/watch?v=K_wAVNBKcj0

8 - Búzios e Tarô (Soweto): http://www.youtube.com/watch?v=kOLJL9YXdU0

9 - Nascente (Sem Compromisso): http://www.youtube.com/watch?v=w4R70I3GJ54

10 - Desengano (Cor da Pele): http://www.youtube.com/watch?v=8c0jBXL03E0

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Nizan, Chiclete e os rumos do carnaval de Salvador

Ao lado, o Chiclete com Banana carrega sua multidão no carnaval de Salvador
Nizan Guanaes é publicitário, marqueteiro e ex-gordo. Bell Marques é músico, cantor e careca. Ambos são baianos de Salvador e apaixonados pela cidade que os une. A paixão em comum, no entanto, criou um atrito inesperado.

Na sua página no Twitter, Nizan surpreendeu muita gente neste dia 12 de janeiro, ao criticar duramente a capital baiana, o seu carnaval e um dos seus principais personagens: o vocalista da banda Chiclete com Banana. Bell, para Nizan, simboliza a mediocridade e a inércia em que se encontra a sua cidade natal.

Alguns comentários a respeito surpreenderam pelo grau de superficialidade e infantilização, em especial por ter vindo de quem veio.

Apesar disso, a provocação de Nizan é necessária e pertinente, ainda que as grosserias desnecessárias contra Bell tenham tirado o foco do que realmente pode ser discutido a fundo.

Artistas ou blocos, quem faz a festa?

Na modesta opinião de folião deste diletante blogueiro, que já acumula mais de 15 anos percorrendo aos pulos a Avenida Sete, o Farol da Barra e a Praça Castro Alves, o carnaval de Salvador trilhou nas últimas três décadas um caminho equivocado, ao descompassar a relação entre os artistas e as entidades/agremiações. O primeiro grupo, forjado a partir do segundo, tomou as rédeas do jogo.

Numa comparação superficial, mas verdadeira, seria como se o carnaval do Rio tivesse como âncoras principais Jamelão e Neguinho, e não a Mangueira e a Beija-Flor. Jamelão, maior intérprete (puxador não!) da história das escolas de sambas, infelizmente se foi em 2008. A Estação Primeira continua, e vai perdurar enquanto houver carnaval.

Desde o início dos anos 1980, grande parte dos blocos de Salvador, nas suas diferentes versões (de trio, afros, afoxés, de índios) contribuiu de forma fundamental para que se criasse uma gama de artistas locais. Esses, por sua vez, imprimiram um processo de estruturação no mercado musical da cidade, estimulando a entrada de novas bandas para um número cada vez maior de blocos. Grosso modo, um crescimento compartilhado.

Ao longo do tempo, porém, essas entidades carnavalescas, que carregavam a matriz histórica da festa, suas tradições e conceitos, acabaram perdendo espaço justamente para a nova geração de músicos e cantores que haviam criado. Geração essa que frutificaria em estrelas de primeira grandeza no cenário musical brasileiro. Foi um processo gradual e irreversível.

A partir dessa lógica, o chamariz para o povo ir ao carnaval deixou de ser o Bloco do Barão ou os Internacionais. A multidão queria era ver os donos do microfone, como Luiz Caldas e Chiclete com Banana – para citar alguns que, já naquela época, se destacavam no cenário carnavalesco soteropolitano, ao lado de Sarajane e das bandas Reflexus, Cheiro de Amor e Beijo.

Esses artistas, da metade da década de 1980 em diante, ultrapassaram as barreiras baiana e nordestina e fincaram pé no eixo Rio-SP. Passaram a vender muitos discos, milhões. A ponto de um movimento que nasceu local, apenas para abastecer blocos de carnaval na capital baiana, virar gênero musical da indústria fonográfica nacional, tendo como estopim o surgimento meteórico de Daniela Mercury em 1992.

E no Axé, não vai nada?

O Axé Music fez dinheiro, e muito, não só para as suas estrelas, mas para uma imensa massa de empresários, comunicadores, comerciantes, publicitários e picaretas de toda ordem que se instalou em sua órbita.

Nos tempos de vacas gordas estava tudo nos conformes: os artistas mantinham uma agenda repleta de shows e micaretas ao longo do ano em quase todos os estados do país, cantando “o lindo carnaval de Salvador e suas mil maravilhas”; o público babava com o oásis baiano cantado em verso e prosa e entupia a cidade na época do carnaval; os blocos vendiam abadás como água e garantiam pequenas fortunas aos seus gestores; e a cidade se estabelecia de vez como pólo principal da maior festa popular do Brasil.

Era uma época inegavelmente afortunada para a chamada música baiana e para o carnaval de Salvador. Em meados da década de 90 do século passado, os lançamentos de registros ao vivo de shows eram garantias de sucessos nacionais de vendas, numa época em que vender muito era algo acima do milhão de cópias. Nos anos de 1996 e 1997, por exemplo, Banda Eva (2,2 milhões de cópias), Netinho (2 milhões), É o Tchan! (1,8 milhão) e Cheiro de Amor (1,5 milhão) detinham números invejáveis para a época, e inimagináveis para os dias de hoje.

Acontece que, já no final dos anos 1990, o rebanho de astros e estrelas dava demonstrações de que começava a emagrecer. Suas vendas minguavam ano a ano (não por coincidência, o processo se desencadeou junto com a derrocada da indústria do disco em nível mundial).

De repente, máquinas de fazer dinheiro, lotar shows e vender discos como É o Tchan!, Netinho, Ara Ketu, Cheiro de Amor e a própria "Rainha do Axé", Daniela Mercury, se converteram em fracassos comerciais, em maior ou menor escala.

Registre-se que o movimento cíclico do carnaval fez surgir novas atrações, entre eles Babado Novo, que em pouco tempo daria lugar apenas a sua estrela, Claudia Leitte; Banda Eva, com o ótimo Saulo Fernandes; Margareth Menezes, que, embora veterana, renasceu para o carnaval da Bahia; e, acima de todos eles e de qualquer outro(a), o fenômeno Ivete Sangalo, egressa dos vocais da Banda Eva. Com dez anos de carreira, Ivete já ocupava confortavelmente o posto de maior artista do Brasil.

E o Chiclete?

Ao longo dos 30 anos em que se apresenta no carnaval de Salvador ininterruptamente (em 2010 completa a sua 31º performance nas ruas da cidade), o grupo liderado por Bell Marques alcançou uma posição icônica dentro da festa. Muito pelo fato de, em 1982, o trio do Chiclete (então servindo ao bloco Traz os Montes) ter sido o primeiro a adotar um equipamento de amplificação de som muito superior aos demais, algo até então inédito na história do trio elétrico.

Já no ano seguinte, via-se, sem exageros, que muitas pessoas literalmente iam para a avenida ver e acompanhar o Chiclete e seu trio, só. Criou-se entre banda e público uma relação que vai além da empatia. O Chiclete passou a ser visto pelo povo de Salvador, aquele que vai na “pipoca” do bloco ou mesmo o que vê os caminhões de longe, como o grande representante do carnaval da Bahia para o resto do Brasil. Como “a banda do povão”, que carrega consigo algo como a torcida do Flamengo, guardadas as devidas proporções.

Mas é injusto apontar a primazia na evolução tecnológica do trio como o único fator para o Chiclete se perpetuar como um gigante da festa – até porque a tecnologia do trio evoluiu muito além daquela novidade. O fato é que o Chiclete sabe levar um trio. Sabe conduzir a massa como poucos fazem. Tem o timing da galera. Ou seja, é bom de palco (móvel). É por isso que eles estão aí até hoje.

Além disso, Bell se revelou um homem de negócios astuto, sabendo encaminhar sua carreira com discrição ao mesmo tempo em que fazia ótimos negócios. Um deles foi a criação do principal bloco “alternativo” do carnaval de Salvador, o Nana Banana (que é franqueado nas poucas micaretas que ainda resistem Bahia a fora). Outro foi a associação aos donos do Camaleão para a criação de uma empresa de venda de abadás e pacotes de carnaval, a Central do Carnaval, líder absoluta neste negócio.

Isso tudo somado transformou o Chiclete com Banana numa marca muito forte do carnaval e, por extrapolação, da própria Bahia. Tornou-se algo como o Galo da Madrugada no carnaval do Recife: uma expressão tão grande quanto à própria festa, capaz de chamar público por si só. Não à toa seus shows continuam enchendo e suas vendagens de CDs e DVDs são boas para os padrões atuais. São méritos incontestáveis (artísticos e comerciais) deles próprios.

Quanto à peruca de trancinha do Bell e sua calvície, deixo a opinião de Nizan apenas para ele. Tomara que ele próprio faça o mesmo daqui para frente...

E os rumos do carnaval?

Com a queda vertiginosa nas vendas de discos (não só da música baiana, registre-se) já na década atual, o número expoente de artistas que “vendiam” a Bahia e o seu carnaval caiu proporcionalmente. A quantidade de estrelas, de primeira ou segunda grandeza em nível nacional, idem. Os efeitos vieram a reboque. Os blocos já estão sentindo isso na pele (entenda-se no bolso).

Se há oito anos víamos situações absurdas, como o bloco Camaleão esgotar a venda de abadás para o carnaval do ano seguinte três dias depois do encerramento do carnaval anterior, este ano o quadro de vendas das grandes corporações comerciais que regem a folia baiana mostra sinais claros de um certo esgotamento (do modelo? dos artistas? da música? da festa?).

A exatos 30 dias para o início do carnaval, nenhum dos quase vinte blocos comercializados pela Central do Carnaval estão lotados, para dia algum. Mesma situação se vê no Reino da Folia, empresa espelho da Central administrada pela banda Asa de Águia. Seus blocos continuam lá, todos eles disponíveis, parecendo que a festa ainda está a mais de três dígitos de dias para se iniciar. Situações como essas jamais ocorreram nesses últimos 30 anos em Salvador.

Talvez isso demonstre que a ideia, orquestrada ou não, de colocar os artistas da música comercial baiana à frente de todas as tradições do carnaval foi um risco pouco calculado à época, cujo preço pode começar a ser pago neste carnaval de 2010. Não acredito num cenário desolador de blocos e ruas vazias (ou pouco cheias), mas acho que a falta de um pensamento mais amplo quanto aos rumos da festa – algo como um planejamento estratégico de longo prazo – terá de tomar conta das agendas dos órgãos gestores.

A rigor, hoje o carnaval de Salvador tem apenas quatro âncoras capazes de gerar apelo de público, seja de dentro ou de fora da cidade e do estado: Ivete, Chiclete, Asa e Claudinha. Quatro artistas inegavelmente talentosos, versáteis e populares, mas cujo alcance artístico de “astros de trio/bloco” limita sobremaneira uma festa tão plural, diversa e multirreferencial como (ainda) é o carnaval de Salvador.

Cadê a manifestação orgulhosamente autêntica dos blocos afros da Bahia, capitaneados pelo Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê Debalê, entre outros? Onde está a valorização maior aos afoxés, da imagem alva eternizada pelos Filhos de Gandhy singrando as avenidas ao som do ijexá? Os cortejos populares e os blocos de manifesto, como o Mudança do Garcia, morreram dentro da profissionalização (ainda que necessária) da festa?

Acredito que estes questionamentos tenham feito parte da abordagem que Nizan Guanaes fez no seu Twitter. E tem todo o direito de fazê-lo (tomara que sem ataques pessoais), pois ele mesmo já transcreveu numa música, exaltada ano após ano nas ruas da Bahia, a força da maior festa de rua do Brasil.

“Vai compreender que o baiano é um povo a mais de mil
Que ele tem Deus no seu coração
E o diabo no quadril”.

Apesar de tudo, e com fé no futuro, viva o carnaval de Salvador!