sexta-feira, 26 de março de 2010

5 temas x 5 escolhas = 1 lista de futilidades by YouTube

5 discos de medalhões da MPB que mostram porque os caras são medalhões da MPB

=> Clube da Esquina - Milton Nascimento (1972)
Ouça "Tudo o Que Você Podia Ser":


=> A Tábua de Esmeralda - Jorge Ben (1974)
Ouça "Os Alquimistas Estão Chegando":


=> Refavela - Gilberto Gil (1977)
Ouça "Aqui e Agora":


=> Roberto Carlos - Roberto Carlos (1977)
Ouça "Outra Vez":


=> Bicho - Caetano Veloso (1977)
Ouça "Odara":


5 novelas da sete dos anos 80 absolutamente geniais

=> Guerra dos Sexos (Silvio de Abreu, 1983/1984)
Relembre o porquê:


=> Vereda Tropical (Silvio de Abreu e Carlos Lombardi, 1984/1985)
Relembre o porquê:


=> Cambalacho (Silvio de Abreu, 1986)
Relembre o porquê:


=> Brega & Chique (Cassiano Gabus Mendes, 1987)
Relembre o porquê:


=> Sassaricando (Silvio de Abreu, 1987/1988)
Relembre o porquê:

+


5 comerciais da publicidade brasileira que entraram para o imaginário popular

=> Não se esqueça... (Caloi, 1980)
Reveja:


=> Bonita camisa (USTop, 1984)
Reveja:


=> O segredo (Tostines, 1985)
Reveja:


=> Primeiro sutiã (Valisére, 1987)
Reveja:


=> Tio (Sukita, 1999)
Reveja:


5 decisões históricas e inesquecíveis do futebol brasileiro

=> Flamengo 3 x 2 Atlético-MG (Brasileiro 1980)
Gols do Fla:


=> Botafogo 1 x 0 Flamengo (Carioca 1989)
O gol:


=> Palmeiras 4 x 0 Corinthians (Paulista 1993)
Os gols:


=> Palmeiras 3 x 4 Vasco (Mercosul 2000)
4º gol:


=> Náutico 0 x 1 Grêmio (Brasileiro-B 2005)
O gol:


5 micos nacionais propagados e imortalizados pela internet

=> Fernando Vanucci na Rede TV! (2006)
Ahhhhh, Itááália!!!:


=> Ruth Lemos na Globo Recife (2006)
Sanduíche-íche:


=> Vanusa na Assembleia de SP (2009)
A imaaaaaagem do Cruzeiro...:


=> Biafra grava documentário (2009)
Rock do bom, ou...pqbgtph!!!:


=> Lúcia Hippólito na Rádio CBN (2009)
Olha Lolito...:

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Baby, you can drive my car. Ou não.

Nessa última quinta-feira, ainda sob os efeitos do périplo momesco carioca (pausa: o carnaval de rua do Rio, que há dez anos estava morto para a vida, ressuscitou de uma forma linda, autêntica e espontânea. Uma coisa que só o carioca, ou quem tem a alma de um, sabe fazer. Parabéns, povo!), bem, voltando: na quinta-feira me desloquei a Angra dos Reis a fim de descansar um pouco antes do início real do ano útil. Como não gosto muito daquela estrada Rio-Santos, cheia de curvas sinuosas e meio traiçoeiras, pensei em algo que pudesse escutar e me fazer relaxar nas quase duas horas de chão. Lembrei, por acaso, que nunca havia escutado um CD dos Beatles no meu carro. Isso, para um beatlequasemaníaco como eu, era algo surpreendente.

Resolvi fazer o teste das ruas e levar para o carro duas coletâneas dos Fab Four, cada uma com dois CDs (refiro-me àquelas com as fotos de capa iguais, uma de embalagem vermelha e outra azul). Só clássicos reunidos: da fase iê-iê-iê às viagens indianas, os disquinhos percorrem tudo do bom e do melhor da maior banda de todos os tempos. "Chance de erro", pensei, "zero!". Só que na hora a coisa não funcionou. Eu ali, no volante, preocupado com radares e ultrapassagens, ouvindo as músicas como se elas estivessem abafadas, em volume baixo (embora estivessem em alto e bom som). Não havia peso. O primeiro CD não durou nem 10 minutos rodando no CD player e voltou direto para caixa pelas mãos da minha mulher, que tratou de sintonizar o rádio numa estação bem popular. Não lembro se era pagode ou Beyoncé que tocava.

Cheguei em Angra, mas continuei encucado com aquele inesperado engulho que Strawberry Fields Forever provocou-me dentro do automóvel. "Seria eu um reles beatlemaníaco fake?", me veio à mente tal provocação. Hoje, quatro dias depois, vi que o meu gosto pelos Beatles permanece aquecido, e minha atração pelas inúmeras boas canções idem. O problema não estava no som, mas no ambiente. Vi ali que The Beatles, para mim, não pode servir nunca de apetrecho para momentos prosaico-entediantes como dirigir um carro numa viagem de fim de semana. Aquilo é música clássica, ora essa! Merece todo um ritual de apreciação e devoção, tal qual é conferido às peças de Bach e Vivaldi numa sala de concertos.

A relação de reverência perante a obra criada por Lennon & McCartney, Harrison e Star se aflorou de forma profunda e definitiva depois que adquiri, no ano passado, a caixa remasterizada com toda a obra do quarteto. Era como se um mosaico desconhecido se abrisse sob os meus ouvidos, ampliando em muitas potências as percepções da música produzida por rapazes ingleses absolutamente geniais nas suas diferenças de estilo – o que congrega disparidades em conceitos musicais, filosóficos, poéticos e políticos. Conhecia muito pouco deles, e passei a conhecer menos ainda após a compra da coleção. E foi justamente esse encontro com a minha ignorância que me fez criar um ritual: esperar um momento de tranquilidade em casa, sem agitações ou atropelos, para só então abrir a urna sagrada e me debruçar sobre tão extenso e intenso universo sonoro. Algo que num bom home theater tem o seu valor redobrado.

Desta forma, cadenciada, serena, mas atenta às variações de acordes e harmonias, venho entrando aos poucos no gigantesco mundo músico-cultural dos Beatles. Quando coloquei às compilações rubra e celeste (ambas não remasterizadas, o que faz uma diferença...) no aparelho de som do carro, era como se esse encanto respeitoso e prazeroso, no qual ainda me encontro plenamente envolvido, se quebrasse. Temo que, após a aquisição da mega-caixa de CDs (são 16 mais um DVD), eu tenha ficado refém de um maneirismo meio rococó, algo com o um TOC do bem. Não sei se chegarei aos limites do radicalismo afeito aos mais puritanos, mas sei que os clássicos têm que ser respeitados. Após aquele bizarro estranhamento ocorrido no meu carro, percebi que não dá mais para ouvir Something e buzinar para uma Kombi ao mesmo tempo. Cada um na sua.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A preguiça jornalística me irrita, mesmo num sábado de carnaval

Hoje é dia 13 de fevereiro, sábado de carnaval. Já é noite, eu estou levemente alcoolizado, mas, ainda assim, estou agora intrigado com algo que não me diz respeito. Isso não faz o menor sentido, pois era hora de eu estar em alguma rua ou avenida tratando de permanecer em níveis alcoólicos ainda maiores. Mas dane-se o álcool, eu quero mesmo é expor minha indignação inútil a quem quer que passe por aqui, seja agora ou na quarta-feira de cinzas.

Indignado estou com a preguiça e a indolência que se apossam das pessoas que defendem o jornalismo nos dias de hoje. Ainda que um jornalista não tenha obrigação de ser especialista em tudo, ele tem o deve moral de se resguardar no momento em que faz determinadas assertivas. O resguardo, neste caso, se traduz em apuração. Em disposição em checar dados, números, valores, ordens de grandeza. Note que não estou falando em confrontar opiniões, em pesar a opinião de um contra a de outro. O que falo aqui é de algo absolutamente objetivo.

Se você entrevista um cantor e ele lhe diz, com todos os dentes que tem na boca, que seu último álbum alcançou a vendagem de 50 milhões de cópias numa única semana apenas no Brasil, o jornalista tem o dever, assim que chegar à redação, de levantar se o dado tem o algum fundamento. Caso tenha esse trabalho, será fácil identificar que a informação do cantor não passa de pura cascata, pois o maior vendedor de discos da história da música brasileira (Roberto Carlos) vendeu, em 50 anos de carreira, algo próximo a 100 milhões de cópias. Como alguém pode apresentar metade desse desempenho em apenas uma semana, com um único trabalho?

Digo isso porque, passando o olho nesta noite de folia pelo noticiário de carnaval da internet, vi uma reportagem do portal jornalístico de maior audiência do país dando conta que o bloco Galo da Madrugada, o principal do carnaval do Recife, atraiu neste sábado um contingente de 1,5 milhão de pessoas. Não há, na matéria, qualquer referência quanto à fonte que baseia esse cálculo, nem mesmo se foi uma conta feita no olhômetro de algum responsável pela segurança do evento. Nada. Há apenas a afirmação curta e grossa: "cerca de 1,5 milhão de pessoas". Tudo bem.

Tudo bem coisíssima nenhuma! Caso a criatura que passou a nota para a redação (repórter), ou a que transcreveu a notícia (redator), ou mesmo a que aprovou o texto antes de publicá-lo (editor), tivesse o trabalho "hercúleo" de ir ao site do IBGE, veria que a população da capital pernambucana tem, segundo estimativas populacionais aferidas em 2008, pouco mais de um milhão e meio de habitantes. Cacete, como é possível isso? Se a informação do portal, por um assombro da natureza, estiver correta, significa dizer que TODOS OS SERES HUMANOS (literalmente) que habitam a cidade do Recife se deslocaram para três ou quatro quarteirões da cidade a fim de acompanhar um único bloco de carnaval.

Ou seja, se uma mulher, naquele momento, estivesse prestes a dar a luz, teria que esperar um obstetra da cidade voltar da farra do Galo, onde todas as outras pessoas localizadas na mesma cidade (obstetras ou não) também estariam. Isso se a própria mulher prenha não estivesse também saltitando no frevo recifense. Pode? Não, é claro. E não adianta vir com a tese de que o carnaval do Recife atrai seus milhares de turistas nesta época do ano, porque nem mesmo uma leva de 500 mil forasteiros (num chute otimista) seria suficiente para bancar uma informação como a que circula hoje em inúmeros sites do país. Supondo que Recife tenha abarcado realmente meio milhão de turistas ao mesmo tempo no seu carnaval e que todos eles tenham se deslocado para o Galo da Madrugada, seria preciso que 2/3 da população local - incluindo idosos, crianças, deficientes e inválidos - também tenham optado por dançar o frevo atrás do famoso bloco. Isto, sob quaisquer circunstâncias ou pontos de vista, é absolutamente impossível.

Por que é tão difícil para jornalistas checar informações que parecem tão estranhas à primeira vista? Será mesmo só preguiça, vacilo profissional? Ou haveria algum interesse por trás de números inflados, projeções irreais, estimativas inchadas? Será que é impossível para um jornalista se dar conta que não há chance de todos os habitantes de uma cidade, seja ela uma metrópole ou um vilarejo, se aglomerarem num único espaço, por um mesmo motivo? Estariam eles levemente alcoolizados como eu?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pagode. Pagode? Sim, pagode!

Sucesso nas vozes de muitos, cantado por milhões e criticado por tantos outros, o movimento do pagode que dominou quase todo o dial brasileiro nos anos 1990 foi e ainda é motivo de um ensurdecedor silêncio da inteligenzia cultural brasileira. Tratado à margem da compreensão de um movimento musical de cunho popular, o pagode é acometido do mesmo mal que, anos antes, deletou a música popular dos anos 1970 da história. Figuras proeminentes desta leva – Fernando Mendes, Odair José, Diana, José Augusto... – foram abolidos a fórceps da memória nacional pela patota intelectual que até hoje pauta o Segundo Caderno do Globo e a Ilustrada da Folha.

A mesma coisa ocorre com a turma do "pagode mauriçola da Cohab". Emergida nas paradas de sucesso de todo o Brasil no mesmo período de outros dois movimentos musicais muito populares – o neo-sertanejo e o samba reggae (ou axé music) – o pagode, já naquela época, era desconsiderado como uma das vertentes diretas do samba-canção ligado à Era do Rádio da década de 40 do século passado. Ignorada pela crítica quando do seu sucesso, a música que leva sua a marca continua sendo motivo de piada de salão nas rodas de gente bonita da Zona Sul que frequenta os pés limpos da Lapa. A mesma gente que, segundo Emílio Santiago, quando ouve Ataulfo Alves pela primeira vez num desses botecos acha que descobriu o Brasil.

À parte preferências musicais e gostos particulares, o pagode dos anos 90, assim como o rock brasileiro dos anos 80 e o punk inglês dos anos 70, teve muita coisa ruim, uma massa de material visivelmente oportunista de quem queria apenas pegar carona numa onda de sucesso e ganhar algum. Problema? Nenhum. Isso é absolutamente normal na indústria do show business, conduzida sempre por empresários que sofrem da estranha anomalia de possuírem cifrões no centro das suas retinas. O que estranha é o asco absoluto em relação à parte boa da coisa. Dá a impressão que, se alguém abrir a boca pra dizer que achava bonita tal música do Só Pra Contrariar, uma reação desproporcional virá em sequência. Tipo um "você tá cheirando o quê?" ou mesmo um tabefe, sei lá.

Como este blog é feito de notas e impressões sem compromisso, mas com total responsabilidade sobre os seus atos, escrevo aqui em caixa alta para todo mundo ler e ouvir: EU ME AMARRO NUNS PAGODES DOS KATINGUELÊ E DO SOWETO SIM! E que se danem os possíveis atos covardes que virão contra a minha pessoa, o que vai desde ser excluído de listas de e-mail até ser preterido da sagrada cerveja das sextas. Este é, acima de tudo, um manifesto em defesa do out, do kitsch, do brega, do popular. E é um protesto contra quem finge não saber a formação do paredão da semana do BBB, mas adora espiar o programa na alcova do edredom. Exatamente como faziam aqueles que tanto criticavam o humor pastelão dos Trapalhões, mas riam de se acabar com os quatro comediantes nas noites de domingo.

Chega de hipocrisia, porra!

Bom, feito o desabafo, justifico esse post com uma lista de clássicos da boa safra do pagode bate-coração que tanto embalou churrascos de colégio e festinhas de trabalho de então. E aqui vai uma confissão: ouvir boa parte dessas músicas via YouTube (a melhor coisa que já inventaram na internet ao lado do Google), depois de tanto tempo, me deu uma sensação muito boa. Além da nostalgia natural, das lembranças da vida levada à base de Sessão da Tarde, veio uma coisa do tipo "putz, não é que isso era legal mesmo?!". Sim, era e ainda é, da mesma forma que tantas e tantas coisas consagradas feitas nos anos 70 e 80 continuam sendo legais até hoje. No caso do pagode, do axé e do sertanejo, lhes falta apenas um reconhecimento dos formadores de opinião ao gosto popular brasileiro. Só isso.

Aliás, sobre essa coisa do reconhecimento, me lembrei de dois exemplos perfeitos: quando Maria Bethânia gravou "É o Amor" para a trilha do filme '2 Filhos de Francisco', os críticos de plantão tiveram de torcer o dicionário para justificar "a surpreendente beleza escondida na canção", a mesmíssima canção que, gravada anteriormente por Zezé di Camargo e Luciano, fora defenestrada pelos mesmos críticos, com aqueles argumentos rasos de sempre. Noutro caso, Caetano Veloso regravou "Você Não Me Ensinou a Te Esquecer", de Fernando Mendes, e revelou ao Brasil, com seu habitual talento, a beleza e a sinceridade de uma música que, se não fosse por ele, Caetano, continuaria fadada ao ostracismo juntamente com seu autor e primeiro intérprete.

Enfim, chega de papo e sobe o som!

1 - Tempo de Aprender (Soweto): http://www.youtube.com/watch?v=0aQJFHikABs

2 - Gamei (Exaltasamba): http://www.youtube.com/watch?v=ADkVayQrd4o

3 - Dói Demais (SPC): http://www.youtube.com/watch?v=iO9VxvdaoOI

4 - No Compasso do Criador (Katinguelê): http://www.youtube.com/watch?v=Il_tGxW1g5o

5 - Quando Te Encontrei (Raça Negra): http://www.youtube.com/watch?v=Msd_Ln5muig

6 - Ôa Ôa Canção do Amor (Art Popular): http://www.youtube.com/watch?v=wGdR9_aY4g0

7 - Já Tentei (Kiloucura): http://www.youtube.com/watch?v=K_wAVNBKcj0

8 - Búzios e Tarô (Soweto): http://www.youtube.com/watch?v=kOLJL9YXdU0

9 - Nascente (Sem Compromisso): http://www.youtube.com/watch?v=w4R70I3GJ54

10 - Desengano (Cor da Pele): http://www.youtube.com/watch?v=8c0jBXL03E0

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Nizan, Chiclete e os rumos do carnaval de Salvador

Ao lado, o Chiclete com Banana carrega sua multidão no carnaval de Salvador
Nizan Guanaes é publicitário, marqueteiro e ex-gordo. Bell Marques é músico, cantor e careca. Ambos são baianos de Salvador e apaixonados pela cidade que os une. A paixão em comum, no entanto, criou um atrito inesperado.

Na sua página no Twitter, Nizan surpreendeu muita gente neste dia 12 de janeiro, ao criticar duramente a capital baiana, o seu carnaval e um dos seus principais personagens: o vocalista da banda Chiclete com Banana. Bell, para Nizan, simboliza a mediocridade e a inércia em que se encontra a sua cidade natal.

Alguns comentários a respeito surpreenderam pelo grau de superficialidade e infantilização, em especial por ter vindo de quem veio.

Apesar disso, a provocação de Nizan é necessária e pertinente, ainda que as grosserias desnecessárias contra Bell tenham tirado o foco do que realmente pode ser discutido a fundo.

Artistas ou blocos, quem faz a festa?

Na modesta opinião de folião deste diletante blogueiro, que já acumula mais de 15 anos percorrendo aos pulos a Avenida Sete, o Farol da Barra e a Praça Castro Alves, o carnaval de Salvador trilhou nas últimas três décadas um caminho equivocado, ao descompassar a relação entre os artistas e as entidades/agremiações. O primeiro grupo, forjado a partir do segundo, tomou as rédeas do jogo.

Numa comparação superficial, mas verdadeira, seria como se o carnaval do Rio tivesse como âncoras principais Jamelão e Neguinho, e não a Mangueira e a Beija-Flor. Jamelão, maior intérprete (puxador não!) da história das escolas de sambas, infelizmente se foi em 2008. A Estação Primeira continua, e vai perdurar enquanto houver carnaval.

Desde o início dos anos 1980, grande parte dos blocos de Salvador, nas suas diferentes versões (de trio, afros, afoxés, de índios) contribuiu de forma fundamental para que se criasse uma gama de artistas locais. Esses, por sua vez, imprimiram um processo de estruturação no mercado musical da cidade, estimulando a entrada de novas bandas para um número cada vez maior de blocos. Grosso modo, um crescimento compartilhado.

Ao longo do tempo, porém, essas entidades carnavalescas, que carregavam a matriz histórica da festa, suas tradições e conceitos, acabaram perdendo espaço justamente para a nova geração de músicos e cantores que haviam criado. Geração essa que frutificaria em estrelas de primeira grandeza no cenário musical brasileiro. Foi um processo gradual e irreversível.

A partir dessa lógica, o chamariz para o povo ir ao carnaval deixou de ser o Bloco do Barão ou os Internacionais. A multidão queria era ver os donos do microfone, como Luiz Caldas e Chiclete com Banana – para citar alguns que, já naquela época, se destacavam no cenário carnavalesco soteropolitano, ao lado de Sarajane e das bandas Reflexus, Cheiro de Amor e Beijo.

Esses artistas, da metade da década de 1980 em diante, ultrapassaram as barreiras baiana e nordestina e fincaram pé no eixo Rio-SP. Passaram a vender muitos discos, milhões. A ponto de um movimento que nasceu local, apenas para abastecer blocos de carnaval na capital baiana, virar gênero musical da indústria fonográfica nacional, tendo como estopim o surgimento meteórico de Daniela Mercury em 1992.

E no Axé, não vai nada?

O Axé Music fez dinheiro, e muito, não só para as suas estrelas, mas para uma imensa massa de empresários, comunicadores, comerciantes, publicitários e picaretas de toda ordem que se instalou em sua órbita.

Nos tempos de vacas gordas estava tudo nos conformes: os artistas mantinham uma agenda repleta de shows e micaretas ao longo do ano em quase todos os estados do país, cantando “o lindo carnaval de Salvador e suas mil maravilhas”; o público babava com o oásis baiano cantado em verso e prosa e entupia a cidade na época do carnaval; os blocos vendiam abadás como água e garantiam pequenas fortunas aos seus gestores; e a cidade se estabelecia de vez como pólo principal da maior festa popular do Brasil.

Era uma época inegavelmente afortunada para a chamada música baiana e para o carnaval de Salvador. Em meados da década de 90 do século passado, os lançamentos de registros ao vivo de shows eram garantias de sucessos nacionais de vendas, numa época em que vender muito era algo acima do milhão de cópias. Nos anos de 1996 e 1997, por exemplo, Banda Eva (2,2 milhões de cópias), Netinho (2 milhões), É o Tchan! (1,8 milhão) e Cheiro de Amor (1,5 milhão) detinham números invejáveis para a época, e inimagináveis para os dias de hoje.

Acontece que, já no final dos anos 1990, o rebanho de astros e estrelas dava demonstrações de que começava a emagrecer. Suas vendas minguavam ano a ano (não por coincidência, o processo se desencadeou junto com a derrocada da indústria do disco em nível mundial).

De repente, máquinas de fazer dinheiro, lotar shows e vender discos como É o Tchan!, Netinho, Ara Ketu, Cheiro de Amor e a própria "Rainha do Axé", Daniela Mercury, se converteram em fracassos comerciais, em maior ou menor escala.

Registre-se que o movimento cíclico do carnaval fez surgir novas atrações, entre eles Babado Novo, que em pouco tempo daria lugar apenas a sua estrela, Claudia Leitte; Banda Eva, com o ótimo Saulo Fernandes; Margareth Menezes, que, embora veterana, renasceu para o carnaval da Bahia; e, acima de todos eles e de qualquer outro(a), o fenômeno Ivete Sangalo, egressa dos vocais da Banda Eva. Com dez anos de carreira, Ivete já ocupava confortavelmente o posto de maior artista do Brasil.

E o Chiclete?

Ao longo dos 30 anos em que se apresenta no carnaval de Salvador ininterruptamente (em 2010 completa a sua 31º performance nas ruas da cidade), o grupo liderado por Bell Marques alcançou uma posição icônica dentro da festa. Muito pelo fato de, em 1982, o trio do Chiclete (então servindo ao bloco Traz os Montes) ter sido o primeiro a adotar um equipamento de amplificação de som muito superior aos demais, algo até então inédito na história do trio elétrico.

Já no ano seguinte, via-se, sem exageros, que muitas pessoas literalmente iam para a avenida ver e acompanhar o Chiclete e seu trio, só. Criou-se entre banda e público uma relação que vai além da empatia. O Chiclete passou a ser visto pelo povo de Salvador, aquele que vai na “pipoca” do bloco ou mesmo o que vê os caminhões de longe, como o grande representante do carnaval da Bahia para o resto do Brasil. Como “a banda do povão”, que carrega consigo algo como a torcida do Flamengo, guardadas as devidas proporções.

Mas é injusto apontar a primazia na evolução tecnológica do trio como o único fator para o Chiclete se perpetuar como um gigante da festa – até porque a tecnologia do trio evoluiu muito além daquela novidade. O fato é que o Chiclete sabe levar um trio. Sabe conduzir a massa como poucos fazem. Tem o timing da galera. Ou seja, é bom de palco (móvel). É por isso que eles estão aí até hoje.

Além disso, Bell se revelou um homem de negócios astuto, sabendo encaminhar sua carreira com discrição ao mesmo tempo em que fazia ótimos negócios. Um deles foi a criação do principal bloco “alternativo” do carnaval de Salvador, o Nana Banana (que é franqueado nas poucas micaretas que ainda resistem Bahia a fora). Outro foi a associação aos donos do Camaleão para a criação de uma empresa de venda de abadás e pacotes de carnaval, a Central do Carnaval, líder absoluta neste negócio.

Isso tudo somado transformou o Chiclete com Banana numa marca muito forte do carnaval e, por extrapolação, da própria Bahia. Tornou-se algo como o Galo da Madrugada no carnaval do Recife: uma expressão tão grande quanto à própria festa, capaz de chamar público por si só. Não à toa seus shows continuam enchendo e suas vendagens de CDs e DVDs são boas para os padrões atuais. São méritos incontestáveis (artísticos e comerciais) deles próprios.

Quanto à peruca de trancinha do Bell e sua calvície, deixo a opinião de Nizan apenas para ele. Tomara que ele próprio faça o mesmo daqui para frente...

E os rumos do carnaval?

Com a queda vertiginosa nas vendas de discos (não só da música baiana, registre-se) já na década atual, o número expoente de artistas que “vendiam” a Bahia e o seu carnaval caiu proporcionalmente. A quantidade de estrelas, de primeira ou segunda grandeza em nível nacional, idem. Os efeitos vieram a reboque. Os blocos já estão sentindo isso na pele (entenda-se no bolso).

Se há oito anos víamos situações absurdas, como o bloco Camaleão esgotar a venda de abadás para o carnaval do ano seguinte três dias depois do encerramento do carnaval anterior, este ano o quadro de vendas das grandes corporações comerciais que regem a folia baiana mostra sinais claros de um certo esgotamento (do modelo? dos artistas? da música? da festa?).

A exatos 30 dias para o início do carnaval, nenhum dos quase vinte blocos comercializados pela Central do Carnaval estão lotados, para dia algum. Mesma situação se vê no Reino da Folia, empresa espelho da Central administrada pela banda Asa de Águia. Seus blocos continuam lá, todos eles disponíveis, parecendo que a festa ainda está a mais de três dígitos de dias para se iniciar. Situações como essas jamais ocorreram nesses últimos 30 anos em Salvador.

Talvez isso demonstre que a ideia, orquestrada ou não, de colocar os artistas da música comercial baiana à frente de todas as tradições do carnaval foi um risco pouco calculado à época, cujo preço pode começar a ser pago neste carnaval de 2010. Não acredito num cenário desolador de blocos e ruas vazias (ou pouco cheias), mas acho que a falta de um pensamento mais amplo quanto aos rumos da festa – algo como um planejamento estratégico de longo prazo – terá de tomar conta das agendas dos órgãos gestores.

A rigor, hoje o carnaval de Salvador tem apenas quatro âncoras capazes de gerar apelo de público, seja de dentro ou de fora da cidade e do estado: Ivete, Chiclete, Asa e Claudinha. Quatro artistas inegavelmente talentosos, versáteis e populares, mas cujo alcance artístico de “astros de trio/bloco” limita sobremaneira uma festa tão plural, diversa e multirreferencial como (ainda) é o carnaval de Salvador.

Cadê a manifestação orgulhosamente autêntica dos blocos afros da Bahia, capitaneados pelo Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê Debalê, entre outros? Onde está a valorização maior aos afoxés, da imagem alva eternizada pelos Filhos de Gandhy singrando as avenidas ao som do ijexá? Os cortejos populares e os blocos de manifesto, como o Mudança do Garcia, morreram dentro da profissionalização (ainda que necessária) da festa?

Acredito que estes questionamentos tenham feito parte da abordagem que Nizan Guanaes fez no seu Twitter. E tem todo o direito de fazê-lo (tomara que sem ataques pessoais), pois ele mesmo já transcreveu numa música, exaltada ano após ano nas ruas da Bahia, a força da maior festa de rua do Brasil.

“Vai compreender que o baiano é um povo a mais de mil
Que ele tem Deus no seu coração
E o diabo no quadril”.

Apesar de tudo, e com fé no futuro, viva o carnaval de Salvador!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A grandeza indiscutível do Flamengo, agora em cifras

Fica cada vez mais difícil para os antiflamenguistas conseguirem argumentos capazes de ofuscar, por um pouquinho que seja, a real posição de liderança e primazia do Clube de Regatas do Flamengo no cenário do futebol brasileiro. Se dentro de campo a parada para eles está definitivamente perdida, com a hegemonia de títulos no Brasil e no Rio, fora de campo as coisas também não vão bem para a turma do arco-íris.

A matéria abaixo, publicada originalmente no Globoesporte.com a partir de reportagem de "O Estado de S. Paulo", coloca o Flamengo como a marca mais valiosa do futebol brasileiro, de acordo com um estudo da consultoria Crowe Horwath RCS. Pelo levantamento, se um sheik árabe pisasse por essas bandas a fim de comprar o Flamengo, teria de desembolsar em petrodólares o equivalente a R$ 568 milhões.

A título de comparação, o trio de ferro paulista – Corinthians, São Paulo e Palmeiras –, mesmo baseado naquela que é, de longe, a cidade mais rica do continente, come poeira atrás do Mengão.

Fazer o que, né...

Ah, já ia me esquecendo: segundo o mesmo estudo, o trio de lata carioca, somado, não vale 60% de um Flamengo. Isso mesmo: Vasco, Fluminense e Botafogo, juntos, estão um pouquinho acima da nossa cintura. Tem que olhar lááááá para baixo.

Precisa dizer mais alguma coisa?

Saudações HEXAgeradamente rubro-negras.

******

Marcas de Fla, Corinthians e São Paulo valem, cada uma, mais de meio bilhão
Estudo da Crowe Horwath RCS revela valores das marcas dos 12 maiores clubes do Brasil. Apesar do crescimento, diferença para europeus é grande
GLOBOESPORTE.COM
Rio de Janeiro


Nem adianta perguntar para um torcedor o valor do seu clube. É provável que a resposta seja "não tem preço". No entanto, a marca de cada clube vale, e muito, quando se trata dos maiores do Brasil. Foi o que revelou um estudo da Crowe Horwath RCS, divulgado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Ainda que longe das assustadoras cifras dos europeus, três brasileiros se apresentam como grandes potências.

1º - Flamengo: R$ 568 milhões
2º - Corinthians: R$ 563 milhões
3º - São Paulo: R$ 552 milhões
4º - Palmeiras: R$ 420 milhões
5º - Internacional: R$ 231 milhões
6º - Grêmio: R$ 214 milhões
7º - Cruzeiro: R$ 139 milhões
8º - Santos: R$ 135 milhões
9º - Vasco: R$ 122 milhões
10º - Fluminense: R$ 109 milhões
11º - Botafogo: R$ 97 milhões
12º - Atlético-MG: R$ 92 milhões

Os dois de maiores torcidas do Brasil, Flamengo e Corinthians, seguidos pelo São Paulo, podem ter como grande fonte de renda suas marcas. Cada uma vale mais de meio bilhão de reais, segundo a pesquisa. O Manchester United é o clube com a marca mais valiosa do mundo: R$ 3.204 milhões.

O levantamento levou em consideração os 12 clubes de maior torcida e número de títulos, de 1971 (início do Campeonato Brasileiro) a 2009. Os avaliados são os quatro grandes de São Paulo, os quatro do Rio, dois de Minas Gerais e os dois do Rio Grande do Sul.

De acordo com o estudo, a evolução nas receitas dos clubes entre 2003 e 2008 foi de 115%. As que apresentaram maior crescimento foram a exploração do marketing e a venda de ingressos. Para chegar aos números finais, foram usadas informações como os dados financeiros, perfil e hábito dos torcedores, marketing e mercado nacional e local. O resultado é baseado em marketing, estádio, sócios e mídia.

Para o futuro, essa arrecadação pode ser ainda maior. Hoje, as marcas dos doze principais clubes valem R$ 1,9 bilhão. Daqui a quatro anos, após a Copa de 2014, o número pode chegar a R$ 3,4 bilhões.

Já de olho no Mundial, o São Paulo espera manter, com seu estádio, a força que o projeta hoje como o terceiro da lista. O Tricolor se aproxima dos líderes graças a uma evolução de 234% em bilheteria e 93% em marketing.

Fonte: Globoesporte.com - http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/0,,MUL1428280-9825,00-MARCAS+DE+FLA+CORINTHIANS+E+SAO+PAULO+VALEM+CADA+UMA+MAIS+DE+MEIO+BILHAO.html

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Vale a pena ler de novo: o tetra do Flamengo, indiscutível hexacampeão brasileiro de futebol

Bom, neste primeiro post após a emoção da conquista do hexacampeonato pelo Mengão, vou abordar justamente a história do... hexacampeonato do Mengão! Mais precisamente do nosso quarto título, conquistado na Copa União de 1987 de forma muito semelhante ao campeonato deste ano: time chegando sem a atenção de muitos, vitórias suadas (algumas improváveis), um ídolo trintão à frente do time e um técnico "de casa" no comando. Isso sem falar na presença de Andrade em ambos os triunfos...

Mas o que quero é tão somente rememorar o autêntico teatro de comédia em que se transformou aquele torneio, que, por imposição da CBF colocada à mesa APÓS (de novo: APÓS) o seu início, culminaria com um dos mais esdrúxulos desfechos que o futebol profissional mundial teria notícia: um quadrangular entre os campeões e os vices da primeira e da segunda divisão para averiguar quem seria o real campeão do país. Pode isso? Nem em Bangladesh já se ouviu algo assim.

Evidentemente, Flamengo, Internacional e Clube dos 13 não compactuaram com tamanho disparate. Desde então, todos, do antigo Conselho Nacional de Desportos (então a instância máxima brasileira na área desportiva) à mídia em geral, passando pelas pessoas e instituições de bom senso, tratam o Flamengo como o real campeão de 1987. Mesmo que a CBF estampe em seu site algo diferente disso, falta a ela autoridade para contestar qualquer coisa que se refira à Copa União daquele ano.

Para deixar isso bem claro, reproduzo abaixo um texto excelente publicado há dois anos pela revista Trivela, que rememora todo o imbróglio e elucida várias controvérsias relativas ao ano em que conquistamos o tetra brasileiro. Esta postagem acaba sendo, por assim dizer, uma suíte do que eu já havia escrito e defendido aqui mesmo neste humilde blog no ano passado (leia em http://blogdooldon.blogspot.com/2008/10/taa-das-bolinhas-e-verdade-da-copa-unio_21.html).

Divirta-se, e Saudações Hexageradamente Rubro-Negras.

**********

Crise, revolução e traição
Postado em 05/11/2007 às 13:13 por Ubiratan Leal

Com o testemunho de 122.001 torcedores que lotavam o Maracanã no fim da tarde de 19 de julho de 1992, o Flamengo empatou em 2 a 2 com o Botafogo e conquistou o Brasileirão. Para o clube, era seu quinto campeonato nacional. Por isso, o capitão rubro-negro Júnior ergueu a Copa Brasil como se tomasse posse definitiva do troféu. Para a CBF, porém, era apenas o quarto título flamenguista e a taça continuaria à espera do primeiro pentacampeão nacional. Diante do impasse, a famosa peça de bolinhas criada pelo artista Maurício Salgueiro foi tirada de circulação e até hoje não tem dono.

A falta de um destino para esse troféu parece uma questão menor, mas dá um bom sinal de como as autoridades até hoje não equacionaram a disputa entre Flamengo e Sport para definir o campeão brasileiro de 1987. Uma história que muitas vezes é reduzida à validade de um cruzamento entre os melhores do Módulo Verde (formado pelos grandes clubes) com o do Amarelo, mas que envolveu briga política, mudança de regulamentos e até traição.

Capítulo 1: CBF em crise institucional

Na metade da década de 1980, já não havia mais condições de manter os Brasileirões inchados, com até 94 participantes. A própria CBF determinou que, em 1987, o campeonato seria reduzido para 24 clubes, definidos pelas posições na segunda fase do torneio no ano anterior. Seria simples, se os problemas não começassem ainda na Copa Brasil 1986.

No final da primeira fase, o Joinville pediu os pontos do empate em 1 a 1 com o Sergipe alegando que um jogador do adversário foi pego no exame antidoping. O CND (Conselho Nacional de Desportos) contrariou a CBF e determinou que os catarinenses tinham a vitória, o que agradou ao então ministro da educação Jorge Bornhausen. A decisão, porém, tiraria da segunda fase o Vasco. A confederação ainda envolveu a Portuguesa na discussão e, para agradar a todos, nenhum desses três clubes foi eliminado. Pior, sob influência do chefe da Casa Civil, o pernambucano Marco Maciel, foram abertas mais três vagas na segunda fase, o que beneficiou Náutico, Santa Cruz e Sobradinho-DF.

A falta de autoridade da CBF para impor suas decisões não era gratuita. A entidade vivia grande confusão administrativa desde a eleição à presidência da entidade no início de 1986. Nabi Abi Chedid e Medrado Dias eram os candidatos e havia a expectativa de empate. Se isso ocorresse, Dias seria eleito pelo critério de idade. Assim, momentos antes da votação, Nabi inverteu a chapa com seu vice Octávio Pinto Guimarães, mais velho que o concorrente. Guimarães venceu por um voto e assumiu a presidência da CBF.

Esperava-se que Guimarães fosse presidente apenas formalmente, pois o comando seria de Nabi. “Cheguei a participar de uma reunião que discutiu se Guimarães deveria renunciar meses depois de assumir”, revela Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo na época, em entrevista à Trivela. Isso não ocorreu e o presidente eleito resolveu fazer valer seu poder, o que desagradou o vice. Sem comando forte, o poder da CBF se deteriorou rapidamente. Os reveses se acumulavam – incluindo a derrota para Estados Unidos e Marrocos na concorrência para sediar a Copa de 1994 – e até a situação financeira da entidade era delicada.

Capítulo 2: nasce o Clube dos 13

Enquanto a CBF estava à deriva, os clubes já se organizavam para fazerem valer seus interesses. No caso, a maior preocupação era fazer lobby para incluir na pauta da Assembleia Constituinte – que se formaria em 1988 – um artigo que lhes desse autonomia de organização e funcionamento. A campanha foi bem sucedida e a união de clubes ganhou força. Em abril, Flamengo e São Paulo se negaram a ceder seus jogadores para uma excursão da Seleção Brasileira à Europa e tiveram respaldo do CND. Márcio Braga, presidente do Flamengo na época, saiu da reunião que anulou a convocação da Seleção dizendo, triunfante, que era o “fim do autoritarismo no futebol brasileiro”.

Em junho de 1987, Octávio Pinto Guimarães anunciou: “a CBF não tem condições de organizar o Campeonato Brasileiro deste ano”. O motivo era a falta de dinheiro para arcar com as viagens dos times e outras despesas da competição. Sob o risco de ficarem sem a competição que já era a mais importante do calendário, os grandes clubes resolveram tomar as rédeas da situação. “Liguei para o Nabi e perguntei se era sério o que o Octávio falava. Ele disse que era e ‘deu a bênção’ para que organizássemos o campeonato se quiséssemos”, conta Aidar.

O dirigente são-paulino propôs a comandantes de outros times tradicionais a formação de uma associação de clubes para organizar o Brasileirão. Foram convidadas as equipes mais tradicionais de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Para evitar o rótulo de elitista, também foi convidado um representante do Nordeste, o Bahia. Assim, surgiu a União dos Grandes Clubes Brasileiros, conhecida como Clube dos 13. O presidente são-paulino passou a comandar também a associação.

Capítulo 3: a Copa União ganha forma

Quando foi formatado o novo Campeonato Brasileiro, a intenção foi transformar a competição em um grande produto para o mercado. O principal atrativo era haver apenas confrontos entre clubes de grande torcida. Por isso, não houve critérios técnicos para a definição dos participantes. Guarani e América-RJ, pela ordem, vice-campeão e semifinalista no ano anterior, foram preteridos. “Nossa ideia era romper os vínculos com modelo antigo do torneio, começar uma nova história”, comenta Márcio Braga, presidente do Flamengo. “Priorizamos os clubes que viabilizariam financeiramente uma competição à beira da falência”, acrescenta.

Ainda assim, o Clube dos 13 contava com o apoio da CBF. “A única exigência da entidade para oficializar nosso Campeonato Brasileiro foi a inclusão de mais três clubes de outros Estados”, comenta Aidar. Assim, foram chamados Coritiba, Santa Cruz e Goiás, clubes mais populares e donos de melhor histórico nacional entre paranaenses, pernambucanos e goianos na época. Novamente, não se podia falar em critérios técnicos, pois o Coritiba não era campeão paranaense (perdera o título para o Pinheiros) e fora 43º na Copa Brasil de 1986.

Com participantes definidos, o Clube dos 13 correu atrás de apoio financeiro. João Henrique Areias e Celso Grellet, diretores de marketing de Flamengo e São Paulo, comandaram o projeto comercial. O torneio foi batizado de “Copa União” para ter uma marca que enfatizasse a nova fase do futebol brasileiro e pudesse ser licenciada por diversas empresas. Além disso, a organização obteve o patrocínio oficial de Rede Globo, Coca-Cola e Varig.

A Coca-Cola colocou seu logotipo nas camisas de todos os clubes que não tivessem patrocinadores (apenas Flamengo, Palmeiras e Corinthians tinham contratos a cumprir) e no círculo central do gramado (depois, a Fifa vetou essa ideia e a marca ficou dentro dos gols). A Rede Globo transmitiu o campeonato com exclusividade, com a permissão de passar as partidas na cidade em que eram realizadas. A condição era que, minutos antes de a rodada começar, a emissora fizesse um sorteio de qual jogo seria visto por todo o país (o que gerou a curiosa situação de, em uma tarde com São Paulo x Corinthians e Flamengo x Fluminense, o Brasil inteiro viu Bahia x Goiás, que acabou sendo a despedida de Mário Sérgio).

Capítulo 4: traição, e a CBF volta à cena

A forma como surgia a Copa União deixou vários clubes descontentes. Os líderes do movimento eram América-RJ, Guarani e Portuguesa se sentiam injustiçados, pois teriam direito de estar na elite pelo desempenho no Brasileirão de 1986. “Não dá para aceitar um Campeonato Brasileiro em que os clubes grandes viram a mesa só porque não querem dividir o torneio com ninguém”, brada Homero Lacerda, diretor de futebol do Sport e presidente do clube em 1987. “Os dirigentes de todos os outros clubes sempre foram contra essa atitude autoritária do Clube dos 13 na época.”

O sucesso comercial da competição organizada pelo Clube dos 13 também saltou aos olhos da CBF. Desse modo, a entidade decidiu organizar uma competição com 16 clubes que estavam de fora da Copa União. Usou como critério a classificação do Brasileirão de 1986, apesar de deixar de lado a Ponte Preta em favor do Sport, e conseguiu o apoio do SBT. Depois, a CBF mudou seu discurso e deixou de considerar a Copa União como o Brasileirão. Naquele momento, o torneio dos grandes seria o Módulo Verde e o outro, o Amarelo. Os dois melhores de cada módulo se enfrentariam para definir o campeão nacional.

O Clube dos 13 decidiu boicotar o cruzamento. No entanto, a CBF contou com um apoio de dentro da união de clubes. “O Eurico Miranda era vice-presidente de futebol do Vasco e ficou como nosso interlocutor na CBF”, comenta Aidar. “Ele nos traiu e deu sinal verde para a CBF virar a mesa, mesmo contra a determinação dos outros 12 clubes de não fazer cruzamento com o Módulo Amarelo.” O Clube dos 13 não assinou o regulamento proposto pela confederação, mas já estava aberta a brecha para a confusão.

Os dois torneios caminharam e não se falava em cruzamento. Para a mídia, o título brasileiro se decidia na Copa União. O Flamengo conquistou o torneio ao surpreender o invicto Atlético-MG de Telê Santana na semifinal e ao bater o Internacional na decisão. O Módulo Amarelo teve percalços. Nem a possibilidade de cruzamento contentou América-RJ e Portuguesa, que decidiram boicotar o torneio. A Lusa voltou atrás posteriormente, mas os rubros, de fato, não jogaram uma partida sequer. No final, Guarani e Sport dividiram o título após empate em 11 a 11 na disputa de pênaltis.

Em janeiro daquele ano, a CBF impôs seu regulamento e determinou que seria realizado um mata-mata entre Flamengo, Internacional, Sport e Guarani. Flamenguistas e colorados confirmaram a decisão de boicotar o cruzamento e não compareceram às semifinais. Assim, Sport e Guarani fizeram a final, vencida pelos pernambucanos. As duas equipes representaram o Brasil na Copa Libertadores e foram oficializadas pela CBF como campeão e vice do país em 1987. O CND tinha outra visão e deu o título ao Flamengo. Anos depois, o Rubro-Negro de Recife ganhou o campeonato na Justiça.

Capítulo 5: legado

Não demorou para o Clube dos 13 se aliar à CBF e o movimento não teve continuidade. “Não chegamos a tomar o poder na época por falta de continuidade do caráter político do movimento”, avalia Carlos Miguel Aidar. Hoje, a associação de clubes tem como principal função negociar os direitos de transmissão do Brasileirão.
A confederação voltou a organizar o Brasileirão, apesar de o nome Copa União ter sido mantido em 1988. “A Globo apoiou com força o torneio de 1987 e se sentiu traída pelos clubes no ano seguinte”, afirma o jornalista Juca Kfouri, comentarista da emissora carioca na época e notório entusiasta da Copa União de 1987.

Ainda assim, não se pode dizer que o torneio não deixou seus rastros. A competição organizada pelos grandes clubes teve público médio de 20.877 pagantes, o segundo maior da história do campeonato nacional. Com o dinheiro vindo de patrocinadores, os clubes arrecadaram o equivalente a uma média de público de cerca de 40 mil pagantes. Ficou evidente a demonstração de força dos clubes, que ganharam mais voz nas discussões sobre o destino do futebol brasileiro.

Desde então, o principal torneio de clubes do país passou a prever sistema de promoção e rebaixamento (as exceções foram em 1993, com uma virada de mesa para resgatar o Grêmio, e em 2000, com a criação da Copa João Havelange após a batalha jurídica entre Gama e CBF). “O que era para ser uma revolução se transformou em uma transição, mas não deixou de ter sua importância histórica”, comenta o jornalista Celso Unzelte, pesquisador da história do futebol brasileiro.

O fato de sempre haver um asterisco quando se fala no campeão brasileiro de 1987 não abala o Sport, detentor de direito do título. “Essa confusão toda até foi boa para a gente, pois todos se lembram que somos os campeões de 1987. Ninguém fala no título do Bahia em 1988”, ironiza Lacerda. Para o jornalista Roberto Assaf, autor de três livros sobre a história do Flamengo, o fim da polêmica depende da CBF. “Enquanto a CBF não determinar que o Flamengo também é campeão de 1987, sempre vai se discutir a legimitidade da conquista do Sport.”

E o troféu Copa Brasil? Bem, quando foi criado, em 1975, ele teria posse definitiva do primeiro clube que conquistasse três Brasileirões consecutivos ou cinco alternados. Pelos critérios da CBF, até hoje a peça não tem dono. Pelo Clube dos 13, é do Flamengo. Para não aumentar a confusão, a confederação desistiu da taça, esquecida em um cofre da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro.

OS ATORES DA PEÇA

Clubes grandes
Estavam dispostos a se unirem para ganhar autonomia e mudar a estrutura do futebol de modo que explorassem melhor seu potencial econômico. Aproveitaram a desistência da CBF em organizar o Brasileirão de 1987 e criaram o Clube dos 13.

Clubes pequenos
Alguns, como América-RJ, Guarani e Portuguesa, se sentiram prejudicados pela falta de critério técnico na definição dos participantes da Copa União e muitos falaram que era uma “virada de mesa”.

CBF
Com presidente e vice que não se entendiam, a entidade estava desgovernada, sem força política e em crise financeira. Não tinha mais condições de segurar a vontade dos clubes de se organizarem por conta própria.

CND
O Conselho Nacional de Desportos foi criado por Getúlio Vargas para regular os esportes de competição no Brasil. Era o meio de o governo interferir no esporte, mas, na metade da década de 1980, o CND era presidido por Manuel Tubino e tinha uma visão mais progressista, incentivando o aumento de autonomia dos clubes. O órgão foi extinto em 1993, no governo de Itamar Franco.

Patrocinadores
Globo, Coca-Cola e Varig viram na Copa União o primeiro Campeonato Brasileiro em torno do qual haveria uma grande mobilização nacional. Assim, apoiaram o Clube dos 13 e criaram diversas ações de marketing específicas para a competição.

UM PARA LÁ, DOIS PARA CÁ

A dança de clubes que participariam do Brasileirão de 1987 foi bastante confusa. Veja como seu time fez parte desse vaivém:

Pela Copa Brasil 1986, os seis primeiros de cada grupo da segunda fase teriam vaga no Brasileirão do ano seguinte. Com a briga na Justiça entre Joinville, Vasco e Portuguesa, a CBF determinou que seriam os sete primeiros de cada chave.

V

América-RJ, Atlético-GO, Atlético-MG, Atlético-PR, Bahia, Bangu, Ceará, Corinthians, Criciúma, Cruzeiro, CSA, Flamengo, Fluminense, Goiás, Grêmio, Guarani, Internacional-RS, Internacional-SP, Joinville, Náutico, Palmeiras, Portuguesa, Rio Branco-ES, Santa Cruz, Santos, São Paulo, Treze e Vasco

******

Com a desistência da CBF organizar a competição, o Clube dos 13 decidiu realizar seu próprio campeonato

V

Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco

******

O Clube dos 13 ainda convidou as três equipes mais populares de Estados que não tinham vaga na Copa União para tornar a competição mais nacional.

V

Coritiba, Goiás e Santa Cruz

******

A CBF decidiu organizar o Módulo Amarelo com os clubes que se classificaram entre os 28 da Copa Brasil 1986 e não estavam na Copa União. Ainda convidou Sport e Vitória.

V

América-RJ, Atlético-PR, Atlético-GO, Bangu, Ceará, Criciúma, CSA, Guarani, Internacional-SP, Joinville, Náutico, Portuguesa, Rio Branco-ES, Sport, Treze e Vitória. Em protesto pela exclusão na Copa União, o América-RJ não disputou o Módulo Amarelo.

******

Para definir os 24 participantes da Copa União de 1988 (já organizada pela CBF), foram utilizados os participantes do Módulo Verde de 1987 e dos oito primeiros do Módulo Amarelo. A exceção foi o América-RJ, que ficou com a vaga da Internacional-SP como compensação pelo ano anterior.

V

América-RJ, Atlético-MG, Atlético-PR, Bahia, Bangu, Botafogo, Corinthians, Coritiba, Criciúma, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Goiás, Grêmio, Guarani, Internacional, Palmeiras, Portuguesa, Santa Cruz, Santos, São Paulo, Sport, Vasco e Vitória

OBS.: reportagem originalmente publicada na edição nº 15 (maio de 2007) da revista Trivela. Na internet, disponível em http://www.trivela.com/Conteudo.aspx?secao=45&id=16544.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Hexa!


DESCULPEM, MAS NÃO HÁ PALAVRAS QUE TRADUZAM COM FIDELIDADE O SENTIMENTO QUE ESSES CARAS AÍ DE CIMA PROPICIARAM A MILHÕES DE BRASILEIROS NESTE DOMINGO, 6 DE DEZEMBRO DE 2009.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Há algo de podre no reino da paulistada

Há algo de podre ganhando corpo na imprensa não-carioca, e que tende a se materializar a partir de domingo, por volta das 19 horas.

Se o script não sofrer alterações sobrenaturais e o Flamengo conquistar o campeonato, uma avalanche de "indignações" dos ditos especialistas, principalmente entre os de fora do Rio, pode se alastrar em rádios, jornais, televisões e na internet.

Pelo pouco que li e depreendi nesta semana em vários sites e blogs, os caras estão moldando um discurso pseudo-ético que tem como objetivo desmoralizar o provável sexto título nacional rubro-negro.

A ideia, se bem entendi, é deixar claro que teremos em 2009 no Brasil um campeão de fato e um campeão moral, cuja carapuça pode caber em cabeças coloradas, palmeirenses ou são-paulinas.

Algo muito próximo daquele discurso da Copa de 1978 criado por Claudio Coutinho, para designar que o campeão da ética e da moral acabou não levantando a taça no último jogo.

No caso deste Brasileirão, os "campeões morais" estariam a quilômetros de distância do Maracanã, bem longe da festa que promete tomar conta do estádio, da cidade e de boa parte do país.

O absurdo tem como estratégia reduzir o possível titulo do Flamengo de domingo a uma espécie de subconquista, forjada muito mais na boa vontade dos outros do que nos méritos nossos.

Um movimento nefasto que promete ressuscitar discursos nazi-paulistas muito usados nos dois últimos títulos brasileiros do Rio (2000 e 1997), quando a queda do alambrado de São Januário e o efeito suspensivo pró-Edmundo foram muito mais importantes, para eles, do que o brilho das campanhas do Vasco da Gama.

Enfim, bastou uma nova conquista carioca se avizinhar que o "entreguismo" vai ser o grande protagonista desse campeonato. Foda-se a melhor campanha, o maior número de vitórias, a artilharia, a arrancada...

O Flamengo não poderá ser campeão na bola. O Rio não pode ganhar como todos os outros ganham. Tem que ser roubado, ponto.

Já estou me preparando para a quantidade infindável de abobrinhas que virá por aí. Ai meus ouvidos!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Achismos

Sobre o campeonato:
Maluco. Insano. Doido. Com um sem números de reviravoltas, ascensões, decepções e surpresas (boas), não dá para prever rigorosamente nada, nem mesmo quando tudo leva a crer naquilo que parece óbvio.

Sobre o Flamengo:
Sereno. Um time plenamente consciente do que precisava fazer e não fazer. Destaque para Zé Roberto, arisco como os antigos pontas. Agora é pé no chão, cabeça no lugar e coração bem dosado.

Sobre o título:
Palpável. Apenas um aparte: para uma equipe que protagonizou experiências de anticlímax sem iguais nos últimos anos, certa prudência e um tonel entupido de caldo de galinha não farão mal algum nesta semana. Estamos (muito) perto, mas ainda falta um.

Sobre as emoções:
Múltiplas. Indo da ansiedade ao nervosismo, passando por confiança, preocupação, alegria e alívio. Uma tarde como a desse domingo evoca não apenas sensações, mas certezas. Uma delas fala sobre como é bom ser Flamengo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Aos tricolores, de coração

O que o Fluminense está protagonizando há uns dez ou doze jogos, entre Campeonato Brasileiro e Copa Sulamericana, é algo que pode, quem sabe, virar mote para teses de mestrado em psicologia do esporte. Ou talvez para monografias de MBAs em ciências ocultas.

De virtualíssimo rebaixado para a Série B em 2010, o time de repente, assim, do nada, resolveu jogar o que não havia jogado o ano inteiro. E jogando bola, e bem, começou a ganhar.

De um, de dois, de três... Começou e não parou mais.

Venha quem vier, seja o líder do campeonato ou o detentor de melhor campanha no returno, a máquina tricolor vai atropelando um a um.

Já são mais de uma dúzia de partidas nesse embalo alucinante, insano, quase que inacreditável, construído à base de gols nos acréscimos e viradas heroicas.

Vitórias capazes de erguer da cama o mais moribundo dos enfermos, diria um certo tricolor e dramaturgo, que "brincava" de escrever sobre futebol.

Vitórias, acima de tudo, alçadas sob a magia de uma torcida que comparece, apoia, acredita, incentiva e parece, por telepatia, transmitir aos jogadores em campo uma força sobrenatural (de Almeida?). Daí a coisa das ciências ocultas que alguém um dia ainda haverá de explicar...

É impossível afirmar agora, neste momento, se o Fluminense cairá, se permanecerá, se ganhará ou não a Sulamericana.

À parte o desfecho dessa saga homérica digna das lendas mitológicas do mundo do futebol, o tricolor protagoniza um enredo capaz de comover até mesmo alguns rivais rubro-negros, que já andam emotivos com os sonhos da conquista de um certo Brasileirão...

domingo, 15 de novembro de 2009

114 anos de raça, amor e paixão


Neste 15 novembro de 2009 o Clube de Regatas do Flamengo completa 114 anos de existência. Neste mesmo 15 de novembro o time do Flamengo presenteou os cerca de 35 milhões de devotos com uma bela vitória contra o Náutico, no Recife. Ainda neste 15 de novembro, com a vitória em solo pernambucano, o time da Gávea assumiu a vice-liderança do Campeonato Brasileiro, a dois pontos do líder São Paulo, restando ainda nove a serem disputados.

Os flamenguistas não poderiam exigir, nesta data tão querida, presente melhor em homenagem ao Mais Querido do Brasil.

Não sei como vai acabar esse campeonato. Quais serão os clubes rebaixados, quem representará o país na Taça Libertadores do ano que vem, quem terá a honra e o prazer de erguer o troféu de campeão ao final da 38º rodada. Só sei que hoje, neste 15 de novembro, dia tão especial para todos os rubro-negros, o Flamengo disputa o caneco não só com a autoridade de quem já o conquistou por cinco vezes, mas principalmente com a moral de quem apresenta, na prática, o melhor futebol do país no momento. Futebol digno de campeão.

A raça, o amor e a paixão que caracterizam o Manto Sagrado ao longo da sua centenária história podem, mais uma vez, se fazer presentes em mais uma linda conquista. Se Deus quiser.

Amém.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De "time de chegada" à força dos pontos corridos: chegaremos lá?


O jornalista Juca Kfouri reproduziu esta semana no seu blog um levantamento instigante por muitos aspectos, principalmente para aqueles que, como eu, torcem pelo Clube de Regatas do Flamengo. Baseado nos Campeonatos Brasileiros entre 1971 e 2002 – quando, sob inúmeras variações de fórmulas de disputa, adotava-se o modelo de mata-mata - um colaborador do colunista resolveu fazer um levantamento interessante: quais seriam os campeões antes da disputa das fases decisivas. Ou seja, antes da entrada do mata-mata propriamente dito, na reta final dos torneios. Com isso, teríamos os seguintes campeões brasileiros:

1971 – Corinthians
1972 – Palmeiras*
1973 – Palmeiras*
1974 – Grêmio
1975 – Inter*
1976 – Inter*
1977 – Atlético Mineiro
1978 – Inter
1979 – Inter*
1980 – Atlético Mineiro
1981 – Vasco
1982 – Guarani
1983 – São Paulo
1984 – Fluminense*
1985 – Sport
1986 – Guarani
1987 – Atlético Mineiro
1988 – Vasco
1989 – Vasco*
1990 – Grêmio
1991 – São Paulo*
1992 – Botafogo
1993 – Palmeiras*
1994 – Guarani
1995 – Santos
1996 – Cruzeiro
1997 – Vasco*
1998 – Corinthians*
1999 – Corinthians*
2000 – Cruzeiro
2001 – São Caetano
2002 – São Paulo
* Times que conquistaram o título no respectivo ano

Pois qual não foi a minha surpresa ao constatar que o Flamengo, o grande Mengão da Era Zico, dono de um time de dar inveja a qualquer santista saudoso de Pelé & Cia, não teria ganho um título sequer ao longo dos 32 anos de Campeonato Brasileiro de modelo mata-mata, caso tivéssemos como campeões, em cada ano, os times mais bem colocados nas etapas de classificação – onde, invariavelmente, todos jogavam contra todos. Dos cinco títulos que tanto nos orgulham, ficaríamos a ver navios em todos eles. Dos 12 grandes times do eixo RJ-SP-MG-RS, o Flamengo seria o único a não ter, até hoje, um único troféu de Campeão Brasileiro na sua sala. Sport, São Caetano e Guarani, todos eles teriam conquistado o Brasil ao menos uma vez (o Bugre Campineiro teria chegado lá três vezes!). O Flamengo, nenhuma.

A pesquisa, além de interessante do ponto de vista histórico, valida em dados uma máxima que se tornou muito comum no futebol brasileiro a partir dos anos 80: aquela que coloca o Flamengo como um autêntico "time de chegada". Dentro do raciocínio que envolve esse pensamento, o rubro-negro carioca notabiliza-se não propriamente pela regularidade, pela manutenção de campanhas vitoriosas do início ao fim do campeonato, ou durante a maior parte dele. Ao contrário: o ponto de inflexão do time da Gávea, segundo essa lógica, estaria na força demonstrada nos confrontos diretos da parte final, quando as campanhas das fases classificatórias são ignoradas e inicia-se, na prática, um torneio de tiro curto: o melhor contra o pior classificado em jogos de ida e volta. Lá e cá.

E daí?, você pode estar se perguntando. E daí que esse levantamento empírico, feito mais pela curiosidade do que para provar algo a alguém, mostra, sim, que sempre fomos um time de chegada. Que nunca nos notabilizamos pela regularidade tão essencial que necessita uma equipe que chega ao título máximo do país no modelo de pontos corridos. E que, muito provavelmente, levaremos tempo (muito?) para incutir no nosso DNA essa mudança de paradigma. Ao ver a provocação no Blog do Juca, cheguei a me questionar: será que aquele Flamengo da Era Zico era tão imbatível quanto o mito que se criou em torno dele faz supor? Ou imbatível, na verdade, era a combinação time embalado + Maracanã abarrotado + clima de "deixou chegar..."?

Pensando melhor, não acho que seja assim. Como diria Tim Maia, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Acredito piamente que a qualidade daquela geração é absolutamente incontestável. E não serei eu, rubro-negro com orgulho e amor nas vitórias e derrotas, que ousarei dizer o contrário. Acontece que o resultado final desse levantamento me despertou o interesse justamente por trazer uma prova de verdade para o ditado popular: o Flamengo SEMPRE foi um time de chegada, literalmente. Nunca tivemos as melhores campanhas antes das finais, nem mesmo quando fomos campeões. No entanto, (quase) todas as vezes em que chegamos, ou nos deixaram chegar, ganhamos.

Mas a lógica mudou, e vai permanecer por muito tempo. Na nova ordem dos fatos, não basta mais o embalo das fases decisivas nos jogos de ida e volta, nos quais garantíamos sempre um Maracanã enlouquecido com 130 mil pessoas e um time com espírito matador, moldado à feição para aquele tipo de situação. Agora, um joguinho chinfrim de segunda rodada, frio, sem graça, num gélido mês de maio, pode fazer toda a diferença na disputa final do campeonato, quando, sob o calor de novembro, todo jogo tem cara e clima de decisão, pois vale realmente como uma decisão. Agora não tem mais jeito: é preciso provar em números que se é efetivamente o melhor. Sem mata-mata, ida e volta, lá e cá. É chegar na frente para ganhar. Simples assim. Difícil assim.

Não sei se o Flamengo conseguirá se adequar com sucesso a essa nova mentalidade. Para mim, ainda está mais viva do que nunca a imagem desoladora ao final de um Flamengo 1 x 2 Sport em 1992, quando, depois de mais uma derrota, me perguntava que papel poderíamos desempenhar na fase de mata-mata – que aquela altura, pela nossa posição na tabela, parecia bem distante. A história se seguiu com um desfecho conhecido: ganhamos alguns jogos, nos classificamos, crescemos, aparecemos, chegamos e ganhamos o campeonato. Tal e qual um autêntico time de embalo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Espírito Santa


O time de maior média de público do futebol brasileiro este ano é o Atlético Mineiro, com quase 39 mil pagantes. Nada mais normal, em se tratando de uma torcida fanática e absurdamente incentivadora como é e sempre foi a do Galo.

Espantou-me saber que o segundo time na média nacional (contando as quatro divisões, de A a D) não é o Flamengo, líder disparado de médias históricas de torcidas no futebol do Brasil, ou o Corinthians, outro gigante das massas que este ano já levantou dois canecos, sendo um deles em nível nacional.

O segundo time que mais levou torcedores aos estádios este ano em todo o país é o Santa Cruz, com pouco mais de 38 mil cabeças por jogo.

Esse Santa Cruz é aquele mesmo, de Pernambuco. O mesmo Santa Cruz Futebol Clube que há poucos meses foi eliminado na primeira fase da Quarta Divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol, e que por lá permanecerá por mais um ano, pelo menos.

Nada de Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco, Grêmio ou Cruzeiro. A torcida do Santa Cruz é que é a tal!

Esse dado para lá de singular – em tratando de um time da Série D! –, por si só, suscita mil teses sobre a paixão do brasileiro pelo futebol, seja em que situação for. Ou ainda sobre reações inesperadas de afetividade e compaixão que o ser humano tem em certas situações de desilusão e desespero.

A torcida do Santa, com a sua demonstração inequívoca de amor na tristeza e na doença, como reza a pregação do sacerdote na hora do matrimônio, dá uma prova de que casamentos podem durar até mesmo sob o impacto da mais cruel das intempéries.

Basta ter amor sincero no meio.

***

Em tempo: o grande Santa Cruz começou a disputar, no dia 17 de outubro, um torneio semi-amador no estado chamado Copa Pernambuco, com o único objetivo de evitar o desmonte completo do seu departamento de futebol profissional. O público do primeiro jogo, contra o Vitória local, na casa do adversário, foi de 792 testemunhas, com renda total de R$ 3.600.

***

Bem, o amor com certeza não acabou. Mas talvez tenha tirado férias...

domingo, 4 de outubro de 2009

Tá na cara, tá na capa: o Rio já é 2016!

Pois é, conseguimos. Com a carga negativa de uns, com o azedume pseudo-crítico de outros, o Rio de Janeiro, o Brasil e o povo brasileiro conseguimos aquilo que, há uns oito anos atrás, era um sonho, uma viagem distante: sermos sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Isso apenas dois anos após sediarmos uma Copa do Mundo de Futebol. Os dois maiores eventos do mundo aqui, um atrás do outro.

É evidente que isso significa, na prática, a transferência de responsabilidade para nós. Teremos prazos, metas e desafios numa escala jamais vista para cumprir. Temos condições? Todas. Podemos fazer tudo aquilo que nos cabe com responsabilidade na gestão dos recursos? Também temos, mas aí cabe uma fiscalização direta da população e dos órgãos competentes. Mas temos, sim, condições - disso não tenho dúvida. Condições de fazer, de fato e na prática, as Olimpíadas mais belas da história. O cartão postal está aí, só esperando.

De cara, o Rio já pode contabilizar o primeiro dos benefícios com a decisão do COI na última sexta-feira. O nome da cidade, e me arrisco a dizer que do próprio país, jamais teve a repercussão que teve neste sábado em todo o planeta. Não só pelo ineditismo de os Jogos chegarem à primeira vez ao Brasil e à América do Sul, mas também pela nova imagem que o país tem aos olhos do mundo. Parafraseando a insinuação feita pelo presidente Lula, o velho complexo de vira-latas realmente ficou para trás.

Abaixo, um apanhado de algumas capas de jornais nacionais e estrangeiros deste sábado, destacando com imagens a festa em Copacabana, após a confirmação do Rio de Janeiro Olímpico. Do Rio de 2016, no centro do mundo.




















quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rimas pobres, sentimentos nobres

Numa sexta-feira o Sol raiou mais forte
As ruas e avenidas silenciaram
As pessoas, tranquilas, caminhavam
Esperavam
Só queriam um sopro divino da sorte.

Neste estranho dia tudo ganhou cor
Tez dourada
Era mágica a caminhada
Não havia medo
Temor
Estava desenhado um lindo enredo
O vento conspirava a favor.

Parecia sonho
Talvez fosse
Não, acho que não era
Era o início de algo novo?

O dia acabou
Na derrota, na vitória...
A luz apagou.

Chegamos ao fim.

Esta sexta entrou, sim, para história
Pelas mãos dadas
Pelo sentimento coeso
Por algo que não sabemos se existirá
Tampouco podemos ver como será
Mas que mesmo assim, do nada
Insiste em manter um brilho aceso.

Vencendo ou perdendo
Ganhamos uma esperança.

Crédito da foto: Ernesto Martins

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um dia estranhamente tranquilo


Hoje acordei num dia estranhamente tranquilo, bonito, azulado. Um dia que em nada lembra o cenário de terror de ontem, no qual jornalistas, policiais e transeuntes eram alvejados em linhas de tiros por traficantes entocados em algumas favelas da cidade.

Imagens exibidas ontem pela Globonews mostraram repórteres, PMs e motoristas se protegendo de rajadas ininterruptas, sendo que alguns não conseguiram a tempo e acabaram feridos pelos estilhaços dos projéteis. Isso em Vicente de Carvalho. No Engenho de Dentro, outro subúrbio, dois seguranças do presidente da Cedae foram assassinados em uma emboscada de possíveis assaltantes, que não roubaram o carro que servia ao executivo. Outras cenas de violência explícita aconteceram na cidade, incluindo um sequestro de ônibus.

A pessoa que lê essas mal traçadas linhas neste momento deve se perguntar: "Qual a estranheza disso tudo, se afinal você está falando de violência e Rio de Janeiro, dois termos quase que sinônimos?". O que me intriga nisso tudo é a forma absolutamente solene como o jornal O Globo ignorou os fatos citados na sua edição de hoje. Na verdade, pequenas reportagens no meio do caderno Rio abordaram en passant os ocorridos, como se se tratassem de uma batida qualquer que atrapalhou o trânsito na Lagoa ou de uma obra inconveniente da prefeitura na Tijuca. Fatos quaisquer.

O Globo, é bom lembrar, criou há alguns anos uma série permanente para as tragédias da violência pública carioca, intitulada "A Guerra do Rio". "A Guerra do Rio" serve para designar assaltos seguidos de morte, guerras entre policiais e traficantes, guerras entre traficantes e traficantes, ações de criminosos nas ruas, mortes com balas perdidas e tudo mais que cabe no espectro da criminalidade urbana de uma cidade como o Rio de Janeiro.

Ontem, depois de assistir estarrecido às cenas pela TV, pensei: "Amanhã o jornal vai manchetar isso tudo, tenho certeza!". Enganei-me redondamente. Nada, rigorosamente nada, na primeira página de O Globo remete a esta quarta-feira de cão. Nem o destaque do caderno de cidade é dedicado à série de sinistros.

O lapso editorial – chamemos assim – do único jornal de alcance nacional sediado na cidade lembra a postura desatenta que sempre marcou a cobertura dos casos de violência na periferia de São Paulo pelos dois grandes jornais paulistas (Folha e Estadão). Estes sempre me pareceram muito mais ligados nas trocas de tiros do Complexo do Alemão do que nas chacinas do Capão Redondo. Talvez por uma questão meramente editorial, talvez por motivações político-empresariais, a imprensa sempre entrou muito mais pesado na roleta-russa da violência urbana do Rio do que na de São Paulo.

Não sei o que pode ter realmente motivado essa súbita e inesperada tirada de pé na cobertura de mais um capítulo do caos social que nos aflige, do Leblon ao Engenhão. Uma pista pode estar nas próprias páginas do jornal da família Marinho – do qual sou assinante já faz mais de década: o destaque dado ao apoio do presidente americano Barack Obama à candidatura de Chicago para as Olimpíadas de 2016 foi bem maior que qualquer caso de violência ocorrido ontem. E o Rio está nessa disputa (com reais chances de ganhar), todos nós sabemos.

Seria esse um caso em que o jornalismo opta pela omissão na abordagem dos fatos na sua real dimensão em prol da busca por algo redentor para o coletivo?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sobre belezas e indisciplinas, por Seu Jorge

O simpático Seu Jorge é o que se pode chamar, à primeira vista, de um típico cidadão do Rio.

Cara de carioca, estilo de carioca, jeitão de carioca, adentrou no cenário musical carioca nos anos 90 em um grupo chamado... Farofa Carioca! Daí em diante sua carreira deslanchou e, já em voo solo, gravou discos respeitados no rol da chamada World Music, além de fazer boas participações em filmes estrangeiros e nacionais – o seu Mané Galinha em "Cidade de Deus" é um dos maiores acertos da excepcional produção de Fernando Meirelles. Recentemente, Seu Jorge ganhou ares de ídolo da MPB, ao gravar com Ana Carolina e colocar músicas em novelas e nas rádios de todo o país.

Sem dúvida, uma elogiável e merecida trajetória de sucesso, de um cara que tem a cara do típico trabalhador brasileiro.

Tudo isso colocado e exposto, digo que Seu Jorge, lamentavelmente, não sabe nada de Rio de Janeiro. Como tantos outros, artistas ou não, ele vê na cidade a cruz que o impediu de progredir na vida com a devida antecedência, limitando-o enquanto ser socialmente produtivo e sonegando-o a chance de se tornar o grande homem que hoje é.

Tiro essas conclusões baseado numa declaração fortuita dada por ele ao Globo, em reportagem publicada na última sexta-feira. Ao comentar sobre a opção por fazer de São Paulo sua morada há cerca de seis anos, ele me sai com a seguinte definição daquilo que se pode chamar de "típico carioca (segundo Seu Jorge, grife-se)":

- São Paulo me educou. O Rio não te convida à disciplina. Andar de bermuda, sem camisa, chinelo... No Rio, o pouco que eu tinha era bom. A cidade me inspira a pegar um violão, não a fazer um CNPJ. Viu o Obina? Emagreceu, voltou a marcar...

É claro, como é que eu nunca pensei nisso antes? Para o povinho indolente de chinelo e bermuda que vive nessa cidade desgraçadamente bonita, capaz de se refestelar sob qualquer céu azul e lançar às favas os compromissos do dia a dia, a única solução é se mandar para São Paulo! Fácil, não? Basta alugar um conjugado de frente para a Marginal Pinheiros, tomar quatros ônibus por dia que lhe consumam pelo menos 1/3 do seu tempo útil, curtir aquele belo visual cinza chumbo e pronto!, sua vida haverá de melhorar. Seu Jorge garante!

Numa boa: ainda que ele não tenha tido a intenção deliberada de taxar isso ou aquilo do que quer que fosse, o que saiu na primeira página do Segundo Caderno de O Globo na última sexta-feira foi uma infeliz visão simplista e redutora de quem mora por aqui e não se deixa levar pela indisciplina. Enquanto ralador contumaz, eu simplesmente repudio essas insinuações recorrentes de que o Rio e o seu povo pagam por suas bênçãos e que o carioca é exclusivamente aquele vagabundo preguiçoso metido a ixperrrto. Minha indignação cresce de forma considerável quando esse tipo de retrato vem justamente de quem carrega o Carioca Way of Life como produto de marketing para concepção de uma persona artística.

Peguemos exemplos – e não são poucos – de paulistas, mineiros, baianos, gaúchos, pernambucanos e outros de tantos lugares diferentes que fizeram o caminho inverso: vieram ganhar a vida no balneário e conseguiram se estabelecer por aqui, em meio a mares e montanhas paradisíacas.

Tony Ramos – para ficar na área artística – nasceu em São Paulo, torce para o São Paulo Futebol Clube e se tornou carioca desde o final dos anos 1970, quando assinou contrato com a TV Globo. Nunca vi, em todos esses anos, uma só palavra capciosa dele em relação a sua terra natal por ela não ter lhe dado a oportunidade de ser o astro nacional que acabou se tornando no Rio. Até porque seria algo de nível avançado de imbecilidade. Tony Ramos fatalmente seria o grande ator que provou ser nesses anos todos em quaisquer outras cidades, bonitas ou não, que tivessem a infraestrutura que tem a Rede Globo.

Por outro lado, me parece igualmente errôneo atribuir sucesso ou fracasso pessoal a quem quer que seja simplesmente ao chão onde se pisa. Se Seu Jorge não conseguiu ser no Rio de Janeiro o profissional comprometido e aplicado que passou a ser em São Paulo é por culpa exclusivamente sua, não da praia ou da cervejinha gelada que refrescam os pobres mortais que por aqui sobrevivem.

Já ouvi esse papo de "a culpa é que o Rio de Janeiro continua lindo..." outras vezes, em ocasiões diversas. No caso do futebol, também citado por Seu Jorge, é comum dizer que a decadência dos nossos clubes é motivada pela eterna sensação de férias permanentes que o Rio provoca nos craques de fora que vêm jogar aqui. Discordo! Coloque do outro lado da Via Dutra as toupeiras que dirigem (sic) os times cariocas e aposto que em muito pouco tempo os gigantes paulistas convalescerão do mesmo mal que apequena os times do Rio. O que me faz crer, de novo, que pouco importa o cenário que emoldura a paisagem.

Com efeito, metrópoles tão complexas e difusas como Rio e São Paulo são compostas por todo tipo de gente, da melhor e da pior espécie. E entre tantas coisas legais que conglomerados urbanos como esses oferecem está justamente a geração em grande escala de inúmeras oportunidades, seja no campo profissional, pessoal, social, emocional... É bom saber que um cara que ralou por tanto tempo, de chinelo, bermuda, pouco dinheiro no bolso e muitos sons na cabeça, tenha se dado tão bem na vida. E para mim tanto faz o local onde se deu o insight para a mudança de rumo. O que me deixa triste é saber que as raízes históricas que o fizeram compor tão bem essa figuraça do bom carioca sejam hoje em dia, para ele próprio, um rascunho mal-compreendido da realidade.

Queria poder encontrar com Seu Jorge num dia desses e, depois da ralação do trabalho, brindar com ele um copo de cerveja no Arpoador, de bermuda e chinelo. Sei não, mas acho que eu conseguiria fazê-lo mudar de idéia em relação aos seus conterrâneos...