segunda-feira, 18 de abril de 2016

O discurso histórico de Darcy: por que Glauber chorava?

Contra a exaltação insana e covarde da memória de um matador oficial do Estado por parte de um deputado que prefiro omitir o nome imundo, em pleno plenário de Congresso Nacional (o que configura um crime tipificado em lei), relembro aqui o discurso histórico de mestre Darcy Ribeiro durante o enterro do cineasta Glauber Rocha, em agosto de 1981.

As palavras do antropólogo, uma das mentes mais brilhantes e generosas em favor da melhoria do povo brasileiro, valem para um Brasil que desgraçadamente ainda está aí e que se apresentou ontem de cara lavada, em horário nobre.

Triste.

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"Uma vez, e eu não vou esquecer nunca, Glauber passou uma manhã abraçado comigo e chorando.

Chorando, chorando convulsivamente.

Eu custei a entender – ninguém entedia – que Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar. A dor de todos os brasileiros.

O Glauber chorava as crianças com fome.

O Glauber chorava esse país que não deu certo.

O Glauber chorava a brutalidade.

O Glauber chorava a estupidez.

A mediocridade.

A tortura.

Ele não suportava. Chorava, chorava, chorava.

Os filmes do Glauber são isso. É um lamento, é um grito, é um berro.

Essa é a herança que fica de Glauber.

Fica de Glauber pra nós a herança de sua indignação.

Ele foi o mais indignado de nós. Indignado com o mundo tal qual é.

Assim"

(Darcy Ribeiro)

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Veja o discurso histórico de Darcy Ribeiro clicando aqui.

domingo, 17 de abril de 2016

Dia D, de derrota

Na decisão do "Fla-Flu da Insanidade", sigo de fora desse jogo.

Não assisti a nada disso que estão comentando e lamentando desde cedo. Não preciso ver as imagens para saber dos risos canalhas e dos discursos hipócritas de um bando de larápios com imunidade parlamentar, tudo em horário nobre para um Brasil de audiência. O circo já estava armado há muito tempo, esperando apenas pelo grande picadeiro midiático. Recusei humildemente o papel de palhaço da vez e preferi não dar moral para esse tipo de espetáculo deprimente, que só expõe a indigência de ideias e de caráter da qual é feita a política brasileira.

Tenho certeza que não há inocentes nessa brochura triste da nossa história, mas sei também que não há vencedores numa situação de fragilidade institucional como a que vivemos atualmente - e amigo(a), se você se vê como um vitorioso hoje, eu lamento muito pela sua inocência juvenil. O simples fato de saber que a condução desse processo coube a um corrupto histórico, comprovado, réu em quase uma dezena de processos na mais alta corte do país, mas que ainda assim permanece sentado na cadeira onde está, só isso, ao meu ver, já põe uma pá de cal na credibilidade desse rito.

Estou profundamente entristecido por tudo o que está acontecendo e ainda vai acontecer - e falta muita água pra rolar -, mas se eu tiver que lidar com toda essa situação, que não seja batendo palma para malucos e safados dançarem dentro da minha sala.

O lance é seguir em frente com a dignidade em alta, mesmo mergulhados num lamaçal podre com pilantras de todas as cores e credos te dando ordens e te dizendo o que é certo ou errado (melhor isso que ser surdo).

Continuar lutando e fazendo a nossa parte contra tudo o que há de ruim por aí: é o que nos resta.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O Brasil da "roupa branca" nas ruas



Em meio às grandes manifestações realizavas por quase todo o país no último dia 13 de março, surgiu nas redes sociais um debate satélite - porém pertinente - sobre o simbolismo da velha e patriarcal "casa grande e senzala" aplicada aos dias de hoje, na qual a figura central era a triste figura da "babá uniformizada de branco".

Rapidamente derivou-se daí uma série de teses completamente fora de contexto, na qual a cor da pele do patrão e/ou do empregado pode determinar se essa ou aquela situação configura-se em "preconceito de classes". Tudo a base de imagens descontextualizadas, de parte a parte.

Quando a uma determinada simbologia - remetendo a sociedades escravocratas, como nesse exemplo - é manipulada e utilizada fora de esquadro, discursos enviesados e parciais, de quaisquer naturezas, são permitidos a todos aqueles carentes de bom senso e discernimento.

Não se trata de pagar, de garantir direitos ou de dar acesso (na prática até um certo limite). Isso é o mínimo do que se pode esperar numa relação trabalhista. O lance está no simbolismo real do que representa a figura de serviçais de famílias em pleno Brasil de século XXI. Esse é (seria) o ponto.

Mas quantos realmente se importam com isso nesse louco mundo binário e maniqueísta de redes virtuais antissociais?

Enfim, segue o jogo em mais um dia de Fla-Flu da Insanidade por essas bandas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O "querer" Flamengo


Em quase todas as oportunidades, seja numa disputa de título, numa decisão de classificação ou mesmo numa partida de meio de tabela, o clássico Flamengo x Vasco se define pela demonstração do QUERER. Conquista, avança e vence aquele que QUER mais – e sob esse aspecto cabem inúmeras qualificações: gana, disposição, luta, intensidade, vibração, (às vezes) técnica... O "querer mais do que o outro" se traduz no combustível que move um rival a superar o outro mesmo sem ter, na prática, o melhor time ou os melhores jogadores. No livro escrito por esses dois gigantes desde 1922, ganha quase sempre quem QUER mais, não simplesmente quem "pode" mais.

E o que isso tem a ver com o atual momento? Obviamente tudo. O que assistimos quarta-feira passada na primeira partida foi um Vasco caçando cada jogador do Flamengo como um grande dever ancestral, uma espécie de "imposição de honra". O jogo foi tecnicamente um ruim, pobre? Muito, mas a missão cruzmaltina foi cumprida. Não houve um pingo de dúvidas para qualquer um que esteve no Maracanã ou que viu pela televisão: o Vasco quis muito, muito mais aquela vitória do que o Flamengo. Já havia sido assim na fase decisiva do Campeonato Estadual. Nas duas ocasiões, quis e conseguiu.

O que ficou para o Flamengo após mais uma derrota no ano frente a seu arquirrival, como um fato incontornável, foi a total ausência da mítica ALMA RUBRO-NEGRA no primeiro confronto. Um time sem pulsação, frio (no pior dos sentidos), desconectado com a intensidade do adversário e com a importância da competição para o clube. Parecia que o Maracanã havia sido transportado do Rio de Janeiro para a Sibéria, onde descansam os restos mortais daquele famoso ex-deputado.

São inúmeras as vitórias épicas do Flamengo no Maracanã, tanto em decisões memoráveis quanto em jogos menores e já esquecidos pela maioria. Em todas elas o Flamengo foi, durante a maior parte do tempo, detentor absoluto desse "querer mais". A imagem daquele Mengão avassalador, que entope o Maracanã de gente e pressiona o adversário, surgiu antes de tudo da tão propalada RAÇA RUBRO-NEGRA – me refiro não à torcida organizada, mas àquilo que marca os esquadrões vermelho e preto. "QUEREMOS RAÇA! QUEREMOS RAÇA!", gritamos todos em algum momento das nossas vidas nas arquibancadas, cadeiras ou na geral. Não era um pedido, era uma exigência.

É nesse contexto que quarta-feira agora, mais do que qualquer outra coisa, o Flamengo terá que se vestir de raça da chuteira à camisa se quiser bater o seu oponente histórico e passar às quartas-de-final da Copa do Brasil. A raça do correr mais que eles, de dar o carrinho certeiro e salvador, de pressionar em cima, dos chutes de dentro e fora da área, dos gols necessários. Se os 11 rubro-negros que entrarem em campo incorporarem o ESPÍRITO DE FLAMENGO, aquele que nenhuma outra agremiação tem igual e que tanta inveja causa Brasil à fora, nós vamos avançar. Mas o time e a torcida têm que querer, e querer muito mais do que o lado de lá.

Fica o desafio.

SRN

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Carlinhos, o Violino (1937-2015)



Luís Carlos Nunes da Silva, o Carlinhos, por 516 vezes vestiu o Manto Sagrado. Destacou-se como um volante técnico e refinado, a ponto de ganhar o apelido de Violino. Como se fosse pouco, como se precisasse mais, tornou-se anos depois "somente" o maior técnico de futebol da história do Flamengo.

Em 313 jogos dirigindo o futebol rubro-negro, Carlinhos ganhou uma Copa Mercosul (1999), dois Campeonatos Brasileiros (1987/1992) e três Campeonatos Estaduais (1991/1999/2000). Um multicampeão, ainda que estivesse sempre sob o crédito de "solução caseira" – o que era uma verdade inconteste.

Ele era de casa, era da Gávea, fosse como funcionário ou torcedor. Vivia o Flamengo no seu dia a dia, como um hábito, no amor e com prazer, sem maiores pretensões de fundo. Assim, com esse verniz da humildade sincera, se fez uma verdadeira lenda na longa história de conquistas do clube. Um mito.

Monstro de voz mansa, muita classe e aparência sempre tranquila, o Violino partiu nesta segunda-feira, aos 77 anos. Sem nenhum exagero: poucas pessoas no mundo foram mais rubro-negras do que ele. Fica o nosso muito obrigado, mestre. O Flamengo e os flamenguistas seremos eternamente gratos a você.

terça-feira, 26 de maio de 2015

O ocaso de Luxemburgo

"Pofexô" Vanderlei Luxemburgo mostrou-se em muitos momentos da lamentável entrevista coletiva concedida há pouco um poço de amargura, covardia e pequenez.

Se oferecendo miseravelmente ao São Paulo, tal qual uma messalina ávida por qualquer trocado, foi incapaz de reconhecer os problemas técnicos gritantes do time devidos exclusivamente ao seu fraco trabalho.

Tentou a todo o momento arrastar Rodrigo Caetano junto na sua queda, que segundo ele foi motivada - ora veja - pela sua "forte personalidade".

Preferiu se apoiar apenas na falta de reforços e em desfalques pontuais de ordem médica para justificar o péssimo futebol apresentado pela equipe desde o final do ano passado.

Mais à frente, tirou da cartola uma louca roleta russa e pôs a culpa de todos os seus fracassos nas quatro passagens pelo clube em Kléber Leite, Romário, Márcio Braga, Ronaldinho, Patrícia Amorim, Bandeira de Mello...

"Eu não tenho culpa, nunca tive".

Fez questão de se apresentar como "eleitor e homem de Patrícia Amorim" dentro da atual gestão, a qual ele se opõe em diversos pontos.

Cereja do bolo, qualificou a angustiante fuga do rebaixamento de 2014 como um dos grandes momentos da sua carreira, talvez o seu grande título.

Ao final, ficou claro que, como profissional de futebol, Vanderlei Luxemburgo morreu e não sabe.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Agnaldo Borges, o Borjão (1946-2015)

Perdi meu amado pai Agnaldo Borges em 21 de janeiro de 2015 – o pior de todos os dias da minha vida. Ele tinha 68 anos de idade. Sempre imaginei o pavor que seria passar por uma tragédia dessa magnitude. A dor de viver o momento e o vazio posterior são piores que tudo.

O breve, verdadeiro e emocionante relato biográfico logo abaixo foi escrito pelas mãos de meu tio Paulo Batista Machado, que conviveu com meu pai desde quando pároco em Maricá (RJ), nos anos 1970, até chegar a prefeito de Senhor do Bonfim (BA), na década atual.

As palavras de meu tio dizem muito da jornada riquíssima e única que meu pai teve em vida, ainda que os anos de viagens e passagens antológicas caibam apenas numa extensa biografia. São as inesquecíveis histórias que ouço desde menino em tardes de festas, encontros e conversas.

Histórias que, para mim, jamais terão fim.




AGNALDO BORGES, UM PIONEIRO DA CULTURA E DA MÚSICA NO NORDESTE BRASILEIRO
por Paulo Batista Machado

Agnaldo Borges, ou Borjão, como era chamado carinhosamente entre os artistas e por seus amigos, foi um pioneiro da cultura e da música por esses rincões do nordeste. Falecido no Rio de Janeiro, no último dia 22 de janeiro, deixa saudades e leva consigo esta marca de pioneirismo. Filho de Brejão da Grota, Campo Formoso, sendo os seus pais Januário Amaro de Souza e Maria Ana Borges de Souza, nasceu aos 12 de junho de 1946 de uma família numerosa que migraria para o eixo Rio-São Paulo. Foram ou são seus irmãos Leticia (Leta), AnaMaria, Analita, Eliene, Irenildes, Alípio e Janualdo (vivos) e Manoelito, Reginaldo, Renato e Anailde (falecidos). Contraiu núpcias com Maria José Machado aos 15 de março de 1975 na Igreja dos Padres Capuchinhos, em Feira de Santana, Bahia. Dessa união nasceriam seus dois únicos filhos, Oldon Machado e Polyanna Machado.

Desde adolescente, sentiu pendor para a arte, especialmente para a música, o que o levaria a unir o agradável ao útil, tornando-se empresário de cantores ou artistas ao longo de duas décadas. Agendava shows na Bahia e em estados vizinhos, matando assim a sede e a curiosidade de centenas de pessoas que conheciam os artistas apenas pelo rádio ou pelos serviços de alto-falantes instalados em postes, e ouvidos à calçada, cada noite.

Os shows eram oferecidos em clubes, circos, auditórios e praças públicas, tendo como atrações principais artistas então em evidência como Perla, Jerry Adriane, Wanderley Cardoso, Fernando Mendes, Odair José, Diana, José Augusto, The Fevers, Renato e Seus Blue Caps, Paulo Sérgio, Waldirene, Eduardo Araujo, Silvinha, Jair Rodrigues, Tony Tornado, Cauby Peixoto, Angela Maria, Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Rosemary, Claudia Barroso, Roberto Carlos e Raul Seixas entre outros.

Em uma época de poucas mídias, Agnaldo Borges contratava os artistas, viajava às cidades para agendar os shows e nas datas aprazadas percorria cidades e regiões, em apresentações de muito público, todos interessados em ver de perto os seus ídolos. Temporadas de maior sucesso, temporadas de menor sucesso, e o desafio de lidar com “artistas-estrela”, cada um com suas manias e contradições, este era o seu dia-a-dia que lhe custara problemas e manchetes de jornais e rádio, que ele costumava recordar entre risadas.

Agnaldo Borges lembrava sempre o atrito com Paulo Sérgio, em Juazeiro, que não cumprira cláusulas importantes do contrato, fato difícil a resolver porque o delegado era fã do cantor e não deixava nem Agnaldo explicar o ocorrido e defender os seus direitos; mais marcante foi a atitude de Raul Seixas, que vendera dez shows com pagamento antecipado, no auge de sua carreira, e “fora de si” abandonou o palco no primeiro show programado, em Alagoinhas, escondendo-se em um sitio no recôncavo, provocando prejuízos de grande monta aos clubes que agendaram os referidos shows. Fala também da vinda à Serra da Carnaíba, para apresentar-se na Casa de Shows de Fachinetti, das três primeiras colocadas em um concurso de Misse Brasil, o que chamou a atenção de toda a região.

Com o advento da televisão, e da banalização da imagem dos “ídolos” ou “deuses”, Agnaldo Borges, nosso Borjão, resolveu parar: já não existiam o imaginário, o mistério, que alimentam a curiosidade e o exótico indispensáveis a iniciativas como as que alimentou e operacionalizou durante anos.

Agnaldo Borges foi sem dúvida elo importante no processo de integração do nordeste ao mundo do rádio, da cultura e da música. A nossa história será incompleta se não for contada e recontada a saga de pioneiros em um Brasil que foi engolido pelas emergências da contemporaneidade. E nesse processo de contar, ele será sempre um valente pioneiro. Salve, grande Agnaldo Borges!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

30 anos de axé music: 30 sucessos nacionais

O carnaval de 2015 marca as comemorações dos 30 anos do primeiro sucesso, em nível nacional, da chamada "axé music" – ou, de forma mais didática, 30 anos do surgimento para o Brasil da safra de novos artistas criados nos blocos de trio em Salvador ao longo da primeira metade dos anos 1980. Genericamente, a boa e velha MÚSICA BAIANA de tantos sucessos, carnavais e micaretas.

A explosão nacional da fusão sonora de frevo, galope, pop-rock e influências caribenhas, tendo como base rítmica o samba-reggae dos blocos afro da capital baiana (forjados especialmente no Olodum e no Ilê Aiyê), se deu com "FRICOTE", de Luiz Caldas. A música é o carro-chefe do álbum Magia, de 1985, que promove o ex-vocalista da banda Acordes Verdes em carreira solo. E que estreia.

A chegada da produção musical carnavalesca de Salvador às rádios e TVs do Brasil gerou todo um MOVIMENTO na vida cultural da cidade, que via crescer um novo e promissor nicho de mercado. Na esteira de Caldas veio uma leva de artistas que se juntariam a outros tantos cada vez que surgia um novo fenômeno baiano – como Daniela Mercury, que explodiu como estrela nacional em 1992.

Se o momento atual reflete um cenário de escassez criativa e de entressafra nas revelações, historicamente a axé music contabiliza, em seus 30 anos "oficiais", centenas de sucessos, dezenas de milhões de cópias vendidas e um grande número de astros e estrelas com inegável talento para o showbiz. Abaixo, as 30 canções mais importantes e de maior sucesso nas três décadas de AXÉ.


TIRA O PÉ DO CHÃO!


Fricote - Luiz Caldas (1985)





• É D'Oxum - Geronimo (1985)



• Gritos de Guerra - Chiclete com Banana (1987)




• A Roda - Sarajane (1987)




• Faraó Divindade do Egito - Djalma Oliveira & Margareth Menezes (1987)




• Madagascar Olodum - Banda Reflexus (1987)




• Protesto do Olodum - Banda Mel (1988)




• Beijo na Boca - Banda Beijo (1989)




• Swing da Cor - Daniela Mercury (1991)




• Canto ao Pescador - Banda Cheiro de Amor (1991)




• Com Amor - Asa de Águia (1991)




• O Canto da Cidade - Daniela Mercury (1992)




• Prefixo de Verão - Banda Mel (1992)




• Baianidade Nagô - Banda Mel (1992)




• Cara Caramba Sou Camaleão - Chiclete com Banana (1992)




• É o Bicho - Ricardo Chaves (1993)


 


• Nossa Gente (Avisa Lá) - Olodum (1993)




• Doce Obsessão - Banda Cheiro de Amor (1993)




• Beija-Flor - Timbalada (1994)




• Araketu Bom Demais - Ara Ketu (1994)




• Milla - Netinho (1996)




• Beleza Rara - Banda Eva (1997)




• Arerê - Banda Eva (1997)




• Rapunzel - Daniela Mercury (1998)




• Bate Lata - Banda Beijo (2000)




• Festa - Ivete Sangalo (2002)




• Sorte Grande - Ivete Sangalo (2003)




• Coração - Rapazolla (2005)




• Praieiro - Jammil e Uma Noites (2005)




• Quebra Aê - Asa de Águia (2007)


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Roberto Bolaños (1929-2014)


Morreu hoje o meu amiguinho Chaves do 8.

Morreu hoje o meu heroi atrapalhado Chapolin Colorado.

Morreu hoje um personagem para sempre na minha vida, e na de muitos outros.

Morreu hoje o genial Roberto Gomez Bolaños, pai e artesão de tipos verdadeiramente imortais.

Meu eterno agradecimento, mestre, pela arte do riso puro, genuíno e universal. Agora todos nós aqui na vila ficamos órfãos também.

Descanse em paz.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dilma Rousseff por mais quatro anos, no limite


Dilma Rousseff reelegeu-se no limite.

No limite de votos, com uma frente de apenas 3,5 milhões de sufrágios em um universo total de pouco mais de 105 milhões contabilizados como válidos no pleito deste 26 de outubro de 2014.

No limite da contagem, na medida em que ela virou a disputa voto a voto sobre Aécio Neves apenas às 19h32, após duas horas e meia de tensão no ar, que ainda se estenderia por mais meia hora, e já com 88,9% apurados em todo o país.

No limite da margem de erro, baseando-se na pesquisa de véspera feita pelo Datafolha e que apontou uma vantagem curta a seu favor, de 52% x 48% (a votação cravou exatos 51,64% x 48,36%).

No limite do apoio que ela poderia obter – e que de fato obteve – dos eleitores das regiões Norte e Nordeste, palcos de verdadeiras lavadas em cima do candidato do PSDB nos estados dessas regiões.

Mas, acima de tudo, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher a ser reeleita presidente do Brasil ao valer-se, no limite, de um discurso que na prática expirou nestas eleições de 2014: o do plebiscito PT x PSDB.

Por que em 2018, quando o PT completará quatro governos e 16 anos consecutivos no poder, o discurso de campanha calcado na comparação entre os mandatos petistas e os oito anos de Fernando Henrique Cardoso não terá qualquer efeito sobre boa parte da população.

O que aconteceu na segunda metade da década de 1990 e no início dos anos 2000 serviu de amparo para o PT trabalhar, com extrema competência, as disputas eleitorais desde 2002, quando chegou pela primeira vez ao poder com a vitória de Lula.

De lá para cá, a polarização entre tucanos e petistas favoreceu sempre a estes últimos em todos os confrontos em nível federal nos quais estiveram. Fruto tanto da junção dos inegáveis avanços sociais e econômicos das suas administrações como também do apuro no marketing político, que tem na figura de João Santana uma espécie de Midas desta seara.

Acontece que, muito provavelmente, esse modelo teve o seu esgotamento nas eleições encerradas ontem, em decorrência de um distanciamento natural que tornará o embate ainda mais obsoleto nos próximos anos.

É inimaginável projetar novamente um quinto choque desses dois partidos, daqui a quatro anos, tendo como pano de fundo o Brasil de 20 anos antes. É tempo demais até para quem viveu – e sofreu – com os problemas daquela realidade distante, em especial os enfrentados no segundo mandato de FHC.

Para a turma mais jovem será ainda pior. Soará complemente anacrônico para a garotada de 20 e poucos anos assistir a debates circunscritos à tese do "no tempo em que os tucanos eram governo...". O efeito prático pode ser semelhante ao de uma aula de história no ensino médio. Sinal dos tempos e do próprio êxito do PT em se manter no poder.

Caberá ao governo reeleito, além de administrar os inúmeros desafios que se apresentam no segundo mandato, traçar novas referências políticas daqui para frente, ainda mais tendo a oposição se fortalecido com a expressiva votação de Aécio Neves e com a ampliação da presença no Congresso Nacional.

Quatro anos é muito tempo na política, para o bem e para o mal. Mas, mesmo sem usar de futurologia, dá para cravar que pela primeira vez em muitos anos o Brasil assistirá em 2018 uma nova plataforma de campanha por parte do governo, diferente de tudo o que se utilizou como estratégia desde que subiu a rampa do Planalto.

Não se sabe o discurso e o modelo que serão utilizados pelo PT ao se apresentar para pleitear mais quatro anos no governo, independentemente do postulante ao cargo. É certo, contudo, que o grande desafio de Dilma Rousseff passa por destravar os nós ao quais o seu primeiro governo esteve preso, criando condições reais para fazer seu o sucessor – ou sucessora.

Sorte a ela e ao Brasil.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Hermes e Renato e o gênio Fausto Fanti


A geração laudatória dos stand ups feitos pela coxice conservadora para a classe-média-sapatênis talvez jamais entenda o ponto ótimo da genialidade mambembe num humor como o de Hermes e Renato.

A linha tosca do escracho canalha é a mesma dos primeiros anos de Os Trapalhões – coisa que muitos tentaram, mas pouquíssimos conseguiram captar. HeR emulou esse espírito para fazer algo novo para a época (final dos '90 e boa parte dos '00), com maior grau de anarquia e liberdade.

Despretensiosamente, fizeram história no humor brasileiro, de verdade, influenciando inclusive muitos dos que surfam por aí sem apresentar a metade do talento dos caras.

A patrulha politicamente correta e hipócrita do Facebook talvez não consiga sacar a dose cavalar de ironia e deboche contida nas paródias hiperbólicas e nos personagens mal acabados de HeR.

Um dos muitos registros geniais da trupe no YouTube (veja aqui) mostra o sarcasmo com as estrelas da stand up comedy – cuja maioria pensa o humor e o mundo de forma tão ou mais quadrada que qualquer velha-guarda da Praça É Nossa. Para HeR era um prato cheio ver péla-sacos dando sopa para piadas.

Mas fica a dúvida: quem vai se lembrar do monstro criativo que foi Fausto Fanti, falecido neste infeliz 30 de julho de 2014, daqui a 10 ou a 15 anos? "Foda-se, o Renato era foda!", diria Hermes, trabalhando o seu vocabulário refinado. E era foda mesmo.

Neste mundo blasé e cheio de falsas verdades, esse maluco aí fazer uma falta absurda.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O fim de Tóis

O fim de Tóis
por Joaquim Ferreira dos Santos*

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue dos antepassados

É pau, é pedra, é o fim do caminho da Civilização Tóis, aquela que os guerreiros do condado de Comary inventaram para dominar o planeta futebol e para todo o sempre ser invencível. Ela exigia de seus súditos o cumprimento em que a mão direita fazia o poste enquanto o antebraço esquerdo servia de travessão, formando o T da palavra mágica. “Pelos poderes de Tóis”, gritavam no meio das rodinhas antes das batalhas — e se julgavam mais motivados.

Ninguém sabia onde queria chegar aquela confraria de homens adolescentes, sempre caminhando em fila indiana, as mãos nas costas do guerreiro que seguia na frente. O mundo adulto ria, mas eles vinham de uma civilização na floresta onde o importante era ser fofo. Foi assim que se conheceram no pátio escolar, meninos com alegria nas pernas, e assim caminhariam, uma chuteira de cada cor, a barra da cueca à mostra. Diziam-se uma família.

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue vitorioso de seus antepassados e com poderes suficientes para viver isolados na nova civilização de orgulho que fundaram. João Gilberto sussurrou e criou a bossa nova. D. Pedro inventou um país com o “Independência ou morte”. Agora, os canarinhos tropicais fundaram Tóis, abaixo da fortaleza do Dedo de Deus. A rocha energizava seus pés, eles acreditavam, ajoelhados contritos no meio do campo.

Durante um mês, estes 23 soldados furaram o nevoeiro da serra onde se aquartelavam e, como se fossem entidades divinas surgindo em meio às brumas de Avalon, desciam à várzea para enfrentar os fariseus que ousavam desafiá-los, eles, os autoproclamados reis eternos do futebol mundial. Sentiam-se semideuses, falavam da magia do bigode grosso e da união do grupo. Eram os valores do mundo Tóis. Zero de conversa sobre futebol, pois já de tudo sabiam.

Os guerreiros de Tóis eram os mais tatuados das guerras, todos rabiscados com a miríade de possibilidades inventadas para se imprimir qualquer maluquice na pele de um ser humano. Julgavam que isso seria tática terrível para assustar outras tribos. Pintavam-se de caveiras, dragões, morcegos e hieróglifos. Um desses guerreiros, além da cabeleira em volutas como a Hidra de Lerna, escreveu no braço “Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono” — e supunha agora carregar ali a arma mortal de um para-choque de FNM. Morreria mais adiante, atropelado por um jogador alemão.

Antes das pugnas, os meninos de Tóis faziam questão de cantar inteiro o hino de seu condado, num impressionante festival de cenhos franzidos, gargantas arreganhadas e outros exageros da espécie. Seus antepassados, vencedores em cinco torneios, nunca souberam uma frase do tal hino, complicadíssimo. A encenação do canto a capela não tinha nada a ver com o jogo, não marcava gols e deixava os guerreiros emocionalmente exauridos. De onde estavam, no entanto, podiam ouvir o locutor dizer: “Estamos todos arrepiados”. Achavam por isso que estavam com a mão na taça.

Os guerreiros de Tóis chegaram a levar para o campo de batalha a túnica de um soldado ausente, ferido num combate anterior, numa tentativa mediúnica de incorporar as forças dele aos sobreviventes. Achavam possível utilizar a túnica de pano como arma de guerra. Vertiam lágrimas sob qualquer pretexto. Chorava mãe, chorava pai, chorava todo mundo. O mais velho conversava com uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.

Definitivamente, o ar rarefeito da montanha onde viviam isolados começava a lhes fazer mal. Gol, só de canela. A qualquer contato com o próximo, caíam ao chão, contorcendo-se em dores invisíveis ao mais detalhista dos raios x.

As ordens com que administravam os combates vinham de um velho pajé, gordo de tanto anunciar lasanha na TV. Sua tática era sempre a mesma: “Atacar com motivação, defender com autoajuda”. Ele agora tinha como truque principal a capacidade de se transformar em sósias e espalhar a confusão. Ninguém sabia afirmar com certeza quem era quem, mas diante de algum comentário mais lúcido costumava-se creditar as palavras ao sósia. Na Civilização Tóis todo mundo achou a multiplicação do técnico como uma versão moderna da multiplicação dos pães, o sinal metafísico de que a guerra, ao findar do sétimo passo, estaria ganha.

Os guerreiros de Tóis se achavam acima do bem, do mal e também por cima da carne-seca, o alimento da infância que agora havia sido trocado pelas marmitas mandadas trazer da Espanha, do novo restaurante do chef Ferran Adrià. Alguns pintavam o cabelo todo dia, mas nunca acertavam o corte. A guerra do futebol passou a ser apenas um detalhe, algo transmitido no telão onde avaliavam como lhes ia a beleza.

Não treinavam. Tinham a força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam. Tóis era a reunião de todos os poderes mais aqueles que os marmanjos adolescentes tinham visto nos videogames da caserna na serra — e, dedicados a se curtirem e se compartilharem nas redes sociais, nem perceberam o bicho vindo pelo meio de campo desocupado. Foram sete dentadas na vaidade, na preguiça, na ignorância e nos pescoços onde estava tatuado “Tudo passa”.

Nada passa, tudo fica — e fez-se o apagão eterno em Comary.

Nunca mais Tóis.

*Publicado em O Globo no dia 14/07/2014 (extraído de http://oglobo.globo.com/cultura/o-fim-de-tois-13247090)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A mãe de todas as tragédias para o futebol brasileiro


A ficha ainda não caiu totalmente. Como diz o clichê: será um processo longo e doloroso. Mas esse dia seguinte está sendo bem duro. Nessas horas em que o cenário de terra arrasada em ruas, esquinas e praças de norte a sul do país nos transforma quase em zumbis de "Walking Dead" por algum tempo – dias, meses? –, o sentimento coletivo dominante pode ser resumido em algo como MAS O QUE DIABOS FOI AQUELA DESGRAÇA, GENTE?

Não dá pra responder essa pergunta hoje, nem amanhã, talvez nem nos próximos sessenta anos. Não há software capaz de absorver o impacto de um asteroide como o que colidiu ontem no estádio do Mineirão e projetar no longo prazo seus efeitos sobre uma sociedade complexa e intrincada como a brasileira, cuja imagem para o mundo é calcada muito em cima dos êxitos dentro de campo. Não há vidente com tamanha capacidade de antevisão capaz de dizer, hoje, o que será do futebol brasileiro e do país do futebol (sic) depois de ontem, a partir de hoje.

Foi 7 a 1, amigo. SETE a um. Em casa. Numa Copa do Mundo. Numa semifinal de Copa do Mundo. Foram quatro gols em seis minutos. Acredito que nem os reservas do Goytacaz disputando a Série B do Campeonato Carioca se apresentariam com tamanha letargia a ponto de tomar quatro gols em seis minutos. Nunca vi, em cerca de 30 anos acompanhando apaixonadamente futebol, uma derrota como a de ontem. Acho que ninguém nunca viu nada como ontem em se tratando do maior esporte do mundo. Foi um tsunami de estragos cataclísmicos.

Os jornais, cujas capas deste amargurado day after já se apresentam como históricas, utilizam de todo o cartel possível de termos para desenhar o tamanho da porrada sideral: vergonha, vexame, humilhação, trauma, indignação, dor, revolta, frustração, irritação, pena, desilusão, fracasso, fiasco, pesadelo... O Houaiss pode ajudar a quem quiser com mais e mais sinônimos. E todos eles, juntos, parecem insuficientes para dimensionar a maior derrota da história do futebol brasileiro – talvez mundial, pelo menos em termos de magnitude global.

Questões táticas são fundamentais em qualquer abordagem sobre este Brasil 1 x 7 Alemanha, embora não encerrem o assunto. Vimos um bando alheio contra um time excelente em uma não partida. Jogadores fora de posição, perdidos enquanto conjunto, totalmente desarticulados, fisicamente frágeis e tecnicamente incapazes. Sim, foi tudo isso ao mesmo tempo, mas foi muito mais do que apenas isso. Porque uma derrota de sete a um entre dois gigantes numa decisão em Copa do Mundo traz em si o imponderável, aquilo que não podemos mensurar em números nem visualizar em esquemas de jogo.

Dito isso, a César o que é de César: o técnico Luiz Felipe Scolari ficará marcado como o mentor de um dos piores times que já envergaram a camisa amarela da Seleção Brasileira de Futebol. Não obstante sua insistência na convocação e escalação de jogadores que há muito não produzem em seus clubes, Felipão mostrou-se incapaz de armar uma equipe minimamente competitiva frente a adversários medianos no cenário internacional – caso de Chile, Croácia e México. Não vimos sequer um esboço do que poderia e deveria ser um Brasil disputando uma Copa em casa. Dependentes todo o tempo do gênio novato Neymar e da dupla de zaga David Luiz-Thiago Silva, nos revelamos limitados para uma competição de alto nível.

Noutra via, ficou claro a desatualização do futebol pentacampeão mundial se comparado ao de dezenas de outros centros – e não há vitrine mais apropriada para exibição do que se joga hoje no mundo que uma Copa. A impressão que todos os brasileiros tiveram ontem ao final do massacre é que, para além de um time melhor, com jogadores melhores, a Alemanha pratica algo anos-luz à frente do que o Brasil pode apresentar. E dá calafrios pensar que o modelo de jogo é a ponta de um imenso iceberg que envolve a busca por talentos, a criação de condições para o desenvolvimento dos atletas, um mercado pujante e clubes fortes, tudo estruturado numa política objetiva da confederação nacional. Estamos alijados desse mundo.

Foram muitos os que imaginavam a possibilidade da repetição do Maracanazo de 64 anos atrás como o mais terrível dos cenários em caso de uma nova decisão. Na prática, o Brasil – ironia dura de se engolir – sequer pisou no gramado do mais famoso estádio brasileiro durante a sua segunda Copa em casa, mas mesmo assim chegou ao ápice em termos de desfecho trágico. Porque nem no mais pessimista dos cenários, nem nas projeções mais sombrias, houve espaço para a possibilidade de uma eliminação por 7 x 1, independentemente do adversário e das dificuldades. A realidade se revelou mais surrealista e amarga que qualquer praga de black bloc.

Todos os erros do time, todos os vícios da comissão técnica, todas as falhas estruturais do futebol brasileiro, todo o check list de problemas que culminaram na tragédia do Mineirão serão alvo do escrutínio público de analistas esportivos, sociólogos, historiadores e comentaristas de redes sociais por muitas décadas. Haverá tempo de sobra, entre uma volta por cima e outra, para tratar a fundo do nosso 11 de setembro moral. Fato é que a Seleção Brasileira de Futebol, o time da camisa das cinco estrelas, sai menor do que entrou nesta excepcional "Copa das Copas" – que para nós será sempre a "Copa dos 7 a 1".

Na impossibilidade de voltar pra casa, fica a necessidade de reconstruir o nosso quintal a partir dos escombros que sobraram do fatídico 8 de julho de 2014. Não será um trabalho fácil, tampouco rápido. Mas se trata de um arregaçar de mangas inescapável. É preciso, de hoje em diante e em todos os sentidos, recriar o futebol brasileiro.