sábado, 19 de novembro de 2011

Porque inserir a discussão sobre Belo Monte no contexto energético brasileiro


O texto anterior, feito a reboque da divulgação do vídeo em que estrelas globais se pautaram em argumentos falsos e ardilosos para detonar a usina hidrelétrica de Belo Monte, me deixou surpreso e feliz. Surpreso por ter proporcionado uma boa discussão em torno do assunto nas redes sociais. Feliz por conseguir chamar a atenção de pessoas até então alheias a um tema de tamanha importância. Trabalho como jornalista especializado no setor de energia há 11 anos, tempo suficiente que me permite dar um breve pitaco sobre alguns fatos que cercam esse assunto.

1 - O Brasil é dono da matriz energética mais limpa DE TODO O PLANETA, 46% dela composta por fontes energéticas de origem renovável. A participação média das renováveis nos países-membros da OCDE (a grande maioria desenvolvidos) é de 13%, caindo para apenas 6% em nível mundial. Embora pouco lembrada, essa é uma vantagem competitiva da qual temos muito que nos orgulhar;

2 - Talvez a grande contribuição para que tenhamos essa larga margem de fontes renováveis na nossa matriz venha da fonte hidráulica – em outras palavras, da geração hidrelétrica. O vídeo global, entre tantos absurdos, traz a desinformação para uma população leiga no assunto de que a hidreletricidade não é uma fonte limpa. Como? NADA MAIS MENTIROSO! A energia hidrelétrica é sim limpa (apresenta baixíssima quantidade de emissões de gases causadores do efeito estufa), barata (na verdade, é a forma mais barata de gerar eletricidade que existe no país) e conta largo domínio tecnológico por parte da indústria nacional;

3 - Além de todas essas vantagens, a hidreletricidade apresenta um amplo espaço a ser explorado no país. O potencial hidrelétrico total do Brasil é de cerca de 260.000 MW, sendo que apenas 1/3 desse montante foi efetivamente utilizado. Grande parte (quase a totalidade) dos 2/3 restantes se encontra na Região Norte do país. E aqui vale dizer: ISTO NÃO SIGNIFICA QUE O BRASIL VÁ EXPLORAR TODO O SEU PORTENCIAL HIDRELÉTRICO! Em virtude de premissas pautadas no respeito à preservação ao meio ambiente, apenas uma fatia desses 2/3 restantes será utilizada pelo Brasil, mesmo que isso represente, na prática, o abandono de uma fonte energética tão competitiva;

4 - O BRASIL É UMA POTÊNCIA ENERGÉTICA MUNDIAL. Além da hidreletricidade, nosso país conta com um vasto campo para exploração de fontes limpas e/ou renováveis. Eólica, etanol, biomassa da cana-de-açúcar, solar, biodiesel... A grande vedete do momento, na área elétrica, é a energia eólica. Estima-se atualmente que o potencial nacional de geração de eletricidade através dos ventos ultrapasse os 300.000 MW, tomando como base torres de 100 metros de altura. Para se ter uma ideia, hoje a totalidade do parque instalado no setor elétrico brasileiro (considerando TODAS as fontes) é de 115.000 MW;

5 - E o que o Brasil está fazendo na área eólica? Até 2005, tínhamos apenas 25 MW instalados em usinas deste tipo. A partir da criação de um programa de contratação baseado em leilões públicos, organizados pelo governo, o país tem apresentado uma forte expansão da geração dos ventos, acima de todas as expectativas e projeções. Deveremos chegar em 2014 com cerca de 7.500 MW eólicos instalados no país. No próximo dia 20 de dezembro será realizado um novo leilão (o terceiro em 2011) para contratar energia, incluindo eólica. Outro leilão já está marcado para março de 2012;

6 - Acontece que apesar de limpa, ambientalmente amigável e com um vasto potencial a ser explorado, há uma característica técnica que faz da geração eólica apenas uma complementação para o sistema elétrico brasileiro: a ocorrência plena de ventos nos parques eólicos é de aproximadamente 30% ao longo ao ano, impedindo que ela seja considerada uma energia de base. Você toparia ter energia durante apenas 30% do ano na sua casa? É por isso que a existe a necessidade de o país adotar um "mix energético" composto por fontes complementares (caso da eólica e da solar, que será explorado em pouco tempo) e de base (como é o caso das hidrelétricas e da nuclear, esta também uma fonte sem emissão de gases poluentes);

7 - A questão do preço é outro fator que não pode ser deixado de lado. Para se ter noção, a energia eólica foi negociada no leilão público deste ano a um custo médio pouco abaixo de R$ 100 o MWh – valor muito inferior ao que ela custava pouco tempo antes. A usina hidrelétrica de Teles Pires, no Mato Grosso, leiloada pelo governo no final do ano passado, foi vendida a um custo de R$ 58 o MWh. Ou seja, quase metade do preço médio da eólica. Isso talvez dê a dimensão do grau de COMPETITIVIDADE ECONÔMICA QUE A ENERGIA HIDRELÉTRICA POSSUI se comparada a outros tipos;

8 - E Belo Monte, onde entra nisso tudo? Bem, a hidrelétrica de Belo Monte se insere diretamente no conjunto de vantagens que o nosso país possui no setor energético. Agregar 4.500 MW médios a partir de uma geração limpa, a custo barato e socioambientalmente sustentável é algo que poucos países do mundo podem dispor. A usina de Belo Monte, além de não alagar quaisquer terras indígenas no seu entorno, terá um reservatório com área muito inferior ao que era previsto no projeto original: 516 km², contra os 1.225 km² previstos inicialmente. BELO MONTE SERÁ AINDA A ÚNICA USINA A SER VIABILIZADA NA BACIA DO RIO XINGU;

9 - Um conjunto completo de informações sobre o projeto de Belo Monte, em dois textos de fácil compreensão e com linguagem acessível a todos, pode ser encontrado no site da Empresa de Pesquisa Energética – EPE, através do link http://bit.ly/v5iEPh;

10 - A discussão em torno de Belo Monte deveria, a meu ver, englobar não apenas o projeto em si, mas os rumos que o país precisa trilhar para garantir às futuras gerações o amplo acesso ao desenvolvimento econômico, social e ambiental que se vislumbra. O setor energético e a geração de energia elétrica são pilares básicos para essas conquistas, desde que utilizando de forma responsável todos os RECURSOS NATURAIS dos quais dispomos. O manancial energético do Brasil tem na hidreletricidade um ativo de inegável valor, e em Belo Monte, particularmente, um projeto emblemático, sustentável e estratégico.

7 comentários:

Manoela Lemos disse...

Parabéns pela iniciativa em esclarecer alguns pontos, é importante que especialistas na área se pronunciem para evitar essa onda de desinformações dos globotomizados.

Anônimo disse...

Procurando entender melhor a questao: eh fato que ela so sera operante por 4 meses ao ano?

Anônimo disse...

E se sim, ainda assim eh justificado o investimento?

Tiago Passos disse...

Mais um texto vazio. Li o primeiro texto (Belo Monte: quando o conteúdo vale menos que a panfletagem) e não encontrei nada que embasasse seu argumento principal: de que as informações dadas no vídeo "A Gota D'Água" eram mentirosas.

Quais informações eram mentirosas? E porque?

No vídeo, um dos pontos mais destacados é o fato de que a usina geraria energia apenas durante 4 meses por ano, e que para uma obra desse porte, isso é muito pouco. Outro ponto importante do vídeo é que Belo Monte já causaria MUITO impacto, mas seria apenas uma das primeiras no planejamento do governo.

Oldon Machado disse...

Prezados,
Conforme eu indico no texto, com link, a EPE produziu dois pequenos documentos que trazem todas as questões (dúvidas e mitos) a cerca da usina de Belo Monte.
No item 7 das "Perguntas Frequentes" está dito que a usinas operará com potência máxima de 11.000 MW durante a cheia, caindo para uma geração inferior a essa no período de baixa. Isso resultará numa média anual de 4.500 MW.
Portanto, NÃO é verdade que ela funcionará apenas quatro meses do ano. Trata-se de mais uma inverdade do vídeo.
Mais uma vez, sugiro que todos LEIAM E SE INFORMEM antes de formarem uma opinião sobre algo tão importante. Posso garantir que há gente mais capacitada que a Juliana Paes para falar sobre o assunto.
Abraços.

Manoela Lemos disse...

A galera é tão ruim em interpretação que consegue tirar uma série de conclusões definitivas em um vídeo vazio, mas não consegue tirar de dois textos lúcidos, repletos de informações embasadas em coisas concretas!

Anônimo disse...

E quem garante a veracidade de quaisquer informações? Pq sinceramente tenho o pé atrás com relação aos links da EPE e há alguns lugares refutando essas informações. Eis alguns:

http://www.socioambiental.org/esp/bm/inv.asp

http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/campanhas/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney/?searchterm=Belo%20Monte

Veja aih e me diga.