sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Axé da Bahia, do Brasil para o mundo

São muitos os méritos de "Axé - Canto do Povo de um Lugar", documentário que estreou ontem nos cinemas narrando a história de linhas tortas, mas de estrondoso sucesso, da música carnavalesca feita em Salvador para o Brasil e o mundo. O filme abrange todas as pontas do movimento musical que nasceu mambembe e cresceu estruturado como indústria, fomentando músicos e compositores, gerando milhões em receita e consagrando dezenas de artistas como astros e estrelas do showbiz nacional.

Como documento histórico, o longa-metragem de Chico Kertész tenta decifrar a origem do som dançante que dominou as paradas de sucesso de rádios e TVs brasileiras por mais de duas décadas, e acaba mostrando que tudo cabia naquele liquidificador sonoro: o frevo dos trios elétricos dos anos 1970, a guitarra baiana de Armandinho, as influências latinas de Gerônimo, a batida do samba-reggae criada por Neguinho do Samba para o Olodum. Tudo podia ser "axé music" naquele cenário de efervescência e inventividade que dominava a cena cultural soteropolitana, alimentada pelos investimentos em novas bandas feitos pelos blocos de carnaval e pelo estúdio WR.

Luiz Caldas, como o primeiro astro nacional do movimento, trouxe consigo uma primeira leva de artistas para um Brasil que aprendia a dançar com trejeitos e sotaques. Vieram Reflexus, Banda Mel, Chiclete com Banana, Sarajane, Cheiro de Amor, Banda Beijo... Em Daniela Mercury, a primeira estrela internacional. Um furacão que pôs a Bahia, a partir do início daqueles anos 1990, como o principal polo produtor das maiores e mais impressionantes vendagens da indústria fonográfica brasileira por anos seguidos – Banda Eva, Netinho, É o Tchan! e Terra Samba tiveram um punhado de discos de diamante (mais de 1 milhão de cópias por álbum) para chamar de seus.

Fechando com o fenômeno Ivete Sangalo – há mais de uma década a artista mais popular do Brasil – e apontando para Saulo Fernandes o que pode ser a continuidade num momento de declínio comercial e de prestígio em baixa, muito em função da perda de conexão com a nova geração consumidora, "Axé..." retrata com fidelidade e precisão o movimento musical de maior sucesso do país surgido e estruturado 100% fora do eixo Rio-SP. Uma monstruosa indústria de ritmos, hits, modismos, lucros, egos e sonhos que só podia ter acontecido, do jeito totalmente porreta que aconteceu, na Bahia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Dez discos de 2016 para se escutar em 2017 (e em 2018, 2019...)

24K Magic (Bruno Mars): O melhor do new jack swing noventista rejuvenescido em grande estilo pelo cara que manda e desmanda hoje em dia.

- ANTI (Rihanna): Contando com uma excepcional releitura de "Same Ol' Mistakes", do Tame Impala, a mulé lacrou geral nazinimiga – de novo.

- Blackstar (David Bowie): Uma aula de dignidade e de boa música no epílogo de um grande mestre. Cara que faz uma falta da porra...

- Blue & Lonesome (The Rolling Stones): As raízes expostas no blues que ajudaram a forjar a maior banda de rock em atividade. Imperdível.

- Duas Cidades (BaianaSystem): O pós-Axé que pulsa na periferia de Salvador fala pro mundo inteiro. Coisa de gente grande e antenada.

- Gatos e Ratos (Odair José): O cronista popular reencontrou a boa forma no bom e velho rock'n'roll. Não sobra pra ninguém neste ótimo disco.

- Mahmundi (Mahmundi): Principal revelação da música brasileira em 2016. Álbum que renova as esperanças em muita coisa. Apenas excelente.

- O Problema É A Velocidade (Emanuelle Araújo): A baiana tirou onda com um disco lírico, cheio de nuances, mas sem dispensar o suingue nagô.

- Sky High (Fish Magic): O segundo trabalho solo do brother Mário Quinderé é denso e bebe de muitas fontes, resultando num rock atemporal.

- Starboy (The Weeknd): Apesar de excessivamente longo, o petardo pop tem belíssimos momentos, como as duas parcerias com Daft Punk.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Uma Medellín de amor e lágrimas para o mundo ver



O que aconteceu nesta quarta-feira dentro e fora do lotado estádio Atanásio Girardot, em Medellín, foi algo para fazer recobrar a fé na humanidade até no mais cético e duro ser humano. Demonstração de respeito e amor em níveis caudalosos, extremos.

Jamais vi ou tive conhecimento de algo próximo: uma celebração gratuita de solidariedade em dimensões colossais montada em poucas horas. Nada ali foi trivial. Pensar em algo assim em meio ao caos da tragédia impressiona.

O povo colombiano, devastado por anos a fio no centro da guerra sangrenta do narcotráfico, ensinou ao mundo como agir diante da mais aguda tristeza.

O Clube Atlético Nacional se apresentou como um gigante do futebol mundial num âmbito bem além do esportivo. Uma nobreza de caráter admirável.

A Chapecoense não poderia ter pela frente um outro parceiro – rival nunca! – mais poderoso para essa final, que infelizmente jamais será disputada.

Que lição de vida, de dignidade e de irmandade.

Emocionante.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Dez shows da minha vida

  • Paul McCartney, Rio (Maracanã), 1990
  • Michael Jackson, SP (Morumbi), 1993
  • Legião Urbana, Rio (Metropolitan), 1994
  • Stevie Wonder e Gilberto Gil, Rio (Metropolitan), 1995
  • The Police, Rio (Maracanã), 2007
  • Roberto Carlos, Rio (Maracanã), 2009
  • U2, SP (Morumbi), 2011
  • Sade, Brasília (Nilson Nelson), 2011
  • Bob Dylan e Mark Knopfler, Chicago (United Center), 2012
  • Rolling Stones, Rio (Maracanã), 2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Só o começo




Diego, Donatti, Damião. Três contratações de impacto somente nos últimos 15 dias.

Guerrero, Mancuello, Juan, Ederson, Rever, Cuéllar, Arão, Sheik, Muralha. Várias contratações igualmente impactantes nos últimos 12 meses.

Todos eles jogadores que seriam titulares em praticamente todos os clubes do Brasil.

Na prática, um conjunto de contratações que dá ao Flamengo, depois de muitos anos, um elenco de candidato real ao título de campeão brasileiro.

Não se trata apenas de um time, de contratações pontuais de um ou de outro craque. Vimos isso de tempos em tempos, e quase sempre o objetivo de voltar a dominar o Brasil se frustrava. Agora há um elenco, e mais que isso.

Lá atrás tivemos Sávio, Romário e Edmundo, três ícones que, juntos, se eternizaram na piada do "pior ataque no mundo". Tivemos Alex, Denílson, Edilson, Gamarra, Vampeta e Petkovic, em um grandioso projeto que ficou apenas nos Estaduais (inesquecíveis, lindos, mas estaduais) e na finada Copa dos Campeões. Tivemos Ronaldinho Gaúcho e Thiago Silva, ambos pilotando um bonde que também nos deu apenas o domínio regional, além de um jogo eterno na Vila.

Por outro lado, graças das Deus, tivemos Adriano, Bruno, o velho Pet e a cabeçada do Angelim, naquele campeonato milagrosamente maluco de 2009.

Todos craques, cracaços, mas que vieram em rascunhos de projetos políticos isolados, que deram ao clube retorno esportivo aquém do que pretendiam e resultados administrativos terríveis. Sabemos todos que o Clube sangra no bolso até hoje.

Agora temos a oportunidade de ver outros craques especiais, novatos em se tratando de Flamengo e que ainda causa certa estranheza em parte da torcida, mas fundamentais: planejamento, estrutura e responsabilidade. Craques que não vestem a camisa, mas que valorizam o Manto Sagrado da melhor maneira possível.

O patamar do Clube mudou. A realidade hoje é outra. As cobranças aumentarão, de todos os lados. A obrigação, porém, segue a mesma: o clube mais popular do país, como diz o Apolinho, é um gigante que se alimenta de títulos. A formação do atual elenco como fruto desse processo de profissionalização da gestão só aumenta a fome desse monstro.

Apesar do cheirinho que paira no ar, o título deste ano ainda é um sonho. A diferença é que, ao contrário de outros tempos, não se trata apenas de um sonho de uma noite de verão – ou de uma temporada. É um sonho real, com perspectiva de ser duradouro.

Que seja o início de uma nova e longa era de grandeza para o Flamengo, com grandes títulos.

Comecemos pelo hepta.

SRN

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Paulo Batista Machado (1949-2016)



Filósofo, teólogo, padre, escritor, poeta, professor, mestre, doutor, PhD, político, educador... O lado profissional e a dedicação à vida pública de Paulo Batista Machado levariam muito tempo de pesquisa para ser devidamente exaltados com justiça e abrangência, dada a extensão de um currículo impecável, admirável, sem uma mancha qualquer que pudesse levantar questionamentos em relação a sua capacidade e retidão de caráter.

O reconhecimento de seus pares e de seus conterrâneos saberá louvar, com o devido tempo e com as justas honrarias, esse rico capítulo da enorme biografia de Paulo.

Quero aqui, em meio a este momento de dor, me ater à outra face do meu querido tio e padrinho Paulo Machado. Faço questão de registrar a importância, para mim, de tê-lo como referencial maior no campo do saber intelectual e da dedicação ao conhecimento. Sempre, desde muito pequeno, vi na figura de meu tio Paulo uma fonte de inteligência e de bom senso, características que o colocavam de forma natural como uma espécie de mediador da família.

Paulo, mais do que tudo isso e do que tantas outras coisas, viveu uma vida nobre sendo um homem bom, andando no caminho do bem e praticando generosidade e altruísmo. Não consigo imaginar maior legado que alguém possa deixar para os seus e para sua comunidade. Um privilégio para todos aqueles que puderam conviver e aprender com ele.

Natural de Itabuna (BA), meu querido tio Paulo partiu de Salvador nesta sexta-feira, aos 67 anos, rumo a um plano superior. O sepultamento ocorrerá na sua amada Senhor do Bonfim, da qual tinha orgulho de ter sido morador e prefeito.

Seus vastos e valorosos ensinamentos seguirão para sempre comigo, meu tio. Muito obrigado.

terça-feira, 19 de abril de 2016

As 10 mais do Rei que não são da dupla Roberto & Erasmo


No aniversário do Rei, 10 músicas espetaculares do seu repertório, gravadas originalmente por ele, mas que não são de autoria da dupla "Roberto & Erasmo":

  • Não Vou Ficar (Tim Maia) | 1969
  • Como Dois e Dois (Caetano Veloso) | 1971
  • Como Vai Você (Antônio Marcos) | 1972
  • Outra Vez (Isolda) | 1977
  • Pra Ser Só Minha Mulher (Ronnie Von / Tony Osanah) | 1977
  • Vivendo Por Viver (Márcio Greyk) | 1978
  • Força Estranha (Caetano Veloso) | 1978
  • A Ilha (Djavan) | 1980
  • Eu e Ela (Mauro Motta / Lincoln Olivetti / Robson Jorge) | 1984
  • Amor Perfeito (Michael Sullivan / Paulo Massadas / Lincoln Olivetti / Robson Jorge) | 1986

#RobertoCarlos75

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O discurso histórico de Darcy: por que Glauber chorava?

Contra a exaltação insana e covarde da memória de um matador oficial do Estado por parte de um deputado que prefiro omitir o nome imundo, em pleno plenário de Congresso Nacional (o que configura um crime tipificado em lei), relembro aqui o discurso histórico de mestre Darcy Ribeiro durante o enterro do cineasta Glauber Rocha, em agosto de 1981.

As palavras do antropólogo, uma das mentes mais brilhantes e generosas em favor da melhoria do povo brasileiro, valem para um Brasil que desgraçadamente ainda está aí e que se apresentou ontem de cara lavada, em horário nobre.

Triste.

******

"Uma vez, e eu não vou esquecer nunca, Glauber passou uma manhã abraçado comigo e chorando.

Chorando, chorando convulsivamente.

Eu custei a entender – ninguém entedia – que Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar. A dor de todos os brasileiros.

O Glauber chorava as crianças com fome.

O Glauber chorava esse país que não deu certo.

O Glauber chorava a brutalidade.

O Glauber chorava a estupidez.

A mediocridade.

A tortura.

Ele não suportava. Chorava, chorava, chorava.

Os filmes do Glauber são isso. É um lamento, é um grito, é um berro.

Essa é a herança que fica de Glauber.

Fica de Glauber pra nós a herança de sua indignação.

Ele foi o mais indignado de nós. Indignado com o mundo tal qual é.

Assim"

(Darcy Ribeiro)

******

Veja o discurso histórico de Darcy Ribeiro clicando aqui.

domingo, 17 de abril de 2016

Dia D, de derrota

Na decisão do "Fla-Flu da Insanidade", sigo de fora desse jogo.

Não assisti a nada disso que estão comentando e lamentando desde cedo. Não preciso ver as imagens para saber dos risos canalhas e dos discursos hipócritas de um bando de larápios com imunidade parlamentar, tudo em horário nobre para um Brasil de audiência. O circo já estava armado há muito tempo, esperando apenas pelo grande picadeiro midiático. Recusei humildemente o papel de palhaço da vez e preferi não dar moral para esse tipo de espetáculo deprimente, que só expõe a indigência de ideias e de caráter da qual é feita a política brasileira.

Tenho certeza que não há inocentes nessa brochura triste da nossa história, mas sei também que não há vencedores numa situação de fragilidade institucional como a que vivemos atualmente - e amigo(a), se você se vê como um vitorioso hoje, eu lamento muito pela sua inocência juvenil. O simples fato de saber que a condução desse processo coube a um corrupto histórico, comprovado, réu em quase uma dezena de processos na mais alta corte do país, mas que ainda assim permanece sentado na cadeira onde está, só isso, ao meu ver, já põe uma pá de cal na credibilidade desse rito.

Estou profundamente entristecido por tudo o que está acontecendo e ainda vai acontecer - e falta muita água pra rolar -, mas se eu tiver que lidar com toda essa situação, que não seja batendo palma para malucos e safados dançarem dentro da minha sala.

O lance é seguir em frente com a dignidade em alta, mesmo mergulhados num lamaçal podre com pilantras de todas as cores e credos te dando ordens e te dizendo o que é certo ou errado (melhor isso que ser surdo).

Continuar lutando e fazendo a nossa parte contra tudo o que há de ruim por aí: é o que nos resta.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O Brasil da "roupa branca" nas ruas


Em meio às grandes manifestações realizavas por quase todo o país no último dia 13 de março, surgiu nas redes sociais um debate satélite - porém pertinente - sobre o simbolismo da velha e patriarcal "casa grande e senzala" aplicada aos dias de hoje, na qual a figura central era a triste figura da "babá uniformizada de branco".

Rapidamente derivou-se daí uma série de teses completamente fora de contexto, na qual a cor da pele do patrão e/ou do empregado pode determinar se essa ou aquela situação configura-se em "preconceito de classes". Tudo a base de imagens descontextualizadas, de parte a parte.

Quando a uma determinada simbologia - remetendo a sociedades escravocratas, como nesse exemplo - é manipulada e utilizada fora de esquadro, discursos enviesados e parciais, de quaisquer naturezas, são permitidos a todos aqueles carentes de bom senso e discernimento.

Não se trata de pagar, de garantir direitos ou de dar acesso (na prática até um certo limite). Isso é o mínimo do que se pode esperar numa relação trabalhista. O lance está no simbolismo real do que representa a figura de serviçais de famílias em pleno Brasil de século XXI. Esse é (seria) o ponto.

Mas quantos realmente se importam com isso nesse louco mundo binário e maniqueísta de redes virtuais antissociais?

Enfim, segue o jogo em mais um dia de Fla-Flu da Insanidade por essas bandas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O "querer" Flamengo


Em quase todas as oportunidades, seja numa disputa de título, numa decisão de classificação ou mesmo numa partida de meio de tabela, o clássico Flamengo x Vasco se define pela demonstração do QUERER. Conquista, avança e vence aquele que QUER mais – e sob esse aspecto cabem inúmeras qualificações: gana, disposição, luta, intensidade, vibração, (às vezes) técnica... O "querer mais do que o outro" se traduz no combustível que move um rival a superar o outro mesmo sem ter, na prática, o melhor time ou os melhores jogadores. No livro escrito por esses dois gigantes desde 1922, ganha quase sempre quem QUER mais, não simplesmente quem "pode" mais.

E o que isso tem a ver com o atual momento? Obviamente tudo. O que assistimos quarta-feira passada na primeira partida foi um Vasco caçando cada jogador do Flamengo como um grande dever ancestral, uma espécie de "imposição de honra". O jogo foi tecnicamente um ruim, pobre? Muito, mas a missão cruzmaltina foi cumprida. Não houve um pingo de dúvidas para qualquer um que esteve no Maracanã ou que viu pela televisão: o Vasco quis muito, muito mais aquela vitória do que o Flamengo. Já havia sido assim na fase decisiva do Campeonato Estadual. Nas duas ocasiões, quis e conseguiu.

O que ficou para o Flamengo após mais uma derrota no ano frente a seu arquirrival, como um fato incontornável, foi a total ausência da mítica ALMA RUBRO-NEGRA no primeiro confronto. Um time sem pulsação, frio (no pior dos sentidos), desconectado com a intensidade do adversário e com a importância da competição para o clube. Parecia que o Maracanã havia sido transportado do Rio de Janeiro para a Sibéria, onde descansam os restos mortais daquele famoso ex-deputado.

São inúmeras as vitórias épicas do Flamengo no Maracanã, tanto em decisões memoráveis quanto em jogos menores e já esquecidos pela maioria. Em todas elas o Flamengo foi, durante a maior parte do tempo, detentor absoluto desse "querer mais". A imagem daquele Mengão avassalador, que entope o Maracanã de gente e pressiona o adversário, surgiu antes de tudo da tão propalada RAÇA RUBRO-NEGRA – me refiro não à torcida organizada, mas àquilo que marca os esquadrões vermelho e preto. "QUEREMOS RAÇA! QUEREMOS RAÇA!", gritamos todos em algum momento das nossas vidas nas arquibancadas, cadeiras ou na geral. Não era um pedido, era uma exigência.

É nesse contexto que quarta-feira agora, mais do que qualquer outra coisa, o Flamengo terá que se vestir de raça da chuteira à camisa se quiser bater o seu oponente histórico e passar às quartas-de-final da Copa do Brasil. A raça do correr mais que eles, de dar o carrinho certeiro e salvador, de pressionar em cima, dos chutes de dentro e fora da área, dos gols necessários. Se os 11 rubro-negros que entrarem em campo incorporarem o ESPÍRITO DE FLAMENGO, aquele que nenhuma outra agremiação tem igual e que tanta inveja causa Brasil à fora, nós vamos avançar. Mas o time e a torcida têm que querer, e querer muito mais do que o lado de lá.

Fica o desafio.

SRN

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Carlinhos, o Violino (1937-2015)



Luís Carlos Nunes da Silva, o Carlinhos, por 516 vezes vestiu o Manto Sagrado. Destacou-se como um volante técnico e refinado, a ponto de ganhar o apelido de Violino. Como se fosse pouco, como se precisasse mais, tornou-se anos depois "somente" o maior técnico de futebol da história do Flamengo.

Em 313 jogos dirigindo o futebol rubro-negro, Carlinhos ganhou uma Copa Mercosul (1999), dois Campeonatos Brasileiros (1987/1992) e três Campeonatos Estaduais (1991/1999/2000). Um multicampeão, ainda que estivesse sempre sob o crédito de "solução caseira" – o que era uma verdade inconteste.

Ele era de casa, era da Gávea, fosse como funcionário ou torcedor. Vivia o Flamengo no seu dia a dia, como um hábito, no amor e com prazer, sem maiores pretensões de fundo. Assim, com esse verniz da humildade sincera, se fez uma verdadeira lenda na longa história de conquistas do clube. Um mito.

Monstro de voz mansa, muita classe e aparência sempre tranquila, o Violino partiu nesta segunda-feira, aos 77 anos. Sem nenhum exagero: poucas pessoas no mundo foram mais rubro-negras do que ele. Fica o nosso muito obrigado, mestre. O Flamengo e os flamenguistas seremos eternamente gratos a você.

terça-feira, 26 de maio de 2015

O ocaso de Luxemburgo

"Pofexô" Vanderlei Luxemburgo mostrou-se em muitos momentos da lamentável entrevista coletiva concedida há pouco um poço de amargura, covardia e pequenez.

Se oferecendo miseravelmente ao São Paulo, tal qual uma messalina ávida por qualquer trocado, foi incapaz de reconhecer os problemas técnicos gritantes do time devidos exclusivamente ao seu fraco trabalho.

Tentou a todo o momento arrastar Rodrigo Caetano junto na sua queda, que segundo ele foi motivada - ora veja - pela sua "forte personalidade".

Preferiu se apoiar apenas na falta de reforços e em desfalques pontuais de ordem médica para justificar o péssimo futebol apresentado pela equipe desde o final do ano passado.

Mais à frente, tirou da cartola uma louca roleta russa e pôs a culpa de todos os seus fracassos nas quatro passagens pelo clube em Kléber Leite, Romário, Márcio Braga, Ronaldinho, Patrícia Amorim, Bandeira de Mello...

"Eu não tenho culpa, nunca tive".

Fez questão de se apresentar como "eleitor e homem de Patrícia Amorim" dentro da atual gestão, a qual ele se opõe em diversos pontos.

Cereja do bolo, qualificou a angustiante fuga do rebaixamento de 2014 como um dos grandes momentos da sua carreira, talvez o seu grande título.

Ao final, ficou claro que, como profissional de futebol, Vanderlei Luxemburgo morreu e não sabe.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Agnaldo Borges, o Borjão (1946-2015)

Perdi meu amado pai Agnaldo Borges em 21 de janeiro de 2015 – o pior de todos os dias da minha vida. Ele tinha 68 anos de idade. Sempre imaginei o pavor que seria passar por uma tragédia dessa magnitude. A dor de viver o momento e o vazio posterior são piores que tudo.

O breve, verdadeiro e emocionante relato biográfico logo abaixo foi escrito pelas mãos de meu tio Paulo Batista Machado, que conviveu com meu pai desde quando pároco em Maricá (RJ), nos anos 1970, até chegar a prefeito de Senhor do Bonfim (BA), na década atual.

As palavras de meu tio dizem muito da jornada riquíssima e única que meu pai teve em vida, ainda que os anos de viagens e passagens antológicas caibam apenas numa extensa biografia. São as inesquecíveis histórias que ouço desde menino em tardes de festas, encontros e conversas.

Histórias que, para mim, jamais terão fim.




AGNALDO BORGES, UM PIONEIRO DA CULTURA E DA MÚSICA NO NORDESTE BRASILEIRO
por Paulo Batista Machado

Agnaldo Borges, ou Borjão, como era chamado carinhosamente entre os artistas e por seus amigos, foi um pioneiro da cultura e da música por esses rincões do nordeste. Falecido no Rio de Janeiro, no último dia 22 de janeiro, deixa saudades e leva consigo esta marca de pioneirismo. Filho de Brejão da Grota, Campo Formoso, sendo os seus pais Januário Amaro de Souza e Maria Ana Borges de Souza, nasceu aos 12 de junho de 1946 de uma família numerosa que migraria para o eixo Rio-São Paulo. Foram ou são seus irmãos Leticia (Leta), AnaMaria, Analita, Eliene, Irenildes, Alípio e Janualdo (vivos) e Manoelito, Reginaldo, Renato e Anailde (falecidos). Contraiu núpcias com Maria José Machado aos 15 de março de 1975 na Igreja dos Padres Capuchinhos, em Feira de Santana, Bahia. Dessa união nasceriam seus dois únicos filhos, Oldon Machado e Polyanna Machado.

Desde adolescente, sentiu pendor para a arte, especialmente para a música, o que o levaria a unir o agradável ao útil, tornando-se empresário de cantores ou artistas ao longo de duas décadas. Agendava shows na Bahia e em estados vizinhos, matando assim a sede e a curiosidade de centenas de pessoas que conheciam os artistas apenas pelo rádio ou pelos serviços de alto-falantes instalados em postes, e ouvidos à calçada, cada noite.

Os shows eram oferecidos em clubes, circos, auditórios e praças públicas, tendo como atrações principais artistas então em evidência como Perla, Jerry Adriane, Wanderley Cardoso, Fernando Mendes, Odair José, Diana, José Augusto, The Fevers, Renato e Seus Blue Caps, Paulo Sérgio, Waldirene, Eduardo Araujo, Silvinha, Jair Rodrigues, Tony Tornado, Cauby Peixoto, Angela Maria, Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Rosemary, Claudia Barroso, Roberto Carlos e Raul Seixas entre outros.

Em uma época de poucas mídias, Agnaldo Borges contratava os artistas, viajava às cidades para agendar os shows e nas datas aprazadas percorria cidades e regiões, em apresentações de muito público, todos interessados em ver de perto os seus ídolos. Temporadas de maior sucesso, temporadas de menor sucesso, e o desafio de lidar com “artistas-estrela”, cada um com suas manias e contradições, este era o seu dia-a-dia que lhe custara problemas e manchetes de jornais e rádio, que ele costumava recordar entre risadas.

Agnaldo Borges lembrava sempre o atrito com Paulo Sérgio, em Juazeiro, que não cumprira cláusulas importantes do contrato, fato difícil a resolver porque o delegado era fã do cantor e não deixava nem Agnaldo explicar o ocorrido e defender os seus direitos; mais marcante foi a atitude de Raul Seixas, que vendera dez shows com pagamento antecipado, no auge de sua carreira, e “fora de si” abandonou o palco no primeiro show programado, em Alagoinhas, escondendo-se em um sitio no recôncavo, provocando prejuízos de grande monta aos clubes que agendaram os referidos shows. Fala também da vinda à Serra da Carnaíba, para apresentar-se na Casa de Shows de Fachinetti, das três primeiras colocadas em um concurso de Misse Brasil, o que chamou a atenção de toda a região.

Com o advento da televisão, e da banalização da imagem dos “ídolos” ou “deuses”, Agnaldo Borges, nosso Borjão, resolveu parar: já não existiam o imaginário, o mistério, que alimentam a curiosidade e o exótico indispensáveis a iniciativas como as que alimentou e operacionalizou durante anos.

Agnaldo Borges foi sem dúvida elo importante no processo de integração do nordeste ao mundo do rádio, da cultura e da música. A nossa história será incompleta se não for contada e recontada a saga de pioneiros em um Brasil que foi engolido pelas emergências da contemporaneidade. E nesse processo de contar, ele será sempre um valente pioneiro. Salve, grande Agnaldo Borges!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

30 anos de axé music: 30 sucessos nacionais

O carnaval de 2015 marca as comemorações dos 30 anos do primeiro sucesso, em nível nacional, da chamada "axé music" – ou, de forma mais didática, 30 anos do surgimento para o Brasil da safra de novos artistas criados nos blocos de trio em Salvador ao longo da primeira metade dos anos 1980. Genericamente, a boa e velha MÚSICA BAIANA de tantos sucessos, carnavais e micaretas.

A explosão nacional da fusão sonora de frevo, galope, pop-rock e influências caribenhas, tendo como base rítmica o samba-reggae dos blocos afro da capital baiana (forjados especialmente no Olodum e no Ilê Aiyê), se deu com "FRICOTE", de Luiz Caldas. A música é o carro-chefe do álbum Magia, de 1985, que promove o ex-vocalista da banda Acordes Verdes em carreira solo. E que estreia.

A chegada da produção musical carnavalesca de Salvador às rádios e TVs do Brasil gerou todo um MOVIMENTO na vida cultural da cidade, que via crescer um novo e promissor nicho de mercado. Na esteira de Caldas veio uma leva de artistas que se juntariam a outros tantos cada vez que surgia um novo fenômeno baiano – como Daniela Mercury, que explodiu como estrela nacional em 1992.

Se o momento atual reflete um cenário de escassez criativa e de entressafra nas revelações, historicamente a axé music contabiliza, em seus 30 anos "oficiais", centenas de sucessos, dezenas de milhões de cópias vendidas e um grande número de astros e estrelas com inegável talento para o showbiz. Abaixo, as 30 canções mais importantes e de maior sucesso nas três décadas de AXÉ.


TIRA O PÉ DO CHÃO!


Fricote - Luiz Caldas (1985)





• É D'Oxum - Geronimo (1985)



• Gritos de Guerra - Chiclete com Banana (1987)




• A Roda - Sarajane (1987)




• Faraó Divindade do Egito - Djalma Oliveira & Margareth Menezes (1987)




• Madagascar Olodum - Banda Reflexus (1987)




• Protesto do Olodum - Banda Mel (1988)




• Beijo na Boca - Banda Beijo (1989)




• Swing da Cor - Daniela Mercury (1991)




• Canto ao Pescador - Banda Cheiro de Amor (1991)




• Com Amor - Asa de Águia (1991)




• O Canto da Cidade - Daniela Mercury (1992)




• Prefixo de Verão - Banda Mel (1992)




• Baianidade Nagô - Banda Mel (1992)




• Cara Caramba Sou Camaleão - Chiclete com Banana (1992)




• É o Bicho - Ricardo Chaves (1993)


 


• Nossa Gente (Avisa Lá) - Olodum (1993)




• Doce Obsessão - Banda Cheiro de Amor (1993)




• Beija-Flor - Timbalada (1994)




• Araketu Bom Demais - Ara Ketu (1994)




• Milla - Netinho (1996)




• Beleza Rara - Banda Eva (1997)




• Arerê - Banda Eva (1997)




• Rapunzel - Daniela Mercury (1998)




• Bate Lata - Banda Beijo (2000)




• Festa - Ivete Sangalo (2002)




• Sorte Grande - Ivete Sangalo (2003)




• Coração - Rapazolla (2005)




• Praieiro - Jammil e Uma Noites (2005)




• Quebra Aê - Asa de Águia (2007)